Especial: Twin Peaks – A mãe de todas as BOAS séries

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Pegue seu café fresco com um belo pedaço de torta e venha ler este texto


Antes de mais nada, devo dizer que para assistir uma série como Twin Peaks é necessário transportar a sua mente para o início dos anos 90. Mas, como fazer isso se você tiver nascido bem depois? É o caso do escritor deste texto, que nasceu em 1994 e tem apenas 23 anos – Twin Peaks não deve ser de primeiro momento uma série fácil de digerir – e não digo isso por demérito da mesma, mas sim porque ao assisti-la, você vai perceber que ela tem inúmeros elementos de outras séries e ao ler mais sobre, vai notar que a série foi lançada em 1990 e na verdade outras obras é que são “filhas” dela.

A exemplo do que já fizemos com Black Mirror e The Leftovers, vamos dar alguns motivos para que você acompanhe a trajetória da pequena cidade fictícia de Twin Peaks, que é abalada com o assassinato da jovem “perfeita” Laura Palmer, encontrada morta, enrolada em saco plástico logo nos primeiros minutos da série. David Lynch e Mark Frost, criadores da produção, não queria que a mesma sobrevivesse apenas no mistério de: “Quem Matou Laura Palmer“, e acabaram criando todo um universo que dizia muito sobre a cidade e sobre seus moradores, além daqueles que estavam apenas de passagem. Sem mais delongas, vamos adentrar ao Black Lodge:

 

1) A Narrativa

Antes de Twin Peaks, ali no final dos anos 80, as séries não eram procedurais, ou pelo menos não havia esse costume de histórias longas, que se estendiam por capítulos. O espectador estava acostumado a ter tudo mastigadinho, e via uma história que começava em um capítulo e terminava no mesmo. MacGyver é um exemplo de série assim – um protagonista carismático e badass, mas que não evoluía como personagem. Twin Peaks chegou quebrando barreiras, colocando doses de mistérios e curiosidade, gerando discussões numa época em que não havia internet. A cada episódio, se adentrava ao mundo de Twin Peaks, e mais perguntas eram feitas, do que respostas satisfatórias eram dadas.

O genial David Lynch, ao lado de Mark Frost sempre disse que não queria que ninguém criasse teorias sobre suas obras ou ficasse discutindo-as por muito tempo – segundo ele – a obra por si só já se bastava. Alguém esqueceu de avisá-lo que é praticamente impossível assistir Twin Peaks ou qualquer outro filme do diretor, escritor, músico, produtor, etc – sem passar horas, ou até dias debatendo.

 

2) Os Personagens

Twin Peaks trouxe muitas coisas que faltavam a TV da época, mas uma das que mais merece destaque é a forma como construiu seus personagens. O público antes só se atentava ao seu protagonista e vez ou outra a um coadjuvante ou uma femme fatale. Em Twin Peaks tudo mudou, pois a própria cidade era um personagem palpável, com todo seu misticismo. Além dela o agente Dale Cooper, vivido por Kyle MacLachlan é outro personagem fascinante, e o ator consegue passar seriedade e certa inocência ao mesmo tempo. Singelo, o agente impõe autoridade, ao mesmo tempo em que possui métodos de investigação baseados em sonhos e suposições. A forma como Cooper aprecia as coisas simples da vida, como uma xícara de café, ou um pedaço de torta (como dito no cabeçalho desse texto), ao mesmo tempo em que fala com seu gravador – se referendo a uma tal de Diane é algo que deixa o personagem muito mais carismático.

 

 

Além dele, você vai encontrar em Twin Peaks uma senhora que fala com um tronco, que entrega mensagens enigmáticas e inclusive diz saber quem matou Laura – um policial que chora ao ver qualquer tipo de crime – um agente do FBI surdo que revela segredos falando alto demais – um anão dançarino – Bob, a encarnação do próprio mal e Laura Palmer, que apesar de estar morta, é um personagem vivo nas falas e atitudes de todos que vivem ali.

 

3) A produção

É claro que depois de uma ótima narrativa, com belos personagens, toda a produção de Twin Peaks não poderia ficar de fora. Como já disse, a cidade é um personagem, e a abertura da série já deixa isso claro, mostrando todas as árvores, a cachoeira, e os principais pontos turísticos, que iam além da própria mídia televisiva (isso ficará para outro tópico). Além disso toda a direção de arte e figurinos da série, predominantemente com cores frias, variando um pouco entre o verde e o vermelho escuro, auxiliado por um fotografia carregada, dão o tom de toda a série.

A trilha sonora imersiva de Angelo Badalamenti (parceiro de Lynch em quase todas as suas obras), emociona. além de fazer parte da história, e funcionar perfeitamente fora dela. É fácil se identificar com a música tema,”Twin Peaks Theme”  pedida pelo próprio Lynch para ser tocada o mais devagar possível, assim como “Laura Palmer’s Theme” e “Audrey’s Dance”, que se tornam personagens do enredo.

 

 

4) Estava além do seu tempo (TV)

Além de todas as vantagens já citadas, Twin Peaks estava além do seu tempo não apenas por ser uma série com qualidade cinematográfica na TV – mas por trazer elementos e pessoas da sétima arte para a televisão – algo tão comum hoje em dia. Arquivo X, Lost, Fringe, Fargo, The Leftovers, Mr. Robot, House of Cards, The Killing, Legion, American Gods, Riverdale e outras inúmeras séries de qualidade – não estariam aqui hoje se não fosse Twin Peaks.

Quem imaginaria que David Fincher dirigiria uma série? Ou que MartinFuckingScorsese produzisse uma? Ridley Scott, Jonathan Nolan, Mimi Leder, James Wan, são apenas alguns do nomes que vieram do cinema, mas que se renderam a segunda (ou será terceira?) era de ouro da TV. Tudo mudou depois de Twin Peaks, e dois anos depois de seu cancelamento precoce, uma série abria a primeira era de ouro da televisão – Arquivo X estreava – com outros mistérios e uma narrativa incrível. A exemplo da série mãe, também ganhou um revival recentemente.

 

5) Continua viva até hoje (outras mídias)

As séries dos anos 80 e até algumas dos anos 90, se limitavam apenas a TV, não expandindo seu universo e seu marketing a outros produtos, mídias ou lugares. Com Twin Peaks tudo foi diferente – todos queriam visitar Snoqualmie North Bend, no estado de Washington, cidade em que a série foi gravada. Todos queriam experimentar o café e a famosa torta do Double R Diner. Inclusive um guia da cidade foi divulgado. A filha de David Lynch, Jenniffer (também diretora e roteirista) publicou o livro “O Diário Secreto de Laura Palmer“, e anos mais tarde outro livro foi publicado “A Twin Peaks Book: The Autobiography of F.B.I. Special Agent Dale Cooper: My Life, My Tapes”, de Scott Frost (irmão de Mark), além das próprias fitas do personagem, livros dos criadores e documentários feitos por fãs. Twin Peaks foi o uma das primeiras produções da TV a ir além.

 

 

É claro que outras obras da cultura pop não ficaram de fora, séries animadas como Scooby-Doo e Os Simpsons, homenagearam a produção – além da famosa sala de espera – conhecida na série como Black Lodge ou Red Room, seria referenciada em diversas produções.


Dito isso, Twin Peaks retorna após 25 anos (quase 26), assim como na profecia de Laura Palmer ao Agente Cooper, dizendo que o veria 25 anos depois, que é quando o revival da série se passa. Sim, Twin Peaks retornou para mais 18 episódios, todos escritos pro David Lynch e Mark Frost e dirigidos por Lynch. A Showtime bancou e deu total liberdade aos gênios por trás desta história, que terminou com um puta cliffhanger a mais de 20 anos atrás, e só agora dará continuidade. A série é distribuída por aqui pela Netflix, e após cada episódio no domingo nos EUA, na segunda já está no serviço de streaming.

É uma pena que a série original não esteja mais no catálogo da locadora vermelha, mas DVDs da série e uma edição especial em Bluray lançada em 2014, estão disponíveis. Twin Peaks possui 30 episódios no total. Oito episódios compõem a incrível  1ª temporada e 22 completam o irregular – mas com momentos brilhantes – segundo ano. Além da série, um filme prequel foi lançado em 1992, intitulado Twin Peaks: Fire Walk With Me (no Brasil, Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer). O filme conta a história da jovem ainda viva, e ajuda a ampliar mais o conceito de mitologia desse universo tão rico. O filme – que segundo Lynch – é crucial para o entendimento da nova temporada, ainda possui 90 minutos de cenas excluídas, com o título de Missing Pieces.

 

 

Ufa! Eu sei, é muita coisa. Mas Twin Peaks te deixa tão fascinado, que buscar mais referências e compreensão da obra deixa de ser uma obrigação e se torna um prazer. Aliás se você tiver afim de entender auto-referências das obras do próprio Lynch, recomendo a sua filmografia, principalmente filmes como Veludo Azul (Blue Velvet, 1987), Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive, 2001) e Império dos Sonhos (Inland Empire,2006).

Twin Peaks é uma obra que se define surrealista, esotérica, e até nonsense, colocando nesse meio alguns mistérios envolvendo forças malignas e benignas, teorias da conspiração, teorias do Duplo, psicanálise, filosofia, abdução e meditação transcendental. Embarque nessa viagem repleta de simbologias.

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