Livros e HQ’S: Frankenstein ou o Promoteu moderno

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O criador e a criatura de Mary Shelley completaram 200 anos e a gente conta porque Frankenstein ou o Promoteu moderno é uma leitura indispensável.


Há dois séculos, quando tinha apenas 19 anos, Mary Shelley escreveu a obra responsável por inaugurar a literatura de ficção científica. O monstro e a forma como foi criado, em laboratório por Victor Frankestein, além de introduzir um estilo literário, trouxeram à tona questões acerca da responsabilidade e ética da ciência, bem como, sobre a moral da sociedade. Por isso, Frankenstein ou o Promoteu moderno permanece pertinente e atual, sendo um dos livros mais adaptados para frames e película da história do cinema.

Abertura da edição de luxo da DarkSide Books.

O romance se inicia por meio dos relatos que o capitão Walton envia a sua irmã. Ele é um visionário, que almeja desbravar as terras gélidas do Ártico em busca de conhecimento. Ele acredita que sua tripulação possa “chegar a uma terra cujos esplendores e cuja beleza ultrapassam os de qualquer região até então descoberta no globo habitável.” Onde talvez ele descubra “ (…) a força estupenda que atrai o ponteiro da bússola e possa conferir maior justeza a centenas de observações do céu que só dependem dessa viagem para conferir às suas anomalias uma consistência inabalável. (p. 18).”

Mas, durante a sua trajetória, o capitão encontra à deriva e à beira da morte o cientista Victor Frankenstein. E esse inesperado tripulante, em seus momentos de lucidez e de alívio de sua doença, passa a relatar a sua história. Dessa forma, no decorrer do livro tende-se a esquecer que a narrativa é feita por meio das cartas de Walton. A sensação é que existem três narradores-personagem: Walton, Frankenstein e o monstro.

Essa estrutura confere ao leitor a possibilidade de conhecer os dois lados do enredo principal. Põe-no em dúvida sobre quem é o vilão e quem é o mocinho da trama. Ora, sente-se compaixão por Frankenstein, devido a todos os flagelos que vive; ora, o odiamos e nos compadecemos pelo monstro, em virtude da vida errática e solitária a qual foi lançado. Enquanto isso, o capitão Walton e sua subtrama, representam a condição do leitor, que ao final precisará se posicionar sobre sua própria história e aquela que está escutando.

Inicialmente Shelley nos mostra todo o empenho, coragem e determinação que Walton precisou reunir para embarcar em seu objetivo. A autora descreve seus esforços e sua personalidade de modo que nos faz compreender o espírito de uma época – marcada pelo cientificismo. Assim, também explica a motivação e até a obsessão de Frankenstein por empreender uma grande descoberta científica, mesmo sendo algo tão questionável, como a criação mecânica de uma vida.

Mary Shelley também instiga o leitor a questionar os méritos dessas buscas. Faz isso, inclusive, por meio do discurso do próprio Walton, quando ele afirma que:

“A vida e a morte de um homem são um pequeno preço a pagar pela aquisição do conhecimento que busca, pelo domínio que poderia adquirir e transmitir sobre as adversidades da natureza, inimigas de nossa espécie. (p.29)”.

Porém, a autora expõe inicialmente a fragilidade de Frankenstein, exibe a condição psicológica e física ao qual ele chegou. Ela o humaniza ao ponto de fazer com que o leitor simpatize por ele e defina seu caráter positivamente, por intermédio da visão do Capitão Walton: “Nunca havia visto uma criatura tão interessante: seus olhos tinham uma expressão selvagem, quando não de loucura; no entanto havia momentos em que, se alguém lhe fazia alguma gentileza, toda a sua expressão se iluminava com um raio de benevolência e doçura inigualáveis. (…) Deve ter sido uma nobre criatura em dias melhores, já que, mesmo agora, na desgraça, é tão gentil e amigável.”

Ilustração da edição de luxo da DarkSide Books.

Até que se conhece o relato do monstro, cuja ausência de nome reflete justamente a impossibilidade de ser reconhecido como um alguém. A criatura e o que ela representa nos remete ao que defendia o filosofo Rousseau – que por sinal nasceu em Genebra, cidade natal de Frankenstein e onde a autora criou seu romance, de que o ser humano é essencialmente bom, mas é corrompido pelo meio e as circunstâncias nas quais vive.

Na alegoria de Shelley, o monstro nasce ingênuo, ignorante a respeito de tudo. Tal qual uma criança, vai descobrindo aos poucos o que são as coisas e as pessoas (uma coisa, se é que você me entende). Ele se reconhece como indivíduo a partir do outro, é ao olhar para as pessoas e ao vivenciar a reação delas ao vê-lo – ficavam amedrontadas, fugiam ou atacavam-no, que a criatura descobre que é diferente e que, por isso, não é aceito.

“Aprendi que os atributos mais valorizados pelos seus semelhantes eram a linhagem nobre e imaculada combinada à riqueza. Um homem talvez fosse respeitado se tivesse uma dessas duas vantagens, mas sem ambas era considerado, exceto em casos muito raros, um vagabundo e um escravo, fadado a trabalhar em benefício dos poucos escolhidos! (p.128)”

Contudo, ele alimenta a esperança de que, se puder mostrar às pessoas as suas qualidades, elas o amarão. Assim, como qualquer humano, a criatura busca aceitação. O resultado dessa busca determina os fatos cruéis que se seguem. Levantando a questão: ele é uma vítima das circunstâncias ou não? O próprio questiona:

“Serei sempre considerado o único criminoso, o único culpado, enquanto todos os que me conheceram cometeram injustiças para comigo? (p.130)”.

Dessa forma, a obra de Shelley questiona a moral da sociedade, a sua capacidade de aceitar e acolher as diferenças. Mas seu livro também nos faz pensar sobre até que ponto a ciência pode ir. Qual a moral em se criar uma vida e abandoná-la ao léu? Frankesntein se põe como alguém cujo sofrimento foi todo causado pelo monstro, um ser mau caráter e cruel. Não se observa no cientista arrependimento referente a dor que ele causou a sua criação.

Portanto, além de ser uma leitura envolvente, cujo ritmo nos impele sempre para a próxima página, o bicentenário Frankenstein ou o Promoteu moderno suscita debates que ainda são necessários. A história criada por Mary Shelley é uma daquelas que nos serve tanto para o lazer, quanto para o estimulo à reflexão sobre as conjunturas sociais, sobre os métodos e dogmas humanos, sobre nós. Tudo isso, sob o pretexto do entretenimento. Uma obra completa, eu diria.

Dicas extras:

  • A editora Darkside lançou este ano uma edição de luxo de Frankenstein ou o Promoteu moderno mais um daqueles que todo bookaholic deve ter em sua estante:  capa dura com verniz localizado, ilustração de capa fantástica, diversas ilustrações internas, os dois prefácios originais da autora, um prefácio da editora explicando a história de como Shelley produziu o livro, além de fitilho marca-página e um projeto visual que remete a um diário de cientista.

Sumário da edição de luxo da DarkSide Books.

  • Existem inúmeros filmes baseados na obra de Mary Shelley, mas o Frankenstein de Mary Shelley (1994) dirigido por Kenneth Branagh, é o mais fiel ao livro. Além de ter um elenco de peso: o próprio Branagh, Robert de Niro, Tom Hulce, Helena Bonham Carter, Aidan Quinn, entre outros. Confia em mim, vale a pena conferir! Veja o trailer:

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