AODISSEIA
Séries

Séries: Big Little Lies (1ª Temporada)

10 de Abril de 2017 - 09:00 - Flávio Pizzol

A vida é uma caixinha de pequenas mentiras


Localizada no estado da Califórnia, a cidade de Monterey é um recanto litorâneo, pacato e extremamente rico que parece atrair mulheres poderosas e suas famílias, graças a segurança e a educação de primeira classe. Um belo dia, a singela rotina desse lugar é alterada por um violento assassinato que revela várias camadas de intrigas, mentiras e falsas aparências. A polícia parece não ter dúvida sobre o culpado, mas todos podem ser suspeitos aos olhos de quem não conhece a vítima, o assassino ou o tempo que se passa entre o início dos flashbacks e a fatalidade. É nessa vibe de O Rebu que a HBO apresenta Big Little Lies, sua nova e acertadíssima minissérie.

[Alerta: Esse texto tem spoilers, porque eu quero comentar certas reviravoltas da trama. E o final também…]

Baseado fielmente no best-seller de Liane Moriarty, o roteiro de David E. Kelley (The Crazy Ones) pode ser enquadrado como um suspense criminal disfarçado de crônica social. Isso quer dizer, em primeiro lugar, que TUDO – dos segredos escondidos aos ótimos diálogos – foi arquitetado minuciosamente para apresentar conflitos em potencial, desviar a atenção do espectador e revelar possíveis respostas aos poucos. Entretanto, o centro dramático da narrativa continua focado na vida aparentemente comum de três mulheres (com mais algumas correndo por fora) da alta sociedade.

Todas elas possuem contextos familiares específicos, enfrentam seus próprios dilemas pessoais e convivem de formas diferentes com a educação dos filhos e a violência doméstica. Por mais que a trama gire em torno de um crime típico, o segredo de Big Little Lies está no desenvolvimento de protagonistas – e coadjuvantes – femininas fortes, decididas e cheias de nuances emocionais. Elas usam suas mentiras e inseguranças para manter fachadas intactas, compondo um cenário tão complexo e impressionante que merece ser analisado em partes.


Sigam-me os bons!


Madeline Mackenzie é a dona da personalidade mais forte de Big Little Lies, graças ao seu jeitinho expansivo e dominador. Ela sente a necessidade de estar presente na vida de todos, tirar a peça de teatro do papel de qualquer jeito, ajudar Jane sem pensar nas consequências e, logicamente, manter a aparência de mulher sensata e poderosa. Isso coloca, mesmo que involuntariamente, ela e sua família no centro da narrativa quando a briga com Renata (Laura Dern) começa a tomar forma.

Enquanto isso, sua filha adolescente (Kathryn Newton) parece ter direcionado o espírito da mãe para sua rebeldia adolescente e seu marido (Adam Scott) só abandona sua rotina pacata para defender a mulher que tanto ama. Seus limites começam a ser testados quando precisa lidar tanto com o crescimento natural de suas herdeiras, quando com uma violência psicológica que ela aplica sobre si mesma para esconder uma traição.

Reese Whiterspoon (Johnny & June) injeta uma energia contagiante em Madeline, funcionando realmente como atração ou força motriz para as outros núcleos. Sua expressão corporal decidida apresenta alguém que escolheu estar no centro do mundo, mas seu olhar perdido vai entregando alguém que usa o bom-humor como disfarce. Ela cresce bastante quando esse lado ganha evidência através de emocionantes cenas solitárias ou diálogos onde ela pode expôr todas as suas confusões.


Nunca olhe para trás!


Por outro lado, Jane Chapman é apenas uma mulher simples que cruza o caminho de Madeline por total acaso. Ao contrário de 90% da população de Monterrey, ela não tem ambições aparentes ou escolheu a cidade por suas enormes qualidades sociopolíticas. Seu objetivo é simplesmente conseguir um emprego, criar seu filho Ziggy (Iain Armitage) sozinha e deixar seus traumas mortos e enterrados.

Nada parecia estar no caminho desses planos até o menino ser acusado de agressão no primeiro dia de aula. Jane começa a pensar que a violência poderia ter sido transmitida por DNA, considerando que Ziggy nasceu após um estupro cometido por um desconhecido após uma festa. A cena é recriada com uma sutileza exemplar e os inserts – até então aleatórios – da personagem correndo na praia são explicados com uma montagem divina. E as coisas ainda pioram quando Madeline incentiva uma busca pelo verdadeiro culpado.

Shailene Woodley (Pássaro Branco na Nevasca) compõe a personagem com uma mistura sensacional de força e carinho, principalmente quando se trata de proteger o filho das injustiças propagandas pelos outros pais. Seu sofrimento é palpável, seus desejos de vinganças críveis e aquele olhar no clímax revela tanta coisa que é impossível traduzir em palavras. É impossível garantir que todas elas perceberam que estavam frente a frente com o estuprador, mas a verdade presente ali é indiscutível. É certo que Woodley não merece ser definida por suas atuações na saga Divergente.


O casamento (im)perfeito


Celeste Wright é apresentada como uma mãe devotada que possui o casamento perfeito com um homem rico, dedicado e muito bonito (Alexander Skarsgård). No entanto, a necessidade de manter as aparências engana até os próprios personagens e os impede de perceber que vivem um relacionamento tóxico, violento e perigoso. Perry não deixa Celeste exercer sua função como advogada, tem ciúme de qualquer movimento da mulher e ultrapassa a linha da agressão mais de uma vez.

Apesar disso, a construção brilhante de Nicole Kidman (Lion: Uma Jornada Para Casa) revela uma mulher presa em um ciclo movido pelo medo e pelo tesão. Ela sabe os perigos que corre, mas prefere abraçar os riscos para não expor os filhos aos efeitos de um divórcio, nem perder as relações sexuais quentes que rolam após as brigas. São questionamentos que também deve passar pela cabeça de milhares de mulheres que também estão presas em casamentos abusivos nesse instante, adicionando ainda a variável da estabilidade financeira em muitos casos.

Além disso, Skarsgård (A Lenda de Tarzan) entrega a melhor atuação da sua carreira, demonstrando ódio e carinho na mesma quantidade. Perry até consegue convencer como o marido apaixonado na maioria das cenas, porém o andar pesado e o olhar quase sempre fechado acabam denunciando a presença de uma violência que o acompanha há muito tempo. Ele não consegue se controlar e sua química explosiva com Nicole resulta em algumas das cenas mais fortes da minissérie.


Mulheres unidas jamais serão vencidas!


As três protagonistas ainda são cercadas por outros dois núcleos comandados por mulheres: Renata Klein (Laura Dern) e Bonnie Carlson (Zoë Kravitz). Ambas começam como meras coadjuvantes, mas vão ganhando mais importância com o avanço das brigas compradas por Madeline, do bullying sofrido por Amabela e das decisões rebeldes de Abigail. Os caminhos se cruzam e, mesmo com todas as brigas desenvolvidas, foi realmente bonito de ver todas reunidas contra um agressor no final.

Renata é uma das pessoas mais influentes da cidade e não gosta de ser enfrentada por outros cidadãos, porém seu aspecto mais interessante está na fachada de super-mãe que ela faz de tudo para manter. O excesso de trabalho impede que ela participe da vida de sua filha como gostaria, mas Laura Dern (Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros) acerta em cheio no tom, fazendo com que o público entenda as razões e o quanto isso incomoda a personagem.

Apesar de ser a personagem mais good vibes de toda a série, Bonnie surge como uma inimiga em potencial por ser a nova mulher do ex-marido de Madeline. Claro que a última não aceita que a outra seja a nova “mãe” de Abigail, no entanto o trunfo da personagem está em uma Zoë Kravitz (Mad Max: Estrada da Fúria) exala naturalidade, feminismo e sentimento materno, justificando suas atitudes finais sem precisar escancarar todos os fatos de forma didática.


A beleza também está nos detalhes…


A direção de Jean-Marc Vallée (Clube de Compras Dallas e Livre) junta todos esses núcleos com calma, paciência e atenção aos mínimos detalhes, mas não abre mão da tensão e da brutalidade que não poderiam faltar em um contexto criminal. Um dos exemplos mais marcantes é justamente a revelação sutil e chocante do estupro de Jane. Os cortes secos, a câmera subjetiva e a fotografia onírica são usados com brilhantismo para criar um momento ao mesmo tempo chocante e poético.

A poesia, inclusive, faz parte da linguagem visual da série como um todo, passando por cenários maravilhosos e uma trilha sonora escolhida a dedo. Jean-Marc e seu habitual diretor de fotografia – Yves Bélanger (Brooklyn) – usam esse clima para brincar com as nossas expectativas em torno da imagem e do som. Observem os sustos construídos pela sequência de abertura do quinto episódio (simplesmente genial!) ou a maneira como Jane se isola em seu próprio mundo com a presença da música diegética na maioria de suas cenas.

A montagem picotada de Big Little Lies também possui uma importância bem grande na estética do programa, já que a história é contada de forma completamente não-linear. O trabalho realizado por Maxime Lahaie-Denis (Demolição), Sylvain Lebel (Cirque du Soleil: Corteo), David Berman (Amor a Toda Prova) e Jim Vega é responsável por criar boa parte dos paralelos visuais, evitar que a série fique arrastada e até usar a alternância de planos para fazer algumas piadas. A cena em que Madeline revela sua traição para Jane, por exemplo, sai de algo problemático para um alivio cômico inesperado em um piscar de olhos.

Da mesma forma, os comentários retirados dos interrogatórios são posicionados fora de contexto para mudar a percepção do espectador sobre os personagens, as situações retratadas e o próprio crime que abre a série. Nós já sabemos que todos podem ser culpados, mas ver cada habitante de Monterey acusar outras pessoas sem dó nem piedade fica cada vez mais irônico no decorrer da temporada. O resultado, em palavras mais diretas, já garante o seu lugar entre as melhores trabalhos de edição que eu já vi na televisão.

No final das contas, Big Little Lies entrega tudo o que o público poderia esperar de uma adaptação cercada por nomes reconhecidos no mercado: roteiro muito bem conduzido, direção inspirada, montagem minuciosa, grandes atuações de estrelas do cinema, encerramento brilhante e, principalmente, discussões necessárias para a sociedade atual. A conclusão do texto pode soar um pouco repetitiva, mas Big Little Lies é mais uma obra-prima da HBO e não merece passar batida por 2017.