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Livros e HQ's

Livros e HQs: Astronauta Magnatar

26 de novembro de 2015 - 13:00 - Flávio Pizzol

O selo adulto da Turma da Mônica

No universo das HQs, lançar um selo adulto faz parte de um caminho pré-destinado para todas as editoras, sendo que temos algumas mais conhecidas, como a Vertigo e a Maxx (pertencentes, respectivamente, a DC e Marvel). Então não existe nada mais justo do que ver esse caminho também ser percorrido pela editora que transformou completamente a indústria dos quadrinhos brasileiros. Eis que temos o lado adulto dos personagens criados por Maurício de Sousa.

Esse selo, denominado Graphic MSP, foi lançado em 2012 após o bom resultado de livros comemorativos que traziam releituras de Mônica e sua turma. Só que, nesse caso, a ideia foi ir além e deixar que outros atores usassem essas releituras para tratar de temas mais pesados, como a morte e a solidão.

É justamente isso que acontece em Astronauta Magnetar, graphic novel escrita e desenhada por Danilo Beyruth, que eu adquiri com o simples objetivo de conseguir autógrafos na Comic Con Experience. Na história acompanhamos o Astronauta já adulto explorando eventos cósmicos inéditos que acabam danificando sua nave e o transformando em uma espécie de náufrago espacial. Curiosamente, uma história muito parecida com a do livro e do filme Perdido em Marte, que já foram assunto por aqui.

Da mesma forma que Mark Watney faz em Marte, Astronauta precisa usar a ciência e os equipamentos que tem por perto para dar um jeito de sobreviver e é justamente esse aspecto que mais me interessou, porque o autor realizou uma pesquisa bem interessante sobre astrofísica para basear as suas ideias. Esse lado da exploração e da sobrevivência acaba sendo bem completo, enquanto divide espaço com a tradução da solidão do personagem, que não consegue conversar nem com seu clássico computador de bordo.

Esse apelo para a saudade e para os arrependimentos é muito bem construído desde os primeiros diálogos com o avô do protagonista, entretanto esses sentimentos não acabam sendo bem aproveitados. O maior problema, na minha humilde opinião, é que a quantidade pequena de páginas (apenas 74) podem não ser o suficiente para levar o leitor para dentro dessa mistura de sensações que move o personagem.

É um fato que eu fiquei completamente apaixonado por duas páginas que usaram a ilustração para fazer uma das melhores passagens de tempo que já vi, mas eu fiquei com a clara impressão que um pouco mais desse tempo deveria ter sido usado para estabelecer uma conexão maior entre história e leitor. Acredito que isso faria com a mudança do tom da história e a posterior reviravolta soassem menos bruscas e didáticas.

Por outro lado, a ilustração de Danilo (com o apoio essencial das cores de Cris Peter) não tem nenhum desses problemas, acertando em cheio na reformulação visual do personagem, nas saídas mais criativas, no clima aventuresco do início e, principalmente, no seu clímax mais sentimental e singelo. É que funciona separado do que já foi feito sem abrir mão de te fazer lembrar desse passado que nem é tão distante.

No final das contas, Astronauta Magnetar tem seus problemas de desenvolvimento, mas acaba sendo um acerto por ser uma leitura rápida e sadia que consegue representar bem os objetivos do selo. É algo para se ler em menos de duas horas, sentir um pouquinho de nostalgia e ficar com um gostinho de quero mais.

OBS 1: Existes duas edições que eu fiquei com muita vontade de ler: uma com o Penadinho, que usa uma mistura de romance e morte, e outra do Bidu que me pareceu extremamente triste e fofa ao mesmo tempo. Prometo escrever assim que comprá-las.