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Livros e HQ's

Livros e HQ’S: Madame Bovary

28 de outubro de 2016 - 16:08 - felipehoffmann

Um romance secular extremamente atual


 

O livro Madame Bovary, de Gustave Flaubert, foi lançado em 1857 e causou forte escândalo, levando, inclusive, o autor a ser processado (sim, já chegou lacrando!).  Na contramão do romantismo, Flaubert criou uma das primeiras obras literárias de ficção realista. Além disso, tratou abertamente sobre os temas do adultério (de uma mulher, sendo ainda mais polêmico), de crítica à burguesia, à igreja e ao clero.

O romance é dividido em três partes, no início, a sensação é a de que Charles Bovary é o protagonista, pois o leitor acompanha a sua vida, de sua infância até sua viuvez. E por se tratar de um personagem apático, a primeira impressão é de que será uma leitura lenta e maçante. No entanto, a partir do momento que Emma entra em cena o enredo vai ganhando dinamismo. A personagem se torna cada vez mais intensa e com ela o livro.

Emma assume o protagonismo da história após se tornar a madame Bovary. Seu matrimônio, do ponto de vista de Charles, trata-se de um amor impecavelmente romântico.

“Ele era feliz e não se preocupava com nada neste mundo. Uma refeição a dois, um passeio ao crepúsculo através da estrada principal, um gesto de mão a acariciar os cabelos dela, a visão do seu chapéu de palha pendurado na argola da janela, e muitas outras coisas que Charles jamais suspeitara virem a dar-lhe tanto prazer, agora vinham a ser o infinito de sua felicidade.” (2014, p. 54)

Mas essa é uma das grandes sátiras de Flaubert: fazer parecer que seu enredo é tradicional, que segue as características do romantismo, quando na verdade o contradiz por completo.

Visto que, enquanto Charles se desmanchava em amores, a protagonista se lamentava.

“Antes de se casar, ela imaginava amar; mas a felicidade que ela sonhara vir desse amor não viera, ela devia ter se enganado, devaneava. E Emma buscava saber o que significavam exatamente na vida as palavras felicidade, paixão e êxtase, que haviam lhe parecido tão belas nos livros.” (2014, p. 54) 

Durante toda a trama a personagem principal anseia encontrar o par romântico perfeito, alguém que, como nos livros que lia, a salvasse do tédio de uma vida comum. Ela é uma romântica em terra de realista.

Ao contrário do que se esperava de uma mulher, a Sra. Bovary não se viu realizada nem pelo matrimônio e nem pela maternidade − considerem que, ainda hoje, as mulheres são pressionadas a serem esposas, mães e donas de casa, de preferência exemplares, afinal essas são as razões da existência feminina, sem isso a mulher não tem uma vida plena (risos), agora imagine no século XIX. Emma não se conforma em apenas cumprir esses papeis, por isso não é submissa ao marido, não é “prendada” e nem fiel. Ela está em total desacordo com seu tempo, seu nível social e seu sexo. Assim, mesmo sendo escrito há mais de 100 anos, Madame Bovary é permeado por conflitos universais e ainda atuais.

Além disso, Emma Bovary é uma figura complexa que desperta a afeição e também aversão do leitor. Ora se está torcendo pelo seu sucesso, pela concretização de seus ideais de amor e felicidade, ora tem-se raiva pela forma como ela engana o marido, negligencia a filha e se endivida para manter caprichos, desconsiderando completamente o futuro de sua família  − será que esse já seria um prenúncio do consumismo desenfreado da sociedade atual?  Portanto, não se assuste por ser uma obra secular (não pense que se trata de um livro chato, daqueles que são lidos apenas por constar na lista do vestibular), pois Madame Bovary, além de um clássico, é uma leitura angustiante e voraz. Trata-se de uma obra que questiona diversas instituições, como a família e a igreja, mas vai além, colocando em xeque o mito do amor verdadeiro.

A romântica Emma não encontra no casamento a felicidade plena que leu em seus romances, então a busca na relação extraconjugal.

“Ela repetia-se: ─ “Eu tenho um amante! Um amante!”─, deleitando-se com esta ideia como se uma nova puberdade lhe tivesse retornado. Então finalmente ela ia possuir essas alegrias do amor, a febre da felicidade da qual ela já desesperava. Entrava em algo maravilhoso onde tudo seria paixão, êxtase, delírio, uma imensidão azul a cercava, os mais altos cimos do sentimento brilhavam em seu pensamento, a existência ordinária só aparecia ao longe, abaixo, à sombra, entre os intervalos dessas alturas.” (2014, p. 201)

E isso torna o texto de Flaubert ainda mais atual, afinal, o mito do amor romântico não é, ainda hoje, perseguido? Muitas meninas e mulheres ainda anseiam pelo príncipe encantado e pelo “felizes para sempre” dignos de uma “Princesa Disney”.

Assim, a protagonista almeja a liberdade, mas é limitada por sua condição de gênero ─ inclusive, em vários trechos ela se queixa por ser mulher, um retrato do que foi (leia-se: ainda é) a vida das mulheres em uma sociedade patriarcal. Dessa forma, todas as escolhas de Emma em um primeiro olhar parecem ser tão erradas, ela parece ser uma personagem odiosa. Mas e os homens que a cercam? Um marido incapaz de enxergar a infelicidade de sua esposa − talvez porque nunca tenha lhe dado atenção verdadeira. Um conquistador que seduz e usufruiu das mulheres como objetos de diversão. Um jovem apaixonado  ─ aparentemente o típico mocinho romântico que salvará a donzela da torre ─ mas que sucumbi diante da realidade das relações monogâmicas.  E ainda há entre o elenco masculino, o homem influente e poderoso, que aceita “ajudar” Emma desde que ela também lhe “ajude” (sexualmente falando).

Portanto, a obra de Flaubert é uma leitura pertinente ao nosso tempo, para não dizer obrigatória. E se tudo isso ainda não lhe convenceu a ler esse romance, saiba que ele termina desconstruindo ─ e satirizando ─ um dos romances mais conhecidos e adaptados do mundo, o shakespeariano Romeu e Julieta, em um clímax que pode ser comparado com o declínio do próprio movimento romântico.


 

Dicas extras:

  • A editora Martin Claret tem uma edição especial de Modame Bovary com um acabamento perfeito! Daqueles que todo bookaholic deveria ter em sua estante:  capa dura acolchoada, cor pantone, hot stamping, fitilho marca-página e um projeto visual que remete a um álbum de fotografia antigo (luxo!).
  • O filme Madame Bovary (2015) da diretora Sophie Barthes (Almas à venda) é o mais fiel ao livro e conta com Mia Wasikowska (Alice no país das maravilhas) e Ezra Miller (As vantagens de ser invisível e o futuro The Flash), confira o trailer: