Livros e HQ’s: Extraordinário

A gentileza é sempre a melhor escolha


Sabe aquele livro que você compra na promoção sem dar nenhuma moral e acaba completamente surpreendido? Foi justamente isso que eu senti após terminar de ler o romance Extraordinário, escrito pela americana R. J. Palacio. Decidi encarar a leitura graças as semelhanças com o Quarto de Jack e sua futura adaptação para o cinema, mas já aviso que me deparei com uma história simples e bonita que leva um pouquinho de otimismo, esperança, amor e gentileza para qualquer coração desavisado.

E isso só acontece graças ao protagonista August Pullman, um garoto de dez anos que nasceu com uma rara deformação no rosto, sobreviveu por puro milagre e precisa enfrentar o seu maior desafio ao cursar o quinto ano do ensino fundamental em uma escola de verdade. Contando com a ajuda de amigos inesperados e pais super protetores, ele vai precisar enfrentar um nível de rejeição e preconceito que pode ser cruel para a maioria das crianças. A grande questão é que August não é uma criança comum.

“Vamos criar uma nova regra de vida… sempre tentar ser um pouco mais gentil que o necessário” – J. M. Barrie (Autor de Peter Pan)

Ele é um garoto gentil que sabe como se virar sozinho, tem plena noção da forma como é visto pelas outras pessoas e, assim como tantas pessoas rejeitadas pela sociedade, usa seu amor pela franquia Star Wars como fuga da realidade. É essa personalidade que conquista o leitor logo de cara e se torna o primeiro diferencial do livro, visto que ele é o primeiro narrador de sua própria história. Depois disso, a autora vai além e estabelece uma rede composta por outros narradores que apresentam pontos de vista diferentes sobre o protagonista, preenchem lacunas do contexto geral e ainda acabam gerando pequenas reviravoltas que ajudam a prender a atenção do leitor.

Além disso, essa tarefa de narrador fica sempre com as crianças ou adolescentes de no máximo 15 anos. A mãe de August (brasileira, por sinal) é uma parte importante e pode ser considerada uma das protagonistas da história, mas em nenhum instante apresenta sua versão dos fatos. Isso adiciona uma certa leveza a uma história recheada de temas complexos e atuais, como bullyng, paternidade e inclusão. Na minha opinião, deixar que a história seja contada através do olhar de uma criança é uma forma acertada de facilitar a digestão da mesma sem perder nada da força emotiva que não poderia faltar em um livro desses. Talvez essa seja sua maior e mais interessante proximidade com O Quarto de Jack.

“Toda pessoa deveria ser aplaudida de pé pelo menos uma vez na vida, porque todos nós vencemos o mundo” – August Pullman

No entanto, esses diferenciais deixam os primeiros capítulos um pouquinho arrastados e presos a uma grande quantidade de explicações, mas isso muda com o decorrer da leitura. A partir do momento em que você entende a dinâmica da história, se apega aos personagens de uma forma realmente intima e percebe que você está conversando diretamente com cada um deles, a história engata e fica difícil parar de ler antes de começar a se emocionar com o final. É muito rápido de ler e pode ser considerado um livro feito para ser devorado em poucos dias de férias.

Afinal de contas, Extraordinário é um livro pesado e cheio de discussões poderosas que, ao mesmo tempo, exala boas vibrações e mensagens positivas em torno da gentileza. Ele fica cada vez mais divertido e emocionante com o desenvolvimento dos personagens e preciso admitir que me emocionei um bocado em pelo menos dois momentos da história, sabendo que ambos são um pouquinho cafonas. Agora só me resta aguardar ansiosamente a adaptação cinematográfica dirigida por Stephen Chbosky (As Vantagens de Ser Invisível) e estrelada por Jacob Tremblay, Julia Roberts, Owen Wilson e Sônia Braga, torcendo para que o elenco infantil seja mais do que cativante. Por mais que a história seja sobre August, ele é gentil o suficiente para deixar que todos a sua volta brilhem ao seu lado.


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