AODISSEIA
Especial

Precisamos falar sobre o Whitewashing

31 de março de 2017 - 16:00 - Flávio Pizzol

Todos nós sabemos que a popularização da internet deu voz a milhares de internautas e mudou o relacionamento das pessoas com os temas polêmicos que surgem na mídia. No entanto, nenhuma discussão tem ocupado tanto espaço e gerado tanto ódio nos últimos tempos quanto esse tal de whitewashing. Eu já falei um pouquinho sobre o assunto na crítica de A Grande Muralha, mas o mês de março trouxe duas grandes estreias cercadas por essa polêmica (Punho de Ferro e Ghost in the Shell) e tornou-se o momento perfeito para trazer o assunto à tona por aqui. Com toda a calma que uma questão tão relevante e complexa como essa merece, é claro!


Capítulo 1 – O que é o whitewashing?

A expressão whitewashing não possui uma tradução específica na nossa língua, mas, em inglês, costuma ser usada para representar:

  • produtos que deixam paredes, roupas e outras coisas mais brancas, principalmente na publicidade;
  • o vencedor que termina um campeonato sem nenhuma derrota, invicto;
  • a realização proposital de limpeza étnica realizada na mídia, “embranquecendo” um personagem real ou fictício;

Charge sobre Whitewashing – Ariel Sharon (2014)

 

Essa última denominação surgiu apenas nos últimos anos, porém a análise do ato em si nos leva para uma viagem que remonta toda a história do entretenimento e da cultura como um todo – incluindo não só o cinema, como o teatro, a publicidade e a pintura. Não se enganem achando que só Hollywood repete essa prática, porque qualquer ser humano que trabalhe com publicidade (eu!) pode citar inúmeras vezes em que o anunciante ou seu próprio chefe pediu para o diretor de arte dar aquela “enclarecida” na modelo pelo Photoshop. As desculpas são sempre as mesmas e não mudam nem quando The Rock, um ator negro, é considerando o mais rentável de 2016.

A verdade é que as raízes do preconceito racial (e, automaticamente, do whitewashing) estão fincadas na prática da escravidão e essa já acompanha a nossa sociedade desde a Antiguidade, colocando sempre as outras raças e povos em posições inferiores a dos brancos. Essa visão de mundo foi transmitida de geração em geração e criou uma realidade deturpada onde se defendia que apenas a alta sociedade – majoritariamente branca – consumia cultura, justificando essa ideia de que “o consumo é maior quando as estrelas são brancas” e impedindo tanto a participação, quanto a representação fiel de uma parcela da população na produção artística.

Por incrível que pareça, a representação de Jesus Cristo é uma prova cabal de que essas trocas de etnias acontecem há muito mais tempo do que estamos acostumados a pensar. Eu sei que a Bíblia não crava as características físicas do Filho de Deus, mas é historicamente improvável que um jovem nascido na região do Oriente Médio tenha olhos azuis e feições tão caucasianas como as utilizadas na maior parte das pinturas religiosas. E isso é muito mais uma constatação histórica do que uma crítica, já que é quase impossível definir quem foi o responsável por fazer a primeira descrição artística de Jesus.

Ku Kux Klan em O Nascimento de uma Nação (1915)

 

Já no cinema, o caso mais antigo e notório dessa influência pode ser conferido no longa O Nascimento de uma Nação, dirigido por D. W. Griffith em 1915. Mesmo possuindo uma importância inegável para a linguagem cinematográfica pelo uso quase inédito da montagem paralela, dos flashbacks, da fotografia noturna e das panorâmicas, o longa recebeu o merecido título de “o filme mais polêmico de todos os tempos” por disseminar um conteúdo extremamente racista. Por motivos puramente políticos, atores brancos fazem uso do blackface, pintam seus rostos com uma tinta preta bem escrota e interpretam personagens negros presos nos estereótipos de escravos ou criminosos violentos.

Com o tempo, outros exemplos de whitewashing surgiram sob o pretexto de garantir um faturamento maior na bilheteria ou permitir o financiamento de produções mais caras. Ridley Scott foi um dos diretores que usou a segunda desculpa para justificar o fato do épico Êxodo: Deuses e Reis ser estrelado por Christian Bale e Joel Edgerton, apesar de contar a história de Moisés e se passar basicamente no Egito. Segundo ele,

 

“Eu não posso montar um filme deste orçamento, onde eu tenho que confiar em descontos fiscais na Espanha, e dizer que o meu ator principal é Mohammad tal e tal. Eu não vou conseguir  ser financiado.” (SCOTT, 2014)

 

O problema é que a cabeça dos chefões da indústria parece ter ficado presa no passado, fazendo com que diretores e roteiristas sejam quase que obrigados a optarem pelos atores brancos em detrimento das raças originais. É essa visão atrasada que nos empurra – goela abaixo – um príncipe da Pérsia interpretado por Jake Gyllenhaal ou um grupo de deuses egípcios caucasianos no pavoroso Deuses do Egito. O whitewashing não foi o maior culpado, mas o fracasso de bilheteria desse último já deveria ter deixado claro que ter brancos no elenco não é sinônimo de sucesso de crítica ou retorno financeiro.


Capítulo 2 – As consequências (negativas) do whitewashing

A presença do whitewashing no entretenimento gera inúmeras consequências, porém eu decidi separar duas problemáticas que resumem o contexto de forma interessante, abordando tanto a própria indústria quanto a nossa sociedade, que consome filmes, peças teatrais e anúncios publicitários.

a) Exclusão + desigualdade

O principal deles traz de volta todas as feridas abertas pelo Oscar So White, já que o embranquecimento do elenco – em papéis reais e fictícios – aumenta ainda mais a exclusão dentro de Hollywood. Negros, índios e asiáticos já saem perdendo quando se trata de personagens genéricos, logo seria bastante válido que eles pudessem, no mínimo, interpretar seus iguais quando isso fosse necessário. É realmente importante que o cinema permita que um egípcio faça o papel de um faraó, um negro interprete o Pantera Negra ou um asiático dê vida a personagens históricos como Gengis Khan.

Mickey Rooney em Bonequinha de Luxo

 

Algumas dessas substituições étnicas são tão descaradas que fica até difícil analisar certos filmes (alguns clássicos) sem questionar certos personagens. É o caso de ver, entre tantos casos, John Wayne como Khan em Sangue de Bárbaros, Mickey Rooney como Mr. Yunioshi (um japonês) em Bonequinha de Luxo, Charlton Heston como um mexicano em A Marca da Maldade, Natalie Wood como a porto-riquenha Maria em West Side Story ou Emma Stone como uma descendente de chineses e havaianos em Sob o Mesmo Céu. A ironia da situação é que o público reage de forma extremamente negativa quando o posto acontece e algum negro assume um personagem descrito como branco. Vide as polêmicas envolvendo a escolha de Michael B. Jordan para interpretar o Tocha Humana ou a mera possibilidade de Idris Elba ser o próximo James Bond. Qual a diferença?

b) Representatividade pra quê? 

Ao mesmo tempo, os grandes estúdios não percebem que estão perdendo uma parcela do público que se preocupa com a sua representação. O whitewashing gera discussões cada vez maiores, a repercussão negativa viaja pela mídias digitais e algumas pessoas usam isso como base para ignorar um lançamento de grande porte. É basicamente a mesma lógica (mais uma vez deturpada) das pessoas que decidiram não assistir Quarteto Fantástico porque o Tocha era negro, porém estamos falando de minorias que raramente se veem representados em uma tela grande.

Houve uma época em que os brancos eram a única parcela da sociedade que tinham acesso à cultura dessa forma, mas as coisas não são mais assim. Se antes a presença de grandes artistas brancos era sinônimo de sucesso, hoje a ausência de minorias (pode incluir mulheres e homossexuais nessa conta) representadas da forma devida pesa bastante contra o longa. Repito: as pessoas querem – e precisam – se enxergar dentro do filme sem ter que sonhar em ser o branco de sucesso.

Uma vez eu li a história de uma menininha negra que não acreditava que poderia ser uma princesa, porque nunca tinha vista uma princesa negra. O maior desejo dela era virar branca para poder alcançar o seu sonho até que ela assistiu a animação A Princesa e o Sapo. Esse é o poder da representatividade e é esse tipo de abordagem que realmente prende o público a uma franquia de filmes ou uma série de TV.

Reprodução do Facebook

 

Imagino que todo mundo lembre do caso do garotinho brasileiro que comprou o boneco do Finn e, depois de muito tempo, se viu representado pelo herói de uma grande franquia. A história rodou o mundo e chegou ao ator John Boyega, o interprete do personagem em Star Wars – O Despertar da Força. Ele publicou a foto em seu Instagram e usou o momento para exaltar o poder da representatividade, mas isso não deveria ser a exceção da regra.

Além disso, é bom lembrar que o cinema, o teatro, a televisão e outras mídias ou formas de expressão possuem um poder gigantesco de moldar culturas, ideias e sociedades. Já passou da hora dos chefões assumirem esse papel de uma vez por todas e parar de simplesmente reforçar o preconceito. Fica a dica!


Capítulo 3 – Os limites do whitewashing

Agora que eu já citei vários exemplos que deixam claro o quão perigoso é o problema em questão, podemos também analisar alguns exageros que surgiram na internet e, de certa forma, me motivaram a escrever esse texto. Novas acusações de whitewashing tem surgido a cada trailer e poster lançado, ganhando um certo ar de banalização e exagero que também merece ser discutido. Para isso, vou citar e justificar três exemplos recentes – e polêmicos – dos quais eu discordo.

Punho de Ferro

 

a) Punho de Ferro

Logo que Finn Jones (Game of Thrones) foi escolhido para interpretar Danny Rand na última parceria entre Marvel e Netflix, a internet se mobilizou para defender que o Punho de Ferro deveria ser vivido por um ator asiático. Não tenho nada contra e até entendo a conexão superficial que fizeram entre o oriente e as artes marciais, mas fiquei tremendamente chocado com o fato de as pessoas decidirem – do nada – andar pelo caminho oposto ao da sempre comentada fidelidade ao material original. Afinal, nos quadrinhos, Danny é realmente um garoto branco de Nova York que desaparece no Himalaia e segue o caminho que todos já conhecemos.

A atuação de Finn passa longe de ser a melhor coisa da série e a escalação de alguém mais experiente em cenas de ação poderia ter ajudado a série, mas ainda assim o fato dele ser o riquinho de Manhattan que não se encaixa em K’un-Lun possui certa importância na narrativa original. Talvez exista um pouquinho whitewashing na escolha de outros membros do elenco (Davos, um nativo do monastério, é vivido pelo britânico Sacha Dhawan), mas a produção não pode ser acusada do mesmo com a seleção de Finn.

Dentro disso tudo, o que acabou me chamando mais atenção foram as declarações de Roy Thomas, o cocriador do personagem, sobre o assunto. Ele abordou a possibilidade de se atualizar o personagem para outra etnia, mas deixou claro que o foco das suas histórias não estão na raça e que certas coisas são apenas uma parte da criação de um personagem:

“Você pode argumentar sobre o Tarzan, você pode discutir sobre qualquer personagem antigo que é obrigado a seguir um padrão anos mais tarde. E ok, você pode até chegar a alguns ajustes. Se eles quisessem trazer um Punho de Ferro que não fosse branco, eu não iria me incomodar. Mas também não tenho vergonha de tê-lo criado como ele é. Ele não tinha intenção de levantar bandeira para qualquer raça. Ele era apenas um cara que foi doutrinado em uma determinada coisa. […] Agora, se algo é realmente racista ou degradante para um sexo, raça, ou grupo étnico, é outra coisa. Mas Punho de Ferro não é assim, e nem nunca foi. É só uma história fictícia, um lugar fictício e uma pessoa que passa a ser seu emissário. Não existe razão para ele não ser caucasiano.” (THOMAS, 2017)

A Grande Muralha

 

b) A Grande Muralha 

O segundo exemplo começou a ser destruído pelos haters no lançamento do primeiro trailer e o que eu mais li na internet foram frases como essa: “não acredito que Matt Damon é o protagonista de uma aventura sobre a cultura chinesa”. É lógico que eu também me fiz esse mesmo questionamento, mas minha opinião sofreu um pequeno plot twist após assistir o filme. E os pensamentos que formulei desde fevereiro também motivaram esse texto. Mas calma que eu vou explicar…

A Grande Muralha realmente faz algumas escolhas um tanto questionáveis, mas eu não acho que a escalação de Matt Damon para esse filme seja exatamente um caso de whitewashing. Como já foi dito na crítica, o filme poderia ser protagonizado pela sensacional Tian Jing sem a presença de nenhum ator ator americano (e poderia ser melhor ou não), porém o roteiro foi pensado para Hollywood e essa é uma decisão típica de uma indústria que busca “americanizar” os filmes ao máximo. Uma decisão que também precisa ser repensada, mas repito: ela não tem ligação direta com o que eu considero troca de etnias. Pelo menos, não em todos os casos.

Na minha opinião, existem quatros questões que salvaram a experiência nesse quesito:

  • Matt Damon não está interpretando um chinês ou um descendente de chinês, como em vários exemplos já citados nesse texto. Ele é um europeu e ponto final;
  • A presença do personagem é facilmente justificada pelo momento histórico, já que muitos desbravadores e mercenários realmente viajaram para o oriente (não apenas a China) em busca de pólvora e outras riquezas;
  • William não insiste na ideia de que ele saberia mais sobre a guerra apenas por ser ocidental. Ele já participou de outras batalhas, mas divide espaço com um exército diferente, aprende com eles e, mesmo com todos os clichês, evolui como pessoa;
  • Ele não é um coadjuvante, no entanto não rouba os holofotes apenas para ele, sendo que a verdadeira salvadora do país é a Comandante Lin Mae. William joga o imã e é essencial, mas a lança está nas mãos dela;
  • A cultura chinesa não é subjugada para dar espaço os aspectos ocidentais. As coreografias, roupas, armaduras e canções que mais encantam tem forte ligação com a cultura oriental. Inclusive, boa parte das falas são mantidas em chinês;

Death Note

 

c) Death Note

Por fim , vamos falar sobre a adaptação americana de Death Note que está sendo produzida pela Netflix. O trailer do longa em live-action mal saiu e, mesmo sem assistir o filme como um todo, várias pessoas já começaram a reclamar sobre a troca de nome do protagonista e, logicamente, a substituição dos personagens asiáticos. Essa reação me incomodou por dois motivos, mas o principal deles é que tudo (inclusive uma proposta de boicote) está girando em torno de dois minutos de vídeo. Claro que a história original foi produzida de acordo com alguns costumes puramente orientais, mas é impossível saber quão problemática é uma adaptação apenas pelo trailer.

Fora isso, eu fiquei impressionado que as pessoas parecem não entender o que significa fazer uma adaptação. Death Note é um mangá japonês e possui características relacionadas ao seu país de origem, mas nada impede que ele seja adaptado para uma história americana, como aconteceu com O Chamado e tantas histórias de horror originarias do Japão. O nome do personagem mudou e seu interprete é americano, porque a nova versão da história vai se passar em Seattle com personagens americanos no centro da trama.

Não existe nenhum problema em querer adaptar uma história para outros países e culturas, desde que seja bem feito. Bizarro seria ter um americano interpretando um japonês, mas um americano vivendo um americano inspirado no personagem do mangá não se enquadra como whitewashing, segundo as minhas percepções. Talvez o filme faça mais do que isso e pode ser que o resultado seja uma bela merda, porém só saberemos isso em agosto.


Capítulo 4 – As possíveis soluções para o whitewashing

Em primeiro lugar, os grandes estúdios precisam entender que a diversidade é uma peça chave para o momento que o entretenimento – e o mundo como um todo – vive. As pessoas querem ser vistas nos produtos que consomem e o caminho para isso está em reciclar a mente. Hollywood, grandes escritórios de publicidade e todas as outras empresas ligadas ao ramo cultural precisam abrir as portas para que mais mulheres, negros, asiáticos, indígenas possam atuar, escrever roteiros e dirigir coisas. Para que eles possam, acima de tudo, mostrar o mundo por outros pontos de vista e tirar a indústria dessa mesmice cafona.

Barry Jenkins, diretor de Moonlight, recebendo o Oscar de Melhor Filme

 

Isso permite que paradigmas sejam quebrados, formatos experimentados e novos sucessos (às vezes improváveis) encontrados. Um filme como Moonlight – que faz boa parte dessas coisas – vencer o Oscar de Melhor Filme pode ajudar os chefões a enxergarem a nossa nova realidade e perceber que nenhuma dessas mudanças vai acabar com os lucros e negócios deles. Pode mostrar que ter um James Bond negro ou produzir uma história original sobre um detetive indiano (quem sabe os dois ao mesmo tempo…) vai conquistar outros públicos e não vai ser sinônimo de fracasso.

O problema é que, infelizmente, essa decisão precisa vir deles e nós temos que ficar aqui, esperando de braços cruzados… Ou não!

Nós podemos contar histórias diferentes em um blog, boicotar filmes que pratiquem o whitewashing de forma descarada, fazer vídeos sobre o assunto para os canais do YouTube e, principalmente, levar essa discussão com força para as redes sociais. Pode parecer uma ilusão da minha cabeça, mas os produtores de conteúdo não podem e não vão ignorar seus consumidores por muito tempo. Eles querem a aceitação do público acima de tudo e esse pode ser um impulso (a longo prazo) para transformar o mundo.

Por outro lado, é importante deixar claro que acusar de forma exagerada enfraquece o “movimento” e passa a imagem de pessoas que não estão realmente raciocinando ou dialogando sobre o assunto. É a mesma lógica de vândalos que acham que quebrar a rua durante um protesto pacífico pode ajudar, quando isso só oferece material para os jornais destruírem a proposta. Use seu tempo livre para estudar, pensar sobre o assunto e descobrir formas mais úteis de divulgar sua opinião. O whitewashing é uma prática errada, que apenas repete preconceitos enraizados no mundo, e todos somos importantes para acordar os empresários adormecidos ou parados no tempo.


Capítulo 5 – Referências

Se você quiser saber um pouco mais sobre o assunto, vou deixar alguns sites e textos que foram utilizados como referência na construção dessa matéria:

Além disso, nós temos outros dois textos muito interessantes que falam um pouquinho sobre o assunto em questão. 😉