AODISSEIA
Séries

O Fim de Breaking Bad

2 de outubro de 2013 - 14:23 - Flávio Pizzol

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SPOILERS

O fim de uma série. O fim de um programa que você assiste pode ser igualado ao fim de uma era. São tantos anos acompanhando toda semana aquela série, aqueles personagens e aquela história. Mas, infelizmente (independente dos casos), um dia esse programa chegará ao fim. Esse momento será alegre, já que veremos o fim de toda aquela mitologia que, de certa maneira, nós, espectadores, ajudamos a criar. Mas nesse momento também bate uma tristeza gigante, afinal nunca mais ligaremos a TV – ou no meu caso, o computador – para assistir aquela série e torcer pelos personagens que acompanhamos por tanto tempo.

Nesse ano muitas séries que eu assisto – ou assistia – acabaram. No início do ano, chegou ao fim Spartacus, uma das melhores séries que eu já vi. Uma história brilhante, uma estética única e personagens sensacionais tiveram seu ótimo final revelado.

Há uma semana, tive o desprazer de ver Dexter chegar ao fim de maneira deprimente. O fim de Dexter foi ruim e eu preferi não escrever nada para o blog para que toda a raiva que eu estava sentindo dos roteiristas não fosse mal entendida. Eu preferi fechar os olhos e lembrar de como Dexter era até a quarta temporada, de todos os momentos surpreendentes e diálogos sensacionais e das noites que fiquei sem dormir porque não conseguia parar de assistir aquela série. O potencial de Dexter foi sendo desperdiçado com o tempo, mas como fã, eu ainda tinha esperanças de que o final seria, no mínimo bom. Infelizmente, não foi.

Essa semana acabou Breaking Bad, que é o real assunto desse post (como dá pra perceber pelo título), uma das melhores séries de drama já produzidas pela TV americana. Comecei a ver Breaking Bad quando esta estava na terceira temporada, fiz uma maratona e não consegui parar mais. E, definitivamente, não me arrependo nenhum segundo de ter começado a ver Breaking Bad.

A série é cativante, impressionante, inteligente e brilhante, mas causa uma certa estranheza em muitas pessoas por que não é uma série para ser vista quando se quer passar o tempo. Breaking Bad é violenta e pesada. Breaking Bad faz o espectador parar para refletir. Breaking Bad trata de assuntos complexos com grande naturalidade. Breaking Bad é um verdadeiro soco no estômago.

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A premissa da série é, na verdade, bem simples. Walter White já foi um químico genial (inclusive já fez parte de uma equipe vencedora do Nobel) e mesmo assim ele ganha a vida dando aulas para jovens desinteressados de Albuquerque. Como se não bastasse estar falido e desmoralizado, Walter descobre que está morrendo por causa de um câncer terminal no pulmão. A solução vislumbrada por Walter é utilizar seu dons químicos para cozinhar metanfetamina, uma das drogas mais vendidas nos EUA.

O trunfo de Breaking Bad está no desenvolvimento de sua história e dos seus personagens. É incrível como a história, que era um drama simples, virou uma série policial complexa recheada de momentos brilhantes e reviravoltas surpreendentes. Aquele drama simples ganhou contornos policiais dignos de filmes noir e de máfia.

O desenvolvimento dos personagens é cuidadoso e apoiado em um elenco luxuoso. Todos os personagens foram se transformando ao longo das temporadas sem que nada parecesse deslocado ou mal feito. E Vince Gilligan, criador da série, nos presenteou com muitos personagens marcantes. Desde os principais – como Walt, Jesse, Skyler e Hank – até os coadjuvantes de luxo (Gus, Tio Salamanca, Mike, Saul, Todd e Tio Jack). Todos, sem nenhuma exceção, foram bem construídos até o final.

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Jesse aos poucos foi deixando de ser ingênuo e influenciável, conseguindo superar o domínio psicológico que Walter tinha sobre ele. Skyler já foi a mulher enganada, já teve um momento autodestrutivo após descobrir a verdade sobre Walter, já ajudou e encobriu o marido e, por fim, conseguiu enfrentar de uma vez por todas o traficante. Até Walter Jr. passou por algumas mudanças consideráveis, principalmente nos últimos episódios. Ver o garoto enfrentando o pai para proteger sua mãe foi espetacular.

Mas, sem dúvida nenhuma, Walter/Heisenberg é o personagem que mais se transformou no decorrer das séries. Walter é o anti-herói clássico. O início do personagem foi feito para cativar o público ou fazer o mesmo sentir pena do personagem. Depois esses fatos que cativaram o espectador são usados para justificar os primeiros atos criminosos dele. Só depois dessas fases é que o personagem aceita seu “lado negro” e se entrega ao mesmo (eu já comentei um pouco sobre a construção do personagem quando falei sobre o primeiro episódio do final).

Personagens inesquecíveis. As tiradas cômicas fora de hora do Saul, a maneira como Walt usava sua inteligência (a metralhadora e os lasers no último episódio foram um toque de mestre), a campainha do Tio Salamanca e o jeitão policial de Hank (ele não deixou de ser policial nem na hora de morrer) nunca serão esquecidos.

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Esse desenvolvimento que falei só funciona por que o roteiro de Breaking Bad é mais do que sensacional, sendo até complicado encontrar palavras para falar sobre este. O roteiro de Breaking Bad é perfeitamente construído. A série é redonda e amarrada, inclusive quando a amarração decepciona (segunda temporada e a queda o avião). Nada é em vão nessa história. Pode demorar, mas as pontas soltas serão amarradas.

Além de serem inteligentes e bem construídos, os roteiros de Breaking Bad são extremamente poéticos. Quantas vezes a série terminou um episódio com aquele momento silencioso que dizia mais do que uma novela brasileira completa?

Quantos diálogos inesquecíveis foram proferidos pelos personagens da série.Como esquecer de Jesse falando “bitch”? Como não ser pego recitando frases célebres como “say my name”, “i am the danger” e  “i am the one who knocks” em frente ao espelho?

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Quantas metáforas foram criadas pelos personagens (Belize é a melhor dessas). Quantas cenas surpreendentes, como a confissão de Walter e a morte de Gus, foram jogadas na cara dos pobres espectadores quando estes menos esperavam.

Outro diferencial da série é o seu gigantesco primor técnico. A direção de Breaking Bad é absurdamente maravilhosa. As câmeras que mexiam com tomadas em primeira pessoa, ângulos diferenciados e pontos de vistas impensáveis só tornavam a série mais espetacular.

O visual de Breaking Bad ajudou a contar a história de Walter White e companhia. O visual leva o espectador para dentro da TV, esconde easter eggs e deixa claro as metáforas e as poesias pensadas pelos roteiristas. O visual de Breaking Bad é tão único que virou quase um personagem da série.

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Tanto quanto Albuquerque é um personagem da série. O cenário desértico, poeirento e ensolarado está presente em todos os episódios do programa. É difícil imaginar Breaking Bad se passando em uma praia ou em uma grande cidade como Nova York. É difícil pensar em um lugar melhor do que um deserto isolado para produzir drogas sem suas calças ou para ameaçar seus inimigos. Sem contar que a fotografia saturada fazia o espectador sentir o calor do Novo México na pele e dava um tom especial de faroeste moderno para a série.

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Toda a parte técnica da série merece ser elogiada. A fotografia, a direção de arte, a edição e a trilha sonora de Breaking Bad são mais do que brilhantes, são parte importante da história.

A trilha sonora sempre encaixou perfeitamente com as cenas e com as emoções transmitidas nos episódios. As músicas ditavam o ritmo da série e transmitiam as sensações e os sentimentos para o público. A música “Baby Blue” da banda Badfinger encerrou a série encaixando perfeitamente com a saga de Walter White. A música reforçou a poesia que foi aquele último take silencioso.

E falando de Breaking Bad, eu não poderia encerrar esse texto sem falar do elenco, que nos presenteou com 6 anos de atuações formidáveis.

Bryan Cranston abraçou completamente Walter White e sua transformação. Ele interpretou magistralmente um personagem que mentia para os outros e para ele mesmo na cara dura e matava sem titubear, mas ao mesmo tempo era um cara carismático que cativou o público. Durante boa parte da série, Bryan interpretou dois personagens totalmente distintos que se misturavam em diversos momentos: Walt e Heisenberg.

Walt era o cara tranquilo e inteligente que só estava tentando vencer o câncer ou pelo menos deixar algo bom para sua família. Por outro lado Heisenberg era insano, frio, calculista e sociopata. Não media esforços para alcançar seus objetivos, independente das consequências ou das pessoas envolvidas. O homem de óculos escuros e chapéu era manipulador e, para desespero das pessoas que conviviam com Walt, fazia o pobre Walt se sentir vivo.

Mesmo querendo ser Heisenberg, Walt demorou para parar de mentir para ele mesmo. Demorou para ele aceitar e admitir que fazia tudo aquilo por ele, pelo poder e não pela sua família. A morte de Hank foi decisiva nessa virada por que mostrou para Walt que nem a sua família ele conseguia proteger. Essa temporada toda foi criada para que Walt conseguisse admitir isso – em uma bela cena com Skyler – e alcançasse uma espécie de redenção deturpada.

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Tudo isso sendo passado por um Bryan Cranston genial. O ápice da interpretação de Cranston – e de todo o elenco – foi no episódio 14 dessa temporada, “Ozymandias”. O melhor episódio de Breaking Bad. Acontecimentos importantes (morte do Hank), reviravoltas (briga com Skyler e sequestro da Holly) e cenas emocionantes e inteligentes (telefonema para Skyler no final). o episódio que conseguiu me deixar em estado de choque quando acabou.

Bryan Cranston é um gênio, mas sua atuação seria mais fraca se o restante do elenco não conseguisse o acompanhar em alto nível. Aaron Paul é um ótimo ator, Anna Gunn é mais do que fantástica (mesmo não gostando da Skyler, eu tenho que aceitar que ele é muito bem interpretada), Dean Norris tem uma grande presença em cena e Bob Odenkirk criou um dos melhores personagens do programa – tanto que Saul vai ganhar um spin-off.

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Sem contar tantos outros ótimos atores que passaram por Breaking Bad ou que sempre estiveram lá e passavam despercebidos. RJ Mitte, Giancarlo Esposito, Jonathan Banks, Jesse Plemons. Betsy Brandt e Matt Jones.

Acho que eu consegui falar tudo o que eu queria falar sobre a melhor série que eu já assisti. Eu escrevi esse texto pra tentar preencher o vazio que eu senti no minuto em que acabei o Series Finale, mas acabei percebendo que é muito difícil escrever sobre Breaking Bad. Ora faltavam palavras para falar sobre a série, ora eu não conseguia parar de escrever sobre algum aspecto do programa.

Desculpem se o texto acabou ficando confuso, estranho ou longo demais. Desculpem se eu fugi um pouco do tema proposto, afinal acabei não falando sobre o brilhante episódio final. Falei mais no geral sobre a série. É que eu precisava falar sobre Breaking Bad de um maneira que eu conseguisse abordar tudo o que fez eu me apaixonar pelo programa.

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Mas tudo o que é bom tem que chegar ao fim e Breaking Bad acabou no seu auge, no momento perfeito. E mesmo sabendo que era necessário que a série acabasse agora, eu estou triste e um pouco órfão dela. Só tenho que agradecer ao criador Vince Gilligan, aos produtores, aos roteiristas, ao elenco e toda a equipe de apoio por fazer essa série.

#GoodbyeBreakingBad

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OBS 1: Alguém tem que fazer um estudo aprofundado sobre o psicológico de Walter White e do seus criadores, Bryan e Vince…

OBS 2: De certa maneira, essa temporada de finais só acaba ano que vem com o final de How I Met Your Mother.

OBS 3: Momento comédia com Bryan Cranston e Aaron Paul:

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OBS 4: Pra fechar o post, um vídeo muito engraçado onde Stephen Colbert prende Vince Gilligan para que ele escreva mais episódios. Mesmo quando o criador fala que não tem mais histórias para contar, Stephen cita várias opções de histórias para seguir.