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Livros e HQ's

Livros e HQ’s: Reparos

Todas as coisas são passíveis de reparos...

13 de dezembro de 2017 - 00:28 - Flávio Pizzol

 

Eu conheci o Brão Barbosa no Artist’s Alley da Comic Con Experience desse ano e, graças as indicações de alguns amigos e aos argumentos do próprio autor, adquiri suas três obras de uma vez só. Li seu trabalho de estréia, Jesus Rocks, na fila do dia seguinte e fiquei impressionado pela quantidade de referências bíblicas que podiam ser encaixados em uma história de pai e filho. Logo depois, mergulhei em Feliz Aniversário, Minha Amada só para voltar a superfície abismado com um conto que engana perfeitamente o espectador e culmina em um dos finais mais sádicos da história. Como isso pude chegar, finalmente, a Reparos, sua mais longa e inspirada graphic novel.

 

A trama, que reúne toques autobiográficos e uma boa dose de nostalgia, acompanha Eunice, uma garota doce e curiosa que ama tirar fotos, criar foguetes com seus amigos e consertar máquinas. Quando um dos testes dão errado e o foguete cai nas mãos de um senhor solitário e mal visto pela cidade, ela acaba encontrando abrigo em uma amizade inesperada que ensina-lhe lições valiosas sobre amor, amizade e aceitação.

 

E podem acreditar quando eu digo que esse não passa do pontapé inicial para uma história que possui todos os ingredientes necessários para divertir, emocionar e surpreender. Os caminhos pavimentados por Reparos não levam a reviravoltas tão impactantes quanto a de “Feliz Aniversário, Minha Amada”, mas o desenvolvimento leve e doce consegue prender o leitor até a chegada de uma conclusão inesperada e emocionante. A junção entre humor, drama e amizade criada por Brão é impecável e o sucesso da narrativa passa, na minha opinião, por três características decisivas.

 

 

A primeira deles está justamente na sutileza como alguns elementos surgem na trama, mudando os rumos da história. Eu preciso admitir que fiquei incomodado, à primeira vista, com a maneira escolhida para simbolizar a principal lição que a menina aprende em relação ao seu crush e a posterior mudança temporal relativamente brusca, porém o final da história não só deu sentido a essas escolhas, como também mostrou que a simples decisão de não ceder o chocolate é o suficiente para simbolizar o crescimento da personagem.

 

Já a segunda está, acompanhando a lógica narrativa, na forma como a protagonista é brilhantemente desenvolvida. Eunice tem uma personalidade que conquista qualquer um com facilidade, enfrenta questionamentos universais e ainda ganha pontos por ser uma personagem feminina forte. Uma personagem atual que aprende com seus erros, vence na vida sem precisar fingir ser outra pessoa e decide construir sua própria independência. O resultado é a receita perfeita para que o leitor compreenda e torça incondicionalmente pelo sucesso da garota, aproveitando inclusive a sua visão de mundo para também se apegar ao Sr. Ravid.

 

Ele, por sua vez, também se revela um personagem deliciosamente construído, mas merece sua atenção por carregar uma das mensagens mais encantadoras e necessárias de Reparos: a necessidade de enxergar as pessoas para além das aparências. O Sr. Ravid sofre preconceito por ser grande e diferente do que é esperado por uma sociedade que gosta de nos enquadrar em caixinhas falsas de acordo com os aspectos visuais. É um problema que, querendo ou não, a maioria das pessoas passa, principalmente na adolescência.

 

 

No entanto, além disso, a primeira graphic novel de Brão Barbosa esconde temáticas ainda mais profundas e necessárias. Entre as principais estão a importância de acreditar em si mesmo, aprender a conviver com as diferenças, aceitar tanto seus próprios erros quanto as peculiaridades dos outros que não agradam e, principalmente, o valor que existe nas tentativas de reparar esses erros. E, indo ainda mais longe, eu me senti muito tocado pela ideia de que você poder ser diferente sem ter que ficar se esforçando constantemente para agradar e conquistar os outros. Em algum momento, você vai esbarrar em alguém que goste de você como você é.

 

Pra melhorar, Reparos embrulha todos esses acertos narrativos em um visual doce, colorido e extremamente vibrante. Os traços de Brão dão fluidez aos quadros e imprimem uma realidade fantástica que se alimenta com um pouco daquela nostalgia típica de Stranger Things, enquanto as cores de Mariane Gusmão enche os olhos do leitor com vivacidade. O resultado, como eu já devo ter deixado claro, é ágil, divertido e simplesmente emocionante. Você talvez não consiga conter as lágrimas quando a última foto surgir, mas precisa ler essa pérola do quadrinho independente nacional.