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Filmes

Crítica: Moonlight: Sob a Luz do Luar

27 de Fevereiro de 2017 - 13:05 - felipehoffmann

A noite, sob a luz da lua, todos negros ficam azuis


Ao contrário do que pode parecer, Moonlight: Sob a Luz do Luar não é um filme de gueto. A voz da cultura afro está lá mas o filme vai além e propõe outras discussões, como bullying, homossexualidade e valores familiares. A forma silenciosa que trabalha a angústia de seu personagem aflita o espectador e justamente essa poesia calada é capaz de passar a mensagem que deseja. Um filme profundo, encantador e de rara beleza.

O filme de Barry Jenkins conta a história de Chiron, um negro, homossexual, que vive com a mãe, viciada em crack, no subúrbio de Miami. A obra é divida em três partes que complementam a vida do personagem. Little (Alex Hibbert) é a criança cheia de dúvidas sobre a vida e encontra em Juan (Mahershala Ali) a figura paterna que lhe falta. Chiron (Ashton Sanders) é o adolescente obscuro, recheado de dúvidas sobre sua sexualidade, tendo que conviver, até o pavio estourar, com a violência escolar diária. E Black (Trevante Rhodes) vive o adulto vítima de suas escolhas, carregado com as angústias do seu difícil passado.

Moonlight grita só com o olhar. Fala pouco mas diz o suficiente. Existe tanta dor oculta no personagem que torcemos para Chiron extravasar, de qualquer maneira, o que lhe aflige. O filme se resolve de forma serena e poética, mas o berro na garganta embarga e pede pra sair. Apesar de, no terceiro ato, se arrastar um pouquinho, o roteiro consegue ser bem intenso e prende toda sua atenção durante o desenvolvimento.

Os três atores incorporam de forma muito natural o personagem. A semelhança física entre os três impressiona, fazendo-nos acreditar que realmente é a mesma pessoa. Cada qual em seu tempo, eles passam perfeitamente a dor que Little, Chiron e Black sentem. São três fases distintas da vida que moldam uma pessoa a partir da dualidade das figuras paternas, das dúvidas e angústias da adolescência e das nuances que a vida adulta pode trazer.

 

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Mahershala Ali (House of Cards) está presente apenas no primeiro ato de Moonlight mas sua participação marcante foi muito bem justificada com o Oscar de melhor ator coadjuvante. Seu diálogo com Little, nas águas calmas de Miami, está entre as coisas mais bonitas do cinema. A cena é linda e a mensagem passada ali, idem. Naomie Harris não fica atrás, entregando uma personagem profunda, mergulhada em drogas, afogando a presença da mãe e emergindo uma figura viciada, vista na pele, todo o peso do problema.

O filme é uma ode à beleza oculta. As cores fortes fazem um contraste interessante entre o mundo externo e o conflito pessoal de Chiron. A medida em que a história vai se desenvolvendo, elas vão ficando mais escuras e visualmente imersivas. Um filme que começa com o forte sol de Miami, termina com o silêncio e a monotonia da noite. Complementa ao visual, a excentricidade de sua trilha sonora. O compositor Nicholas Britell passeia pelo hip-hop mas se desprende do clichê de forma bem natural. Caetano Veloso e Barbara Lewis ajudam a contar uma história tensa e atormentada em busca de respostas para descobrir o verdadeiro eu.

Vencedor do Globo de Ouro – e também melhor filme do Oscar, após toda a polêmica da premiação – Moonlight não é apenas uma discussão sobre homossexualidade. Barry Jenkins fez um trabalho magnífico e transformou em sucesso um filme de baixíssimo orçamento, provando que uma história bem contada transcende qualquer dinheiro de blockbuster. Chiron é fruto de um ambiente disruptivo, tentando superar suas adversidades diariamente para só assim, descobrir sua verdadeira identidade e poder seguir em paz com sua poesia, mesmo que silenciosa.