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Livros e HQ's

Livros e HQ’s: Tartarugas Até Lá Embaixo

Um livro adolescente pessoal, atual e recheado de temáticas necessárias.

28 de novembro de 2017 - 23:40 - Flávio Pizzol

 

Eu sempre tive um preconceito inexplicável com as obras ligadas ao nome de John Green, sejam estas livros ou adaptações cinematográficas. E, por mais que essa seja uma forma meio babaca de começar um texto, eu preciso colocar isso pra fora antes de pedir desculpa e afirmar que queimei minha língua em quase todas as vezes que decidi mergulhar no universo do autor. Seu último lançamento, Tartarugas Até Lá Embaixo, é o primeiro livro dele que eu leio, mas já entrou certamente pra essa lista desde as primeiras páginas.

 

O pontapé inicial do romance é o misterioso desaparecimento de um grande empresário da cidade de Indianápolis, mas o seu foco principal está em uma jovem, chamada Aza Holmes, que luta para conviver com as “espirais” de pensamentos que invadem sua mente e aprender a viver como uma pessoa normal. É claro que, contando com a ajuda de sua amiga Daisy, ela precisa fazer isso enquanto resolve o tal mistério, sobrevive ao ensino médio e cruza o caminho de sentimentos surpreendentes, como o amor e a amizade.

 

Essa segunda parte do resumo e o próprio contexto exposto pela narração que abre o livro deixam claro que a história é voltada para um público majoritariamente adolescente, porém vou avisar que isso acaba passando despercebido para quem aceita os fatos sem demora, se permitindo entrar na história de cabeça aberta. Eu li o primeiro capítulo, vi algum potencial e decidi que precisava fazer um exercício para me libertar das mesmas amarras que me impediam de comprar outras obras de Green. E, pra adiantar o resultado desde já, a experiência foi deliciosa.

 

O texto de John Green em Tartarugas Até Lá Embaixo possui um ritmo muito ágil, uma linguagem simples que não abre mão de ser invadida por diversos elementos profundos e filosóficos, uma separação de capítulos que vai prendendo o espectador cada vez mais na trama e, principalmente, personagens espetaculares que devem conquistar a atenção do leitor sem nenhuma dificuldade. É muito fácil se identificar, sentir vontade de compreender os problemas ou, no mínimo, torcer para o sucesso de Aza, Daisy, Davis e companhia durante as quase 270 páginas que passam voando.

 

 

O desenvolvimento de Tartarugas (vou resumir o nome por motivos de preguiça) encontra seus pontos altos nos ótimos diálogos que vão de Star Wars à questionamentos jurídicos em poucas linhas, nas piadas inteligentes, no bom uso da tecnologia inserida dentro da narrativa e na descrição da doença mental que acompanha – e quase define – a protagonista, colocando o leitor dentro da confusão que toma conta da cabeça de Aza. Os momentos de doce ou emoção excessiva, como já era de se esperar, permeiam todos esses momentos, mas não conseguem roubar a história para si e tentar forçar o choro como acontece no longa A Culpa é das Estrelas.

 

Mesmo apostando em um tom agridoce que ocupa as últimas páginas, Tartarugas não é um livro pensado para fazer as pessoas chorarem. Ele possui um caráter informativo ligado aos distúrbios (similares aos da protagonista) sofridos pelo próprio autor e acaba sendo tocante justamente por não esconder esse lado pessoal. A resolução do mistério soa meio forçada e até perdida no meio de tantas subtramas mais importantes, porém essa suposta “falha” passa despercebida quando se entende que o desaparecimento de Russell Pickett era apenas a desculpa, o gatilho, para que Green pudesse abrir sua intimidade e refletir sobre a vida, o amor, a amizade e a vontade – ou necessidade – de seguir em frente sem ligar para as dificuldades.

 

Eu, pessoalmente, acabei encontrando um pouco de mim mesmo no amor de Daisy por Star Wars e literatura, na personalidade tímida de Mychal e em alguns aspectos que surgem durante as loucuras de Holmes. Apesar disso nunca ter me impedido de viver “normalmente”, eu sou uma pessoa ansiosa que passa por certos momentos de espiral quando o mundo me obriga a apresentar resultados relacionados aos meus textos e tenho certeza absoluta que não estou sozinho nesse caminho. Mais uma vez eu me identifiquei de forma gigantesca com os personagens desse tal de John Green (a primeira foi em Cidades de Papel) e isso foi o suficiente para derrubar os últimos tijolos que me mantinham afastado de sua obra.

 

Não vou correr para ler todos os seus livros antigos, mas garanto que vou receber sem preconceito os próximos contatos com esse cara que, inspirado em si mesmo, escreve sobre o mundo atual, as pessoas que nele habitam e as questões que as afligem como poucos. E ainda se dá ao trabalho de inserir todo o pacote em um enredo incrível que prende a atenção do leitor, surpreende e permite que muitas pessoas que sofrem de distúrbios mentais sintam-se um pouco menos solitárias. Em outras palavras, aceitem o conselho de alguém que já queimou a língua mais de uma vez: Tartarugas Até Lá Embaixo coexiste entre o divertido e o emocionante de maneira consistente, tem tudo para ser o ápice da carreira de John Green e merece ser lido sem nenhum preconceito.

 


OBS 1: No Brasil, o livro foi publicado pela Editora Intrínseca.