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Livros e HQ's

Livros e HQ’s: O Nadador

5 de outubro de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

Um ótimo romance policial sueco (pra variar)


o-nadador-joakim-zander-capaNão sei explicar exatamente os motivos por trás desse sentimento, mas eu tenho uma relação curta e muito apaixonada pela brilhante literatura policial sueca. Tudo começou entre 2008 e 2009, quando eu assisti a adaptação americana de Os Homens que não Amavam as Mulheres, me apaixonei e dei um jeito de ler o livro o mais rápido possível. Depois vieram todas as continuações, alguns exemplares de Jo Nesbø (que nasceu ali pertinho, na Noruega) e muitos outros romances até chegar no ótimo O Nadador.

[Não sei se vou aguentar, então spoilers são uma possibilidade]

Escrito por Joakim Zander, o livro acompanha as tramas paralelas de um agente americano que precisa abandonar a filha recém-nascida após a morte da mulher e de um ex-soldado que recebe informações confidenciais e começa a ser perseguido por assassinos de elite. A partir disso, o livro tece uma longa e típica rede de intrigas que envolve guerra ao terror, corrupção, espionagem, preconceito e ganância antes de amarrar todas as pontas soltas nas pequenas ilhas suecas.

Como em todo bom thriller policial, ele entrega capítulos curtos que se encerram sempre na hora certa e desenvolve todos os temas de forma separada para ir reunindo tudo aos poucos, com destaque para duas reviravoltas muito surpreendentes no meio do livro. Aproveitando o máximo dessa temática que envolve a premissa, Zander não poupa o espectador de momentos tensão, mortes inesperadas de quem o leitor pensava ser um protagonista e descrições que mexem com a imaginação.

Inclusive, a habilidade de Joakim na hora de descrever cenários, pontos turísticos e aspectos específicos dos anos visitados é um dos pontos fortes de O Nadador, fazendo bom uso do tempo em que ele morou nesses lugares. Ele transmite tudo para as páginas de uma forma sofisticada e sucinta, deixando o leitor por dentro de tudo que é necessário sem precisar gastar muito tempo. A maior parte da trama é ocupada por uma descrição mais emocional, onde Zander também demonstra seu talento na construção psicológica de personagens.

Outra coisa muito interessante é que o livro possui dois narradores completamente diferentes, cujas histórias se desenvolvem de forma separada até as últimas cem páginas. O principal é um narrador-observador que segue Klara, Mahmoud, Gabiella, George e os demais personagens que estão no presente, enquanto o outro ganha forma na própria voz do tal agente secreto que conta pequenos trechos da sua vida em primeira pessoa. A parte mais legal dessa brincadeira aparece quando os dois momentos se encontram e, de uma forma muito natural, algumas cenas passam a ter dois pontos de vistas complementares.

Depois de alguns momentos um pouquinho arrastados, o final ainda guarda mais duas pequenas reviravoltas que dão novo gás ao texto. Eu deveria dizer que não recomendo a leitura de nenhum resumo do livro (inclusive a que eu fiz), porque ela guarda uma informação crucial sobre uma ligação entre personagens, no entanto comecei a pensar de outra forma enquanto escrevia esse texto. A ligação em questão fica clara nos primeiros capítulos e sua revelação só não acontece de cara para manter uma ligação mais decisiva e surpreendente escondida até as últimas páginas.

O resultado é uma leitura ágil e cheia de suspense que coloca o dedo em várias feridas, enquanto explora os efeitos do passado na vida de pessoas aparentemente comuns. O Nadador não reinventa a roda, nem choca com a mesma intensidade que a trilogia de Stieg Larsson, mas possui uma força incrível nas suas descrições, nos personagens bem construídos e nas críticas afiadas em torno de assuntos muito atuais. Joakim Zander força o leitor a torcer pelos protagonistas, prende a atenção com eficiência e começa sua carreira como escritor de forma bastante interessante.


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