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Séries: Better Call Saul (2ª Temporada)

21 de Abril de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

Quase Breaking Bad


gallery-1454704091-bcs-s2-keyart-bench-ukNessa altura do campeonato, todo mundo já sabe que Better Call Saul é um spin-off de Breaking Bad, então seria uma grande bobagem continuar falando que insistindo nas semelhanças entre elas. Os criadores são os mesmos, os roteiristas e a equipe técnica repetem vez ou outra e, principalmente, a temática continua sendo a jornada de auto-destruição de seus personagens, mas a diferença ainda está na ocorrência de certos erros que sua antecessora não cometeu.

Isso não quer dizer, de forma alguma, que a série é ruim, afinal continuamos falando de um roteiro de alta qualidade que possui total controle do caminho que precisa percorrer para chegar ao final que já conhecemos, mesmo que o público pense estar vendo o contrário disso. Assim, a nova temporada começa de uma forma assustadoramente ágil e vai desacelerando de uma forma que engana o público sobre sua importância para que o final revele que cada arco e flashback ligado ao protagonista eram realmente importantes para amarrar pontas soltas, dar continuidade ao processo de aceitação do lado malandro de Jimmy McGill, dar novos rumos para a sua relação cada vez mais dramática com Chuck e deixar os ganchos perfeitos para a próxima temporada.

O problema é que o texto não mostra essa mesma solidez em todas as tramas paralelas, fazendo com que a presença de Mike Ehrmantraut seja um dos grandes elos fracos da temporada. Ao contrário da primeira temporada, onde as participações dele andavam junto com a trama principal e faziam sentido dentro do todo, o novo ano propõe a formação de um arco próprio que não adiciona nada ao personagem e parece estar ali só para injetar um pouco mais de ação e suspense barato nos episódios. Por mais que alguns momentos acabem sendo interessantes, Mike não tem o background nem o carisma necessário para segurar um núcleo só seu.

Além disso, o roteiro dessa temporada escorrega um pouquinho na hora de estabelecer seu ritmo, balancear a presença das duas tramas paralelas sem deixar que o episódio fique arrastado e incluir outros personagens de Breaking Bad na trama. A inclusão de Hector Salamanca na história de Mike é um ótimo exemplo, já que foi realizada como um simples easter egg para ganhar uma proporção tão grande ao ponto de me deixar preocupado com a necessidade de criar ainda mais ligações forçadas com a série-mãe.

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Para nossa sorte, os erros mais perceptíveis param por aí e as qualidades crescem vertiginosamente quando voltamos a falar das semelhanças com a jornada de Walter White e Jesse Pinkman. Como já era de se esperar, a direção dos episódios continua primorosa, principalmente quando aposta nas famosas metáforas visuais de Vince Gilligan, arrisca novos ângulos em momentos inesperados e conduz sequências de suspense com maestria ao lado de trabalhos impecáveis de fotografia, direção de arte, edição e trilha sonora.

Da mesma forma, as atuações continuam sendo marcantes e tendo um papel fundamental para o andamento da temporada. Bob Odenkirk continua sendo o grande destaque e acerta em cheio no desenvolvimento de novas características de Jimmy McGill, enquanto arrasa tanto nos momentos de humor quanto nos mais pesados ao lado de Michael McKean, seu contraponto perfeito. Até Jonathan Banks e Rhea Seehorn conseguem superar alguns problemas de roteiro para encontrar seus próprios momentos de brilho.

No final das contas, a segunda temporada de Better Call Saul acaba tendo um saldo positivo, apesar de escorregar onde não deveria e ser um relativamente inferior ao seu brilhante ano de estréia. Ainda assim, a série consegue misturar drama, comédia e suspense muito bem, prendendo o espectador com ótimos momentos e grandes personagens. Ainda não chegou no nível de Breaking Bad, mas, sem dúvida nenhuma, merece ser assistida por todos.


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