AODISSEIA
Séries

Séries: Black Mirror (3ª Temporada) – Parte II

25 de outubro de 2016 - 11:00 - felipehoffmann

Black Mirror é bizarramente genial. A realidade alternativa que ali se passa não é lá tão distante da nossa. Todos os acontecimentos, em especial dessa temporada, são cabíveis de acontecer num futuro bem mais próximo que a gente pode imaginar.

[Como sempre: Cuidado com os Spoilers!]

A Netflix encaixa com perfeição um de seus maiores produtos. O reflexo obscuro da sociedade é muito forte aqui, toda a dependência tecnológica, o ódio destilado das redes sociais e a fuga da própria realidade são elevados com uma perturbadora maestria pelo canal de streaming. Como dito pelo Flávio na PARTE I, a ousadia nos roteiros carregados à boas mãos, fazem de Black Mirror uma das mais complexas séries de seu tempo.

  • Episódio 04 – “San Junipero”

black_mirror_san_junipero_critica_netflix_a_odisseia_cultura_pop

As histórias de amor de Black Mirror geralmente envolvem paranoias ou robôs substitutos. Contudo, em San Junipero somos apresentados a um romance – bem mais leve que usual – entre duas mulheres que vivem suas vidas em 1987. Parece estranho falar de tecnologia na década de 80, mas o pretexto aqui é desenhar possíveis fugas de uma vida sofrida e rasurar uma essência de vida após a morte.

Kelly (Gugu Mbatha-Raw) e Yorkie (Mackenzie Davis) desenvolvem um relacionamento ao melhor estilo gato e rato. A fuga de uma é o âmago de uma vida que a outra jamais pode ter. Kelly, na verdade, é uma senhora que convive com a dor da perda de uma filha e de um relacionamento pra lá das bodas de esmeralda. A tecnologia disponível lhe permite revisitar tempos distantes, onde sua jovialidade representava o vigor de uma vida cheia de sonhos, viagens e amores. Em contraponto, Yorkie nunca pôde ter essa vivacidade de outrora. Um acidente lhe tirou os movimentos do corpo e, por isso, acomodou-se com o encadear da vida.

A forma como Owen Harris monta a narrativa esconde a verdade sobre a tecnologia existente. Quem assiste demora um certo tempo para entender que aquilo de fato é um ambiente virtual, com amarras tateáveis. Nesse episódio, a tecnologia é pretexto para tratar de amores, eutanásia e repressões sexuais. Aqui a morte pode sim ser o melhor caminho para quem criou memórias trancafiadas dentro de uma sociedade cheia de valores supostamente inabaláveis.

San Junipero aborda a homossexualidade como deve ser, de forma leve, sobrepondo o amor acima das coisas. Dar a volta por cima é construir um futuro sem as dores do passado, onde as vidas se encontram num universo sem angústias, julgamentos ou qualquer negativismo. Num jogo de escapismos morais, talvez seja possível vivermos felizes para sempre.

  • Episódio 05 – “Men Against Fire”

Black Mirror

Associar seres humanos à baratas é uma analogia muito cruel quando se olha o contexto de Men Against Fire. A Europa vive uma onda extremamente forte de migração dos refugiados sírios, que foram forçados a sair das suas terras por não terem perspectivas de vida em meio ao caos que uma guerra provoca. Toda essa dispersão pelo velho continente trás à tona fortes pensamentos sobre racismo, xenofobia e intolerância. Engenharia Reversa (título em português) toca nessa ferida, de forma profunda, escorrendo o sangue de um futuro que infelizmente é muito plausível de calhar.

Stripe (Malachi Kirby) é um soldado do exército britânico que embarca em uma missão para caçar as tais baratas. O governo cria a ilusão na cabeça dos combatentes, como forma de aumentar sua eficiência nas batalhas. A utopia tecnológica retira os sentimentos dos soldados, aumentando seu poder de concentração. O ponto de virada do episódio é justamente uma arma que reverte a perda sentimental, deixando o soldado, simplesmente, mais humano.

Jakob Verbruggen (House Of Cards) constrói esse episódio de Black Mirror fazendo-nos acreditar que as baratas realmente são monstros zumbificados, porém o desenrolar da narrativa entrega uma compilação de sentimentos e mostra que na realidade, a ilusão das criaturas é a sua cabeça que cria e o ser desprezível de outrora é um ser humano como qualquer outro. As baratas são refugiados, que carregam consigo o fardo de ser uma “raça inferior” velando doenças que ameaçam o resto da humanidade.

“Penso que a principal razão por que nos rebelamos contra a guerra é que não podemos fazer outra coisa. Somos pacifistas porque somos obrigados a sê-los, por motivos orgânicos, básicos. E sendo assim, temos dificuldade em encontrar argumentos que justifiquem nossa atitude. E quanto tempo temos que esperar até que o restante da humanidade também se torne pacifista?”

Esse é um trecho de uma carta enviada por Einstein a Freud em 1932. Questionar a razão do ódio em meio a guerra não vem de hoje, e cultivar sentimentos raivosos não é da índole humana, a menos que o mesmo seja iludido. Retirar sentimentos é a ponta cruel no fascínio que o homem criou em tentar ser superior ao outro.

  • Episódio 06 – “Hated in the Nation

Black Mirror

A parte mais perturbadora de Black Mirror é a associação ao real. Ao que está próximo de você e que é presente no dia a dia. Basta entrar no Facebook ou Twitter por exemplo e não esperar mais que 30 segundos pra ver alguém destilando ódio pela tela do seu dispositivo. É muito simples e “seguro”, pois a tecnologia te protege de um contato real onde as palavras de um não são capazes de argumentar com o olho no olho do outro.

O drama policial de 90 minutos  se desenvolve ao redor de Karin Parke (Kelly Macdonald), uma detetive que, junto de sua sombra, Blue (Faye Marsay), investigam a morte de uma jornalista que sofrera severos ataques nas redes sociais em razão de um polêmico artigo de sua autoria. O fio condutor do episódio é uma abelha robótica, inicialmente criada para ajudar no ecossistema, porém fora hackeada por um indivíduo e, a partir da hashtag #deathto, ele usa as abelhas para matar o mais odiado nas redes sociais.

A internet deu voz a qualquer pessoa, e qualquer expressão que confronte o pensamento da mesma é motivo para dilacerar palavras asquerosas carregadas de rancor. Porém, na outra ponta desse ódio, está o atacado, que, atingido por todo esse ódio, sofre as consequências mentais daquilo que fez. A justiça incumbida de 140 caracteres não traz o peso das consequências de quem incita a violência mas tem medo de falar o que pensa na frente de alguém pelo pânico do julgamento.

Esse é apenas um dos questionamentos que Hated in the Nation traz consigo. O roteiro de Charlie Brooker é extremamente complexo e amarra diversos pontos de discussão atuais. Os mini drones disfarçados de abelhas, por exemplo, são na verdade um plano governamental de espionagem como desculpa que é preciso para combater o terrorismo e implantar a paz na sociedade. A liberdade de expressão e o respeito ao próximo também são botados em cheque, quando um cantor exprime sua opinião, por mais forte que ela seja, e as pessoas simplesmente o atacam por não concordar com o que ele disse. Junta-se a isso uma fotografia angustiante, com enquadramentos tortos e desconfortáveis, passando exatamente a aflição que toda a narrativa constrói, para criar um episódio fantástico que te prende durante uma hora e meia.


No geral, em diversos momentos Black Mirror deixa de ser uma série de ficção científica e se encaixa muito mais à nossa realidade. A tecnologia é apenas um pressuposto para uma análise crítica e extremamente plausível da sociedade. São seis episódios complicados de assistir pelo fato de serem difíceis de digerir e pela proximidade que nos traz. A Netflix acerta em cheio na temporada e Charlie Brooker prova mais uma vez que o problema não é a tecnologia e, sim, o homem que faz dela uma vilã.


 

odisseia-06