AODISSEIA
Músicas

Música: ÷ (Divide) – Ed Sheeran

9 de Março de 2017 - 11:06 - Flávio Pizzol

Era uma vez um filme que se encerrava de forma brusca com um dragão preparando-se para o ataque, enquanto os longos créditos invadiam a tela ao som de uma incrível canção com toques medievais. A música – chamada I See Fire – entrou para minha playlist de trilhas viciantes e seu intérprete, Ed Sheeran, virou um dos meus artistas favoritos nessa louca indústria da música pop. Agora, depois de um ano quase sabático, ele apresenta um trabalho ainda mais autobiográfico e aberto a renovações com ÷ (Divide).

Desde o lançamento do clipe, Castle on the Hill deixou a primeira característica escancarada, mas pode acreditar que ela passa longe de ser a única música sobre crescer em uma cidade pequena e mudar as formas de pensar. Eraser, por exemplo, inicia o álbum com pé direito, atravessa toda a vida do artista como uma verdadeira biografia, relembra suas vitórias profissionais até o emblemático show para 200 mil pessoas no Wembley e já prepara o público para uma sequência de várias músicas em primeira pessoa. Eu sei que suas músicas sempre passaram essa vibe, porém Divide ainda me pareceu um pouquinho mais pessoal, principalmente quando ele coloca em cheque a indústria musical, fala sobre sua família (uma das melhores canções parece ser sobre o casamento de um ancestral) ou declama letras tão sofridas que fariam os intérpretes da sofrência brasileira se afogarem em lágrimas.

Além disso, a principal diferença de Divide para X (que ainda é o meu favorito) parece estar na quantidade de instrumentos usados, contrariando suas intimistas apresentações ao vivo onde as canções são construídas com vozes feitas pelo próprio Ed, violões ou guitarras e uma pedaleira com loop embutido. As versões acústicas ainda não foram totalmente liberadas para revelar as mudanças que devem surgir durante a turnê, mas, por enquanto, as melodias do disco surpreendem por abusar – pontualmente – de pianos, violinos e até viradas de bateria bastante energéticas.

Essas escolhas (principalmente a segunda, nesse caso) criam um trabalho um tanto ousado, intenso e rico. Uma seleção de 16 canções que vão das típicas baladas românticas no estilo Thinking Out Loud até as levadas eletrônicas, enquanto passam por vários estilos e misturas musicais inusitadas dentro da discografia de Sheeran. O seu costumeiro rap até aparece logo de cara em Eraser, mas o disco ganha corpo com as combinações entre as músicas latinas e africanas de Barcelona e Bibia Be Ye Ye, a ambientação dos pubs ingleses de Galway Girl e os toques de rock celta que me levaram para dentro de um casamento em Nancy Mulligan.

Todo esse conjunto de escolhas, instrumentos e gêneros fazem com que a experiência de escutar ÷ (Divide) seja divertida e viciante, apresentando um Ed Sheeran que sabe como agradar seus fãs de longa data e expandir os horizontes do seu talento com novas experimentações. Preciso aceitar que algumas músicas – como Shape of You e Supermarket Flowers (que são ótimas individualmente) – parecem estar um tanto quanto deslocadas dentro da sequência escolhida, no entanto o todo é tão valioso que você pode resolver esse pequeno problema com um clique no modo aleatório do Spotify.


OBS 1: Só quero deixar registrado que minhas músicas favoritas até o momento são Nancy Mulligan, Galway Girl, Castle on the Hill, Eraser, Barcelona, Bibia Be Ye Ye e New Man. Nessa ordem!

OBS 2: Ed  já tinha colocado duas canções de Divide nas primeiras posições de mais tocadas da semana. Agora, após o lançamento oficial, o disco quebrou o recorde de reproduções em 24 horas no Spotify com mais de 57 milhões de plays.