AODISSEIA
Especial

Os primeiros passos de um novo Oscar

1 de Março de 2017 - 14:00 - Flávio Pizzol

A vitória de Moonlight seria um bom presságio?


Sim, o Oscar 2017 foi encerrado com uma gafe histórica e inesquecível. E sim, esse momento provavelmente irá ofuscar o fato de que o vencedor do principal prêmio foi um ótimo longa escrito por dois negros para extravasar sua realidade, dirigido por um diretor quase estreante e tirado do papel com pouco mais de 1 milhão de dólares. Eu posso dizer sem vergonha nenhuma que sou Team La La Land (e a derrota aqui não muda minhas opiniões sobre o musical), mas essa vitória de Moonlight logo após a polêmica do #OscarSoWhite levanta algumas possibilidades interessantes.

Antes de mais nada, vamos relembrar que o Oscar do ano passado foi marcado pelo fato de nenhum negro estar indicado entre as categorias principais. Muitos famosos decidiram boicotar a premiação, Chris Rock atacou o assunto com todo o seu arsenal de piadas e vários discursos apontaram para a falta de oportunidades dada para os negros na própria indústria. Os protestos fizeram com que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas aprimorasse os métodos de indicação e incluísse muitos votantes de outras raças, gêneros e lugares mais esquecidos do mundo com o objetivo de levar diversidade para a festa. Uma medida importante, mas que também precisaria ser acompanhada por mudanças mais profundas na sociedade como nós discutimos nesse post.

Quem – assim como eu – achava que essa seria uma medida paliativa de longo prazo pode acompanhar as indicações desse ano como um grande tapa na cara. Muitos filmes com temática inclusiva, diversos novos realizadores e uma quantidade considerável de negros em diversas categorias, incluindo um inédito e merecido reconhecimento de Bradford Yound pelo seu trabalho como diretor de fotografia em A Chegada. É difícil cravar que as mudanças na Academia foram as únicas responsáveis por essa pequena revolução, mas o importante é que ela aconteceu acompanhada por filmes que, acima de tudo, mereciam estar ali. E olha que a premiação em si ainda nem tinha começado.

O prêmio já deixou claro o tom da noite e deu partida na corrida de Moonlight com a justíssima vitória de Mahershala Ali (House of Cards), entretanto o mais interessante é que nenhum longa tinha conseguido duas estatuetas até a categoria de Melhor Edição – vencida por até o Último Homem. O significado disso é que, dentre os indicados a Melhor Filme, apenas Lion – Uma Jornada para Casa, Estrelas Além do Tempo e A Qualquer Custo saíram de mãos abanando, enquanto os grandes favoritos da noite levavam pelo menos um prêmio técnico pra casa. Isso sem contar algumas outras obras que só apareceram em categorias únicas, como o iraniano O Apartamento. É um leque que abrange muitas produções de qualidade, que merecem ser assistidas.

Além disso, o Oscar também incluiu algumas produções de gênero ou longas voltados para o grande público entre indicados e vencedores. A Qualquer Custo, por exemplo, é um faroeste urbano que não tem nenhuma cara de Oscar, mas poderia ter ganhado o prêmio de Roteiro Original sem cometer nenhuma injustiça. Já os blockbusters de fantasia e super-heróis continuaram renegados a poucas categorias técnicas como acontece todo santo ano, porém 2017 rendeu a primeira estatueta para a o novo universo da DC (Cavaleiro das Trevas já havia vencido em 2009) e para a franquia Harry Potter. Depois de tantas indicações, o mundo mágico criado por J.K Rowling finalmente levou um prêmio por Melhor Figurino e eu repito: isso pode não ser o bastante, mas é o ótimo começo para um ano onde Deadpool marcou presença nas premiações dos sindicatos dos produtores, roteiristas e diretores.

E, por fim, tivemos a tão marcante vitória de Moonlight (ou o segundo filme sem protagonistas brancos a vencer nos últimos 25 anos). Uma premiação esperada para aqueles que contavam com a possibilidade da Academia querer compensar seus erros passados – como sempre faz. E, nesse caso, Moonlight aborda uma série de temas universais que se encaixam perfeitamente em um pedido de desculpa pelo ano passado. Temas que podem ser tão universais quanto a luta pelos sonhos defendida com otimismo por La La Land, mas que se tornam muito mais necessários pela sua conexão com espectadores marginalizados. Uma galera que raramente se vê refletida sem estereótipos na grande mídia, incluindo os negros que foram ignorados pelo Oscar em 2016.

Mesmo tendo plena consciência disso, eu quero acreditar que as pessoas não votaram apenas para dar essa resposta em nome da Academia. Eu quero acreditar que todo mundo votou por reconhecer que Moonlight é um puta filme. Uma produção que, apesar de transbordar cultura negra, aborda o bullying, a criminalidade e a homossexualidade de uma forma tão tocante e bem escrita que também cria conexões com pessoas de qualquer raça, cor ou religião. Um filme que pode, acima de tudo, mexer com qualquer pessoa que acredite em uma sociedade mais inclusiva, ignorando qualquer palavra vomitada pelos Trumps e Bolsonaros da vida.

E, além de tudo isso, vale ressaltar que Moonlight também caminha, em vários aspectos, na direção oposta dos longas que geralmente levam a estatueta de Melhor Filme : é um filme completamente independente; o texto abre mão dos diálogos explícitos para ser mais voltado para a contemplação; deixa os grandes momentos emotivos de lado para revelar muito em um simples olhar; e opta por uma direção sutil e apoiada em atuações com toques de autobiografia, considerando, inclusive, que os atores não ensaiaram nenhuma vez antes de gravar. É um conjunto de variáveis que fazem com que essa vitória possa ser considerada praticamente inédita.

Infelizmente, ainda não podemos decretar que essa inclusão tão bonita e importante veio pra ficar. Ela pode acabar sendo uma simples resposta ao #OscarSoWhite que vai ser esquecida (ou simplesmente ignorada) com o passar dos anos, mas nós podemos ter alguma esperança de que esses foram os primeiros passos em direção a um novo Oscar. Afinal de contas, querendo ou não, os votantes mais antigos parecem ter recebido uma injeção de ânimo vinda de uma nova geração mais engajada, apaixonada e ligada tanto em filmes independentes quanto em produções que arrastam multidões para o cinema. Se isso continuar por mais algum tempo, as consequências podem ser até a presença dos tão difamados filmes de tão super-heróis na maior categoria da noite. Quem sabe…