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Livros e HQ's

Livros e HQ’s: Fugitivos – Volume 1

Uma construção de um universo dentro de outro

14 de dezembro de 2017 - 10:35 - Tiago Soares

Construir universos, sejam eles paralelos ou não é algo que a Marvel sabe fazer muito bem, como temos visto em seus filmes, e até em suas séries. Mas lá em meados de 2003/2004, a Marvel ainda não tinha uma HQ que focasse em seus adolescentes, criando uma história infanto-juvenil. Ao mesmo tempo, ela cria um universo próprio, longe da megalomania dos Vingadores, fazendo de Fugitivos um lugar particular, mas ao mesmo tempo inserido em seu grande cerne.

Seja pela presença de outros heróis ou citações a eles, é nítida a sensação de se desprender, mas sempre deixando pontas para encontros futuros que podem nunca acontecer. É o caso das séries da Marvel/Netflix, que se passam quase que em outro universo, mas sempre citam os heróis do cinema. Com a chegada da série dos Fugitivos (Runaways) pelo Hulu, resolvi destrinchar as HQs desses jovens heróis e me surpreendi pela maturidade do texto e uma bela arte.

A premissa é bem simples: E se seus pais fossem vilões? É assim na vida de 6 adolescentes, que já tem os seus problemas e diferenças na família e aqueles que eles inventam. Sabemos que todo adolescente é chato, mas Fugitivos está preocupado em mostrar que suas causas são genuínas e que há sentido em tudo, sem tirar os momentos impulsivos e até idiotas de seus protagonistas.

Todos os anos a família Wilder organiza um encontro, em que mais 5 famílias participam, com a desculpa de que vão discutir sobre caridade. Todos levam seus filhos, que têm que socializar entre si numa sala de jogos. Alex, filho da família Wilder, sugere que eles espionem o que seus pais fazem quando estão reunidos e é no exato momento em que eles vêem seus 6 progenitores assassinarem uma jovem indefesa em um sacrifício de sangue.

A partir disso, os 6  fogem de casa, ganhando o nome título (não citado nenhuma vez na HQ, pelo menos em terceira pessoa), com o intuito de entregar seus pais as autoridades, ou pelo menos impedi-los. No processo de investigação para saber o que seus pais fazem, os 6 descobrem poderes, dons ou presentes dos pais que nem sequer sabiam que existiam.

Alex Wilder é o líder nato do grupo e um gênio estrategista, além de ser o único dos seis que não tem poderes, habilidades ou armas nos sentidos clássicos das palavras; Nico Minoru (Irmã Grimm/Sister Grimm) é uma feiticeira com o controle inadvertido do Cajado do Absoluto de sua mãe, que a permite fazer mágica; Karolina Dean (Lucy in the Sky) é uma alienígena com poderes à base de luz que são mantidos sob controle por intermédio de uma pulseira inibidora; Molly Hayes (Fortona/Bruiser ou Princess Powerful) é a mais jovem do grupo, com 11 anos, e uma recém-descoberta mutante com superforça.

Chase Stein (Boca-Dura/Talkback) é o mais velho do grupo, com 17 anos, e não tem poderes, mas maneja manoplas pirotécnicas poderosíssimas que rouba de seus pais e, finalmente, Gertrude Yorkes (Arsênico/Arsenic) é uma garota também sem poderes, mas com uma conexão telepática com um velociraptor batizado de Alfazema (Old Lace, no original), criado por engenharia genética no futuro, por encomenda de seus pais, que são viajantes do tempo e que tem como função protegê-la de qualquer perigo, além de obedecer a todos os seus comandos.

O que Brian K. Vaughan (criador de Y: O Último Homem, Ex Machina, Saga e etc) faz com sua história é algo louvável. O primeiro volume dividido em 4 arcos mais um epílogo, é uma aula de como desenvolver e trabalhar personagens e suas motivações. Afinal, Brian apresenta 6 novos heróis e mais 12 vilões, que estão divididos entre criminosos, viajantes do tempo, magos negros, mutantes, cientistas malucos e alienígenas. No total, 18 personagens, sem contar os coadjuvantes e suas participações especias.

O primeiro arco intitulado Orgulho & Felicidade (Pride and Joy) que vai das edições #1 a #6, é todo focado nas origens e apresenta as motivações dos seus personagens. Brian não precisa parar sua história e fazer um background de todo mundo, uma fala, um gesto, uma atitude denota o que cada um é e sente com a situação. A arte de Adrian Alphona vai de encontro a esta proposta e é bastante feliz em sua criação, não tornando os jovens estereotipados e sendo caricaturas de si mesmos.

O segundo arco  Angústia Adolescente (Teenage Wasteland), que vai das edições #7 a #10 foca na procura da identidade do grupo, ao mesmo tempo em que eles buscam um esconderijo. É a parada necessária para rever planos e arquitetar estratégias, afinal eles descobrem que seus pais fazem parte de uma antiga sociedade chamada O ORGULHO, que possui ligações perigosas dentro do poder judicial, legislativo e executivoem outras palvras, eles controlam tudo em Los Angeles.

O terceiro arco, Achados e Perdidos (Lost and Found) aborda apenas as edições #11 e #12 e mostra uma manobra ousada de Brian. Ao trazer outros heróis pro universo dos Fugitivos, Brian tira todo o ar de “pé no chão” da HQ, mesmo com toda a presença do misticismo, a história seguia com dramas terrenos. A presença de Manto e Adaga (que também ganharão uma série própria) não contribui tanto e nem atrapalha, fazendo do arco um pequeno filler, que traz coisas interessantes. Na arte Adrian dá lugar a  Takeshi Miyazawa que mantém o estilo.

O arco final Os Bons Morrem Jovens (The Good Die Young) que vai do #13 ao #17 traz o peso do título. Toda a luta final com os pais, com a presença de uma reviravolta de tirar o fôlego. Toda a questão da maturidade dos jovens culmina em um fim extremamente melancólico. O epílogo intitulado apenas Dezoito, mostra um futuro aparentemente melhor para os Fugitivos após o fim de tudo, e apresenta um grupo melhor e mais unido, sem deixar de ser os adolescentes que são.

Sendo assim, o primeiro volume de Fugitivos cria todo um universo novo, aonde não havia espaço para histórias originais e muito bem contadas. Apesar de um pouco de suspensão de descrença ao apresentar uma sociedade secreta que trabalha nas sombras há anos sem ser exposta e que é controlada por gigantes (como é mostrado em um longo flashback). Tudo é muito cinza, e tanto nossos heróis como vilões tem motivações plausíveis.

Os Fugitivos brincam com essa estética super-heroica, eles não usam uniformes, e seus nomes de batalha são mais piadas internas do que tudo. Ansioso para ver o que o Hulu está fazendo com tanto material bom em mãos. Com apenas 7 episódios, dificilmente a série adaptará todo o primeiro volume, então após a crítica da primeira temporada, espere textos dos próximos volumes.