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Séries

Séries: Black Mirror (3ª Temporada) – Parte I

24 de outubro de 2016 - 14:00 - Flávio Pizzol

Entre avaliações, games inovadores e sextapes



Black Mirror
está no topo da minha lista de séries favoritas há algum tempo e boa parte dos motivos já foram reunidos aqui, logo a ansiedade para esse retorno nas mãos da Netflix era a maior possível. E não existe sensação melhor do que chegar aqui e dizer que a série voltou com tudo, aproveitando ainda mais a liberdade criativa que as produções via streaming tem oferecido.

[Sim, esse texto tem spoilers e será melhor aproveitado por quem já viu os episódios. Pode assistir e voltar aqui.]

Os roteiros continuam ousados, os temas extremamente atuais, as discussões pertinentes e a escolha dos diretores cada vez mais precisa. As escolhas de nomes reconhecidos do cinema como Joe Wright (Anna Karenina) e Dan Trachtenberg (Rua Cloverfield, 10) casam com a utilização de gêneros recorrentes nas carreiras deles e deixam claro que a Netflix investiu pesado nessa temporada. O resultado é sensacional e merece ser explorado com calma (principalmente nos aspectos sociais e tecnológicos), por isso nós vamos dividir a análise em dois posts distintos. Eu vou falar sobre os três primeiros episódios e o Felipe Hoffmann vai ficar responsável pelos outros, então sem mais delongas vamos lá.

  • Episódio 01 – “Nosedive”

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Imaginem um mundo onde as as avaliações nas redes sociais fossem a principal moeda corrente, traçando uma verdadeira desigualdade social entre quem possui notas altas e quem não tem. As avaliações definem do valor do seu aluguel até os seus círculos de amizade e fazem muitas pessoas tenham que implorar por uma avaliação para manter seu emprego, recorrendo a contratação de especialistas no assunto. As pessoas não conversam mais, algumas pessoas são tratadas com repúdio sem ter a chance de se explicar, os relacionamentos são definidos pelas notas e o mundo é forjado pela falsidade das imagens criadas.

Um pouco chocante, não é? Fica ainda pior quando percebemos que estamos muito perto de viver nesse mundo. Basta transformar as avaliações em curtidas no Facebook e no Instagram, lembrar que muitas promoções oferecem descontos para quem compartilha uma foto e voilá: bem-vindo ao nosso querido século 21.

Tudo o que os roteiristas – e comediantes – Rashida Jones (Amizade Colorida) e Michael Schur (criador de Brooklyn 99 e Parks and Recreation) fizeram foi desenvolver uma brilhante sátira social bem no estilo Jane Austen, substituindo os dilemas da alta sociedade britânica pelas redes sociais. A apresentação desse contexto levemente exagerado incomoda e o desenvolvimento cercado pela dose perfeita de humor negro deixam claro que a dupla entendeu a dinâmica e a discussão central do programa. O ritmo é relativamente lento, o lado bom do sistema nunca é apresentado e o final da sequência do casamento cai no óbvio, mas eles não tinham como fugir muito disso dentro do que foi estabelecido.

O diretor britânico Joe Wright (Orgulho e Preconceito) aproveita sua relação recorrente com um humor mais sutil e com os romances que dramatizam a sociedade para conduzir tudo com perfeição. Os movimentos de câmera são calculados, os cenários são explorados com calma e o trabalho de Bryce Dallas Howard (Jurassic World) como a protagonista é sensacional, fazendo o espectador sentir pena de Lacie enquanto reflete sobre a sua preocupação com as curtidas. E a cereja do bolo chega com os últimos minutos do episódio, já que a ausência do filtro avaliativo permite que a personagem finalmente veja os detalhes e possa dizer o que realmente sente. Uma conclusão simbólica e emocional que só Black Mirror poderia fazer.

  • Episódio 2 – “Playtest”

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Uma das características mais interessantes de Black Mirror é a possibilidade de navegar por gêneros diferentes em cada história. O segundo episódio dessa temporada entende isso ao pé da letra, apoia seu desenvolvimento no terror e, ao mesmo tempo, se estabelece como uma das tramas mais solitárias (ou diferentes) da série. Playtest discute alguns aspectos sociais relevantes e atuais, mas é muito mais sobre como uma tecnologia imersiva pode influenciar a mente de uma pessoa.

Esse o ponto de partida para Charlie Brooker nos apresentar uma versão exagerada da tão comentada realidade virtual, onde um jogo inovador usa os próprios medos do usuário para assustar. Assim o roteiro entrega uma história de terror de primeira qualidade, apresentando o protagonista com calma para dar tempo do público gostar de Cooper (o carismático Wyatt Russell), desenvolvendo-se de forma linear e misturando verdades e mentiras no cenário até explodir a cabeça do espectador com uma sequência de reviravoltas chocantes. Pra colocar fogo nas reflexões, você só precisa lembrar que jogos de terror dentro desse conceito já são uma realidade e, supostamente, possuem consequências similares ao final do episódio.

O fato da direção estar na mão da revelação Dan Trachtenberg só ajuda a entregar um resultado certeiro, já que Rua Cloverfield, 10 é um dos melhores filmes de suspense/terror do ano. Ele cria transições bem inventivas entre as cenas, prepara os sustos sem muito alarde, tira sarro com os clichês do gênero e posiciona as reviravoltas no lugar certinho criando uma das histórias mais movimentadas até aqui. Talvez perca um pouco do conteúdo social ao optar por explorar as consequências da realidade virtual, mas o episódio continua atual, dramático e extremamente divertido.

  • Episódio 3 – “Shut Up and Dance”

Black Mirror

Para terminar minha jornada sobre Black Mirror, o terceiro episódio traz de volta um tema mais complexo e conectado diretamente com a nossa sociedade: a imortal e tão “divertida” zoeira. Claro que essa revelação só é feita nos últimos minutos como em toda boa pegadinha, mas casa perfeitamente com a ideia de mostrar que a simples distração de um grupo de pessoas pode ter consequências terríveis para outras. A trollagem está em alta e poucos são aqueles que pensam a longo prazo quando, por exemplo, compartilham um nude da ex-namorada nos seus grupos de whatsapp.

Dentro desse contexto absurdamente real, Charlie Brooker subverte nossas expectativas com uma trama de puro suspense. Bem no estilo de White Bear, os personagens não param de correr em nenhum instante, o desenrolar dos fatos não se preocupa em dar grandes explicações e a tensão prende o espectador no sofá durante pouco mais de 50 minutos. É uma mistura bizarra entre sextapes, paranóia e chantagem virtual que nos permite criar empatia pelos protagonistas em pouco tempo e torcer por um final feliz, mesmo sabendo que isso quase nunca é uma realidade em Black Mirror.

O resultado é um episódio sensível, ágil e tecnicamente irreparável. A direção de James Watkins (A Mulher de Preto) sabe transmitir a confusão, o sufoco e a pressão que os personagens estão sentindo através de uma câmera de mão sempre em movimento ou colada no rosto dos personagens. O jovem Alex Lawther (O Jogo da Imitação) e Jerome Flynn (Ripper Street) também se entregam de corpo e alma na hora de demonstrar o desespero durante o processo. Eu certamente consegui entender o sofrimento de quem não quer perder a família ou ser ainda mais aterrorizado no trabalho.

A trama até parece um pouco com Nerve – Um Jogo Sem Regras no formato de jogo, nos comandos enviados via celular e na correria imposta pelas cenas, mas os últimos minutos mostrando o final do dia de cada jogador apresentado até então é de partir o coração. É aquele toque final que só Black Mirror consegue apresentar, deixando ainda mais claro na minha cabeça que o próprio filme citado poderia ter explorado as consequências do seu jogo com mais segurança e coragem.


Os três primeiros episódios são bem interessantes dentro da proposta do programa, fazem o espectador refletir e vão ficar na minha memória por pelo menos um motivo, mas nenhum deles tem força para superar o que foi feitos nos outros episódios. Tem eutanásia e repressão sexual com um final feliz, uma metáfora maravilhosa sobre os discursos ideológicos voltados para o ódio e uma investigação policial sobre haters e espionagem. São combinações únicas e marcantes que o Felipe Hoffmann vai comentar amanhã.


OBS 1: Uma das coisas mais legais de Black Mirror são as muitas camadas e metáforas utilizadas nas histórias. Elas permitem que cada pessoa possa ter uma interpretação diferente do episódio, então não se acanhe nos comentários. Fale pra gente o que você achou ou se a gente deixou algum comentário social de fora.


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