Séries: Arrow (5ª Temporada)

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A ideia de que “menos é mais” nunca fez tanto sentido


No já longínquo ano 2012, Arrow se tornou o primeiro tijolo do universo televisivo da DC, tendo os dois pés fincados no realismo do Batman comandado por Christopher Nolan. As duas primeiras temporadas conquistaram o respeito do público e da crítica, enquanto altos e baixos afundaram a tentativa de expandir o universo mágico nos últimos dois anos. Alguma coisa precisava ser feita para reerguer a série, e a solução encontrada foi voltar às suas raízes, apostar em episódios contidos e encerar um ciclo de forma quase impecável.

Para isso, a narrativa voltou a lidar de forma madura e coesa com vários temas recorrentes na série: o lado assassino de Oliver Queen, os tumultuados relacionamentos entre a equipe e a culpa exercida por escolhas feitas no passado. A diferença é que os episódios deixaram de lado as saídas misticas, introduções forçadas de membros de Legends of Tomorrow pararam de interromper a trama e os roteiristas entenderam como extrair o melhor dos personagens. A maior prova disso tudo está justamente em sua parte do crossover. Eles conseguiram trabalhar o íntimo do protagonista sem nenhuma piração e entregar um dos momentos mais nostálgicos da temporada, mesmo lidando com uma invasão alienígena e meta-humanos.

O foco estava finalmente nas pessoas, não no cenário que as cerca. Essa escolha preparou o caminho para Arrow apresentar novas camadas, aprofundar-se em cada um e evoluir os personagens, principalmente o trio formado por Oliver, Felicity (Emily Bett Rickards) e Diggle (David Ramsey). Uma boa parte dessa temporada foi estruturada em torno da necessidade de colocar pontos finais e restaurar os laços entre o grupo original, substituindo os segredos guardados inconsequentemente por relações maduras, humanas. Permitir que Oliver aprendesse com seus erros e escolhesse a verdade com melhor opção (na maioria das vezes) foi muito significativo para o futuro de Arrow.

A criação de outra equipe de sidekicks pra suprir o espaço deixado por Thea (Willa Holland) e companhia também injetou certo frescor na sequência de episódios. Com destaque para a relação entre Quentin (Paul Blackthorne) e o Wild Dog (Rick Gonzalez), os novos justiceiros chegaram com boas histórias individuais e mudaram a dinâmica do grupo sem soar deslocados do contexto. Na verdade, sempre que o Oliver decidia que omitir informações era a melhor escolha, o grupo estava ali para comprovar o contrário e reforçar outro tópico recorrente do quinto ano: a necessidade de confiar, dividir o peso de certas escolhas com os outros. Um aprendizado muito importante que os roteiristas ainda não conseguiram replicar em Flash.

Além do roteiro bem estruturado, o grande responsável por direcionar nossos heróis para esse desenvolvimento foi Prometheus. Criado em torno de uma origem muita parecida com a de Oliver, o vilão obrigou a equipe a enfrentar ameaças que exalavam tensão e levou o Arqueiro Verde ao limite de uma forma que apenas Slade Wilson tinha feito. O roteiro soube aproveitar o suspense gerado pela revelação como combustível para o desenvolvimento do personagem, enquanto a interpretação brilhante de Josh Segarra (Chicago P.D.) conduziu a antipatia do público de forma magnífica. Aquele vilão bem teatral que todo mundo ama odiar.

Logicamente, o ápice de suas ações foi o season finale mais esperado dos últimos três anos. A série construiu a expectativa em torno do confronto final com primor, recheou os quarenta minutos com muita ação, amarrou pontas que estavam soltas há muito tempo, trouxe de volta o Deathstroke (Manu Bennett) de forma gloriosa e ainda teve a ousadia de nos premiar com um clímax extremamente poderoso. A ausência do filho de Oliver da série pesou contra a tensão, mas ver a indecisão nos olhos de Stephen Amell (As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras) enquanto seu nêmesis escolhia a vingança em detrimento de sua própria vida foi bastante doloroso.

As consequências da explosão final não devem ser tão destruidoras quanto aqueles últimos minutos com Adrian Chase, mas o resultado em si não esvazia o peso da cena. Concentrar o episódio inteiro – passado e presente – em Lian Yu teve uma função muito mais simbólica que narrativa, culminando as histórias de cinco anos no mesmo lugar onde tudo “começou”. Rever o resgate e a ligação emocionada de Oliver para sua mãe, enquanto a ilha desaparecia junto com tudo que um dia atormentou o protagonista faz parte de uma metáfora muito bem construída sobre encerramento de ciclos. É provável que esse seja o melhor episódio da história do show!

O resultado completo só não foi mais perfeito porque a série ainda não conseguiu se livrar de alguns defeitos recorrentes, como os discursos motivacionais mais cafonas da televisão e as coreografias de luta abaixo da média pra alguém que treinou artes marciais por tanto tempo. Além disso, certas tramas paralelas envolvendo as provas encontradas por Susan Williams e e o processo de luto de Felicity foram ignoradas ou ficaram meio perdidas no meio de tantos acontecimentos bombásticos. Esse último fato, infelizmente, prejudicou todo o arco envolvendo a Helix e a discussão sobre hipocrisia, porém o resultado continua muito superior ao que outras séries de 23 episódios estão fazendo nessa temporada (ouviram Flash e Gotham?). Por sorte, a narrativa e o contexto estão tão bons que esses pequenos escorregões incomodam muito menos.

E não se engane, porque foi isso mesmo que você leu: a quinta temporada de Arrow ficou tão bem estruturada que até certos erros merecem ser ignorados em prol da diversão e do encerramento de arcos. Os roteiros vão precisar se reinventar mais uma vez para contar as histórias sem usar flashbacks como muletas, e poderiam aproveitar a levada para deixar a série cada vez melhor. Tudo que precisam fazer é permitir que acertos e aprendizados dessa temporada fiquem vivos nos roteiros e na mente do Team Arrow. Por agora, o mais importante é que eu finalmente posso afirmar que o Arqueiro Verde está se recuperando muito bem e já pode receber visitas novamente!


OBS 1: Se as temporadas três e quatro não fossem tão ruins, eu poderia dizer que os produtores planejaram o caminho até aqui milimetricamente. Tudo só pra encerrar os arcos com tamanha perfeição.

OBS 2: Será que um retorno do Deathstroke com anti-herói seria muito complicado? Esse é meu novo desejo pra sexta temporada!


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