Séries: Agents of S.H.I.E.L.D. (4ª Temporada)

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Entre a magia e a ciência


O maior mérito de Agents of S.H.I.E.L.D. nesses quatro anos de exibição está concentrado na sua capacidade de se reinventar e mergulhar em aspectos inexplorados da Marvel. Depois de se aventurar pelo clássico antagonismo da Hydra e pelo conceito dos Inumanos muito antes da série homônima ser anunciada, essa temporada foi responsável por seguir as trilhas de Doutro Estranho e adicionar a dose certa de misticismo em um contexto prioritariamente científico. O resultado é mais um temporada brilhantemente recheada de ação, evolução de personagens e boas surpresas.


[Leia as letrinhas pequenas do contrato, porque elas avisam que vai ter spoiler]

Tá pegando fogo, bixo!

A primeira dessas surpresas foi a introdução do Motoqueiro Fantasma – ou motorista, nesse caso – logo no primeiro arco. Interpretada por Gabriel Luna (True Detective), a última encarnação do personagem nos quadrinhos chegou para botar fogo (com o perdão do trocadilho) na disputa entre ciência e fantasia que tomou conta dos laboratórios de Fitz-Simmons desde a descoberta dos Inumanos. Mesmo que mantivesse a mente aberta pra outras possibilidades, a série sempre encontrou uma forma de justificar tudo racionalmente e a oportunidade de abraçar o desconhecido pode valer com uma renovação e tanto.

O ótimo efeito envolvendo a caveira de fogo se tornou repetitivo com o passar dos episódios, mas cumpriu seu papel de preparar o terreno para uma trama muito próxima dos X-Men (os inumanos continuam sendo a versão pirata dos mutantes). O surgimento de um vingador incendiário movimenta ainda mais o cenário político em oposição a seres poderosos e, somado ao desenvolvimento dos Watchdogs, entrega uma sequência de episódios cheios de ação e tensão. Mesmo quando precisa economizar um pouquinho do seu orçamento, a série acerta em concentrar toda a pancadaria em um prédio sem energia.

A parte mágica acabou deixando a desejar na construção do relacionamento entre Robbie Reyes e seu tio (José Zúñiga), mas a decisiva introdução do Darkhold encaminhou os primeiros oito episódios para um bom clímax. O roteiro bem amarrado entre a fantasia e a ficção científica elevou o nível da brincadeira, mas o que realmente salvou a parte menos interessante da temporada foi a apresentação de uma nova dimensão e a aparição surpresa de Johnny Blaze (sem Nicolas Cage) como o espírito original do Motoqueiro. Segura essa, irmão!


LMDs detectados, senhor!

Apesar de positiva na maior parte do tempo, a conclusão momentânea da trama mística fez muito bem para o desenrolar da temporada. O segundo arco focou nos recém-criados LMDs (Life Model Decoy) e abriu espaço para um dos conceitos científicos (disfarçado aqui pelo poder do Darkhold) mais utilizados nas HQs. Seguindo o padrão de narrativo de não fazer nada por acaso, os roteiristas de Agents of S.H.I.E.L.D. começaram a ligar os pontos, enquanto injetavam urgência, complexidade e coragem aos sete episódios em questão.

Incluído no elenco no final do terceiro ano, John Hannah (A Múmia) fez valer seu tempo em tela com um dos coadjuvantes mais complexos da história da série. Holden Radcliffe assumiu o lugar de figura paterna para Fitz, criou aquela que viria a se tornar a grande vilã da temporada e se tornou o epicentro de uma sequência alucinante de reviravoltas. Mesmo mudando de lado tantas vezes em tão pouco tempo, Hannah conseguiu apoiar seu personagem em motivações críveis que giravam em torno de questionamentos verdadeiramente humanos, como o amor e o livre-arbítrio.

Entre conclusões de certas tramas, transições para novas e a presença de um vilão (Zach McGowan) sem grande importância, Agents of S.H.I.E.L.D. se encaminhou para um dos melhores capítulos dos seus quatro anos. O 15º episódio – denominado “Self Control” e dirigido pelo showrunner Jed Whedon – encerrou esse arco de “transição” com inteligências artificiais, doses cavalares de suspense, viradas realmente surpreendentes e atuações magníficas de quase todo o elenco. Elementos que só cresceriam e ficariam ainda mais decisivos no espaço reservado para o grande evento dessa temporada.


E se a Hydra fosse a dona da porra toda…

Pode ser difícil de acreditar mais foi justamente isso que aconteceu dentro do Framework, uma realidade digital criada para manter os heróis presos em suas próprias mentes. Um pouquinho de Black Mirror aqui, uma pitada de Philip K. Dick ali, alguns arrependimentos retirados e pronto: Agents of S.H.I.E.L.D. estava preparada para se reinventar mais uma vez e inverter sua realidade totalmente por vários – e geniais – episódios, seguindo o caminho oposto de séries que passam por novos mundos em alta velocidade (entendedores entenderão).

E olha que o desenvolvimento desse “novo mundo” foi muito melhor do que eu esperava. A fotografia lavada abraçou as cores frias, a direção de arte brincou algumas percepções do espectador e o roteiro aproveitou a oportunidade para trazer até personagens mortos de volta. B.J. Britt (Sons of Anarchy) nos brindou com a divertida relação entre Trip e o restante do grupo, enquanto Brett Dalton (Lost in Florence) teve a oportunidade de deliciar o público com um Grant Ward regenerado pela ausência de John Garrett em sua infância. Uma mudança e tanto para alguém que já foi o maior vilão da série.

Mas calma que as mudanças não pararam por aí. Coulson (Clark Gregg) virou um professor fascinado por teorias da conspiração e compreendeu a verdade mais rápido graças a memórias remanescentes do programa Taiti. Um acidente parecido com o da Guerra Civil nos quadrinhos substituiu a desastrosa missão no Bahrain, enquanto a ausência desse arrependimento transformou Melinda May ( Ming-Na Wen) em uma das principais agentes do mal. Já Fitz (Iain De Caestecker) não sofreu com o abandono do seu pai, mas viu a influência maligna deste o levar ao topo da hierarquia da Hydra ao lado de AIDA/Ophelia (Mallory Jansen).

Com a dose perfeita de urgência, Agents of S.H.I.E.L.D. deu uma aula de narrativa em televisão aberta ao se apropriar dos seus próprios limites para juntar os três arcos e conduzir os protagonistas para um final realmente doloroso. Ver Fitz atirando em pessoas inocentes, Ward descobrindo algumas verdades, Mack escolhendo ficar com sua filha apesar das consequências, Yo-Yo tomando decisões por amor e Simmons sofrendo pelas decisões do seu amado cortou o coração dos espectadores e deixou o palco aberto para o elenco dar show. Henry Simmons (O Intruso), Iain De Caestecker (Rio Perdido), Elizabeth Henstridge (Wolves at the Door) e Natalia Cordova-Buckley (Bates Motel) seguraram os momentos mais emocionantes dessa temporada.

Ao mesmo tempo, Jason O’Mara (Liga da Justiça Sombria) e a já citada Mallory Jansen (Galavant) foram as melhores adições possíveis. Mesmo com algumas cenas de puro overacting, o primeiro se encaixou muito bem como Jeffrey Mace, cresceu como diretor político da S.H.I.E.L.D. e encontrou seu sacrifício final como o grande Patriota. Por outro lado, a segunda compôs o antagonismo da temporada com vigor e expressividade único, traduzindo tanto os dilemas robóticos quanto os humanos com muita eficiência. Observe com até a textura da pele, o olhar e a leveza dos cabelos da atriz mudam nos últimos episódios e diga que Mallory não merece uma salva de palmas.

E o melhor é que tudo isso serviu como uma espécie de trampolim para escancarar uma qualidade antiga de Agents of S.H.I.E.L.D.: a evolução verdadeira dos personagens. É muito fácil olhar para a primeira temporada e perceber como cada missão foi moldando os protagonistas até chegar no ponto onde eles estão. A série impõe novos obstáculos para Daisy (Chloe Bennet) e companhia, porém toma cuidado ao absorver cada consequência de forma orgânica e acumulativa. Em outras palavras, os personagens não esquecem tudo que aconteceu depois de um mero season finale e o fato das memórias vividas dentro do Framework permanecerem ativas é mais um reflexo doloroso e inteligente dessa característica do show.

Eu já estou extremamente curioso para conferir como cada um deles vai lidar com todas as dores que não foram curadas por aquele divertido almoço em família, precisando ao mesmo tempo lidar com o conceito de novas dimensões e até mesmo desafios espaciais, de acordo com um gancho mais do que sinistro. Olhando para a forma corajosa como Agents of S.H.I.E.L.D. expandiu seu universo e juntou as peças nas últimas das temporadas, eu já posso garantir que as expectativas são as melhores possíveis. Que venha Agents of S.W.O.R.D (ou não…)!


OBS 1: Essa tal de S.W.O.R.D é meio que o equivalente espacial da S.H.I.E.L.D., então foi a primeira coisa que pensei quando vi Coulson olhando para o infinito pela janela da nave. Já li outras críticas e sei que não sou o único, mas vou deixar um dos pés atrás poque imagino que isso deixaria a série mais cara. Como Agents of S.H.I.E.L.D. sempre sofre com a baixa audiência, não acho que essa seja uma ideia inteligente. A não ser que o objetivo seja concluir a série…

OBS 2: Agents of S.H.I.E.L.D. é a prova de que uma série não precisa ser extremamente complexa ou rebuscada pra ser eficiente. Não existe reviravolta, sacada criativa ou palavra bonita que substitua a emoção/tensão desse último arco.

OBS 3: Essa temporada teve pelo menos sete episódios que poderiam figurar a lista de melhores da história da série. Se isso não é se superar, eu desisto.


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