AODISSEIA
Especial

A guerra mais importante da história de Hollywood

Abusos sexuais, carreiras destruídas e os bastidores de uma resposta certeira.

12 de novembro de 2017 - 22:19 - Flávio Pizzol

 

Faz aproximadamente duas semanas que uma série de denúncias envolvendo crimes sexuais em Hollywood chocaram o mundo e viraram a cultura pop de cabeça pra baixo. Convenhamos que todo mundo, estando dentro ou fora da indústria, sempre teve noção de que os abusos sexuais eram comuns nos bastidores (o famoso “teste do sofá” está aí pra provar), mas essas mesmas pessoas preferiam virar a cara para o lado, ignorar alguns poucos gritos de socorro que surgiam na multidão ou simplesmente fingir que estava dormindo ao invés de colocar a boca no trombone. Era preciso que um dos reis caísse para que o seus “súditos” quebrassem as algemas do medo, saíssem dos seus esconderijos e colocassem lenha em uma fogueira que demorou demais para ser acendida.

 

Harvey Weinstein, o homem que já foi citado mais vezes do que Deus nos discursos do Oscar, foi essa pessoa. Após muitos anos de assédios, espionagens e denúncias desmentidas pela sua influência, um dos principais produtores de Hollywood viu todo o seu poder sumir de uma hora para a outra após alguns artigos serem publicados por grandes veículos. Um deles foi escrito pelo filho de Woody Allen (colaborador constante de Harvey e denunciado por vários crimes sexuais), mas isso é assunto para outro momento. O mais importante é que esse momento foi forte o suficiente pra derrubar as cartas que mantinham o castelo em pé, dando voz a todas as vítimas de uma forma quase inacreditável.

 

 

Depois disso, uma quantidade gigantesca de denúncias surgiram contra o próprio Weinstein e mais uma porrada de nomes reconhecidos pelo grande público, incluindo, entre outros, Kevin Spacey (House of Cards), Ed Westwick (Gossip Girl), Dustin Hoffmann (Rain Man), Brett Ratner (A Hora do Rush), Matthew Weiner (Mad Men), Louis C.K. (Louie) e Charlie Sheen (Two and a Half Men). São donos de papéis importantes na indústria – observe que a maioria produz seus próprios projetos – que, assim como disse Louis C.K. em seu texto de “desculpas“, aproveitam tanto a admiração que outras pessoas podem sentir pelas personas famosas, quanto as chances de poder fazer o que quiserem sem sofrer nenhuma punição.

 

Os muitos relatos que foram divulgados pela internet à fora até agora são chocantes, comprovam que não existe – pelo menos, na minha opinião – desculpa plausível para qualquer uma das atitudes descritas e, sem dúvida nenhuma, merecem ser lidos para ampliar as oportunidades de discussão (vou deixar um deles como exemplo). Os responsáveis por injetar dinheiro na indústria – produtoras, distribuidoras e investidores – leram tudo, abriram espaço para essas discussões tão necessárias e colocaram ainda mais lenha na tal fogueira ao tomarem medidas que nunca tinham sido tomadas antes. Medidas drásticas que envolveram altas quantias de dinheiro e apresentaram uma indústrias preparada, pela primeira vez, para enfrentar seus fantasmas.

 

 

Entre as mais importantes estão: Kevin Spacey foi demitido pela Netflix e perdeu uma homenagem preparada pelo Emmy, enquanto House of Cards teve suas gravações interrompidas indefinidamente; o próprio serviço de streaming, seguido pela Orchard, decidiu cancelar o lançamento dos próximos filmes, praticamente prontos, de Spacey e Louie C.K.; a Sony decidiu jogar no lixo e refilmar todas as cenas de Spacey no já finalizado Todo o Dinheiro do Mundo, colocando o ótimo Christopher Plummer (Millenium – Os Homens que não Amavam as Mulheres) em seu lugar; Harvey Weinstein foi demitido de sua própria produtora, expulso da Academia do Oscar e banido do Sindicato de Produtores para sempre; Ben Affleck e Kevin Smith (ambos tiveram suas carreiras catapultadas por Weinstein) decidiram doar tudo que arrecadarem, futuramente, com os filmes produzidos pelo mesmo; a BBC tirou dois projetos estrelados por Ed Westwick do seu cronograma; Brett Ratner – fundador de uma das produtoras mais importantes dentro do grupo Warner – foi afastado de todos os projetos em que estava envolvido, inclusive Mulher-Maravilha à pedido da protagonista Gal Gadot; e a promotoria de Los Angeles finalmente criou uma força-tarefa especifica para investigar tais casos dentro de Hollywood.

 

São essas medidas praticamente inéditas que interessam a esse texto, porque foram elas as responsáveis por responderem os criminosos em questão da maneira como eles mereciam, quebrando as algemas de poder e status que protegiam os agressores e calavam as vítimas. Foram elas que iniciaram uma guerra que vai causar muitas perdas artísticas irreparáveis, mas também vai resultar em uma Hollywood mais saudável e correta. É muito difícil acreditar que isso signifique uma destruição total dessa corja, mas a existência de consequências acaba levando um pouco de medo para o outro lado do jogo e fazendo-os, acredito eu, pensar duas vezes antes de tomar uma decisão tão estúpida e imperdoável como essa.

 

 

E imperdoável é uma ótima palavra para usar quando falamos de atores, diretores e produtores amados por muita gente, já que não pode existir nenhum tipo de comoção favorável ou apoio para nenhum deles. Eles são criminosos que estavam infestando e destruindo a indústria com atitudes e ponto final. Pode até ser que isso não apague os méritos conquistados anteriormente (fica um questionamento que merece um texto solo), mas eles fizeram as escolhas erradas e deixaram manchas que nunca mais irão sair de seus respectivos legados. Manchas que, inevitavelmente, corroem e destroem suas carreiras para sempre.

 

A verdade é que Kevin Spacey, independente do seu talento, não vai mais arrumar trabalho em qualquer setor de Hollywood sem sofrer com muitos protestos internos e externos. Harvey Weinstein, se não acabar preso, vai ter que aprender a não ver seu nome nos créditos de mais qualquer filme ou série de televisão. Louis C.K. perdeu todos seus contratos para futuras produções e não vai reencontrá-los tão cedo. Brett Ratner, por sua vez, vai precisar provar sua inocência – como está tentando – antes de conseguir dirigir qualquer coisa sem que essa obra em questão assuma riscos incalculáveis. E eu, apesar de achar que Spacey continua brilhante em Os Suspeitos, vou demorar um bocado para assistir um filme de qualquer um deles sem sentir pelo menos um pouquinho de nojo ou ódio.

 

 

Não existe solução possível para a encruzilhada em que os nomes citados se meteram, e a quantidade de novas acusações que vem surgindo todos os dias só mantém a pressão em Hollywood, obrigando-os a fechar ainda mais o cerco e expulsar todas as maças podres da caixa. É claro que existe uma necessidade latente de investigar cuidadosamente cada um dos relatos para que a situação não se transforme em uma caça às bruxas sem escrúpulos ou controle, mas o primeiro passo rumo à mudança foi dado com sucesso já que antes as acusações não eram sequer levadas à sério.

 

Muitas obras que poderiam ser ótimas ficarão pelo caminho e as consequências de todo esse processo serão extremamente contundentes, mas não destruirão Hollywood. Muito pelo contrário, elas darão ainda mais força para que a indústria cinematográfica comece a prestar mais atenção no que acontece no escurinho dos seus bastidores. Mais do que isso, elas permitirão que Hollywood se lembre do final de 2017 com algum orgulho de suas decisões e renasça ainda mais forte das cinzas que forem deixadas para trás.