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Especial

Especial: The Leftovers – A melhor série que ninguém vê

A filha legítima de Lost

29 de Maio de 2017 - 18:19 - Tiago Soares


Antes de tudo devo ressaltar que a ideia desse texto surgiu depois do apoteótico penúltimo episódio da série, exibido ontem 28/05/2017. Sim, The Leftovers está acabando – pra ser mais exato, acaba domingo que vem, no dia 04/06/2017 – e provavelmente, por uma grande injustiça do destino, você nunca ouviu falar dela. Mas não estou aqui pra falar apenas do fim, mas daquilo que é muito mais importante: a jornada. Cada episódio dessa maravilhosa trama, merecia um texto aqui – além de mais audiência e espaço nas premiações. Talvez por ser “a filha legítima de Lost” – The Leftovers não tenha ganhado tanta atenção – talvez por ter como criador, um injustiçado Damon Lindelof, responsável pelo roteiro de duas obras bastante criticadas, o fim de Lost e o filme Prometheus.

A questão é que estamos diante de um produto bem realizado, maduro e totalmente desprendido de vícios de um Lindelof de outrora. Apesar do mistério que permeia Leftovers, Lindelof parece que aprendeu com seus erros e resolveu focar em quem realmente interessa, não deixando o mistério ser a parte principal da narrativa. Focando bastante no estudo de personagem, auxiliado por atuações acima da média – HBO, Lindelof e Tom Perrota esmiuçam o ser humano e todos os seus dilemas em uma série envolvente, – que infelizmente vai acabar – sem que muita gente conheça. Se não se interessou até agora – e a exemplo do que já fizemos com Black Mirror – vou dar alguns motivos para que você assista The Leftovers e seus apenas 28 episódios:

1 – A Partida Repentina (14 de Outubro)

Em um 14 de outubro, um dia aparentemente comum, 2% da população mundial some inexplicavelmente. Alguns diante dos nossos olhos, outros de mãos dadas conosco, alguns estavam chorando, outros fazendo sexo, alguns tomavam o café da manhã, outros estavam dentro de alguns. O que acontece é chamado de Partida Repentina,e  levanta inúmeras questões. Seria o tal Arrebatamento Cristão, tão citado na Bíblia Sagrada? Um experiência científica que deu errado? A questão é que Damon Lindelof viu uma incrível oportunidade nessa história, e apaixonado pelo mistério, uniu-se a HBO e a Tom Perrota (autor do livro homônimo), para realizar uma das maiores séries dos últimos anos.

2 – Deixe o mistério rolar

A abertura da 2ª temporada logo acima, já é um grande alerta, sobre o que você vai encontrar ao assistir Leftovers. A mudança drástica de abertura em relação a 1ª temporada deixou muitos insatisfeitos, por conter um música digamos, mais animadinha, além das imagens apresentadas. Eu fui um dos que reclamei, até entender o que Damon Lindelof e Tom Perrota queriam transmitir. O mistério não importa. O nome do livro e da série não é The Leftovers por acaso. Vamos acompanhar a história dos “deixados para trás”, os renegados, aqueles que ficaram. Ao mesmo tempo em que se livra da responsabilidade de manter o mistério e se tornar Lost demais, Leftovers deixa claro logo no início, que não se trata de saber o que aconteceu com quem partiu, se trata de ver o que acontece com quem ficou e como a Partida Repentina mudou a vida daquelas pessoas. Os personagens são o foco, e eles são desenvolvidos, seja em um diálogo, em uma atitude ou na simples falta dela.

A primeira temporada da série apresenta Kevin Garvey, um chefe de polícia da cidade de Mapleton, disposto a encontrar uma certa normalidade e volta aos eixos, 3 anos depois da Partida Repentina. Matt, um reverendo que tenta encontrar uma resposta para o que ocorreu e sua irmã Nora, que perdeu toda a família no dia 14 de outubro. Nesses 3 anos, pessoas se suicidaram, tentaram enganar o governo, fugiram, tentaram “partir”. Lindelof e Tom são geniais ao abordar as consequências que a Partida deixou 3 anos a frente do acontecimento, nos dando apenas um vislumbre do caos que se instaurou no começo. O surgimento de uma espécie de seita, que tem como objetivo, fazer com que as pessoas não esqueçam da partida e que não sigam suas vidas é só a ponta do iceberg nesse novo mundo.

Adaptando o livro de Tom Perrota na primeira temporada, Lindelof tem total liberdade de realizar o que bem entende na segunda em diante, nos apresentando novos personagens, uma nova cidade – Jardem, no Texas – e mais uma dose cavalar de mistérios, que como disse, é o mínimo que deve ser analisado numa série de inúmeras camadas e dilemas morais. As mudanças dão um novo gás a série, e expande aquilo que a primeira temporada construiu, fazendo dela a melhor temporada de The Leftovers, trazendo um dos melhore episódios da TV nos últimos anos, o 2×09 – International Assassin.

3 – Damon Lindelof, Tom Perrota e Max Richter

Os dois primeiros, já foram bastante citados. Responsáveis pelo incrível texto, Damon Lindelof e Tom Perrota se unem a diretores competentes como Mimi Leder (que dirigiu 10 episódios), Carl Franklin (4 episódios) e Michelle MacLaren (1 episódio da primeira temporada), para contar uma história textual e visualmente atraente. Utilizando uma fotografia e tons bem opacos nas cenas de Nora na primeira temporada, ao figurino dos Remanescentes Culpados, ressaltando a maquiagem e direção na incrível cena de apedrejamento no episódio 5 da primeira temporada, até a direção de arte do já citado International Assassin – Leftovers beira a perfeição pelos detalhes.

Na terceira temporada, a Austrália foi a escolhida para ser o palco do fim, e os diretores não nos poupam de belos planos e imagens. Tudo isso não seria possível sem a trilha intimista de Max Richter, outro nome muito importante na construção do cenário imersivo. Seja na abertura da primeira temporada, passando por A Blessing, ou nos fazendo chorar em The Departure – Max é soberbo, grandioso e até invasivo, extraindo o máximo de sentimentos de uma cena, apenas com o poder da música. Proponho um teste: reveja as cenas, até as mais banais, sem a trilha sonora do senhor Richter e veja o quanto ela nos leva além.

4 – O elenco é espetacular

Esses citados e muitos outros. O elenco de The Leftovers com o perdão do palavrão, é foda! Uma pena que o reconhecimento do mesmo em premiações ainda não veio, mas quem sabe esse ano. Justin Theroux nos apresenta um Kevin Garvey tridimensional, e é muito difícil não sentir empatia por ele. Ele é o cético, está em constante batalha com a fé, todos dizem que ele é o escolhido, ele não acredita, mas busca coisas que nem ele mesmo sabe se quer. Carrie Coon traz uma Nora que tenta ser forte, elegante, segura de si, mas que tem como ponto fraco ou forte, dependendo do ponto de vista, a saudade que tem dos filhos, Ela está em uma constante luta, sempre querendo desmascarar uma mentira, algo refletido no trabalho que escolheu depois da partida. Christopher Eccleston é o reverendo Matt, o homem de fé, mas também de atitude. Tenta entender o que aconteceu, ao mesmo tempo em que busca a própria afirmação por não ter partido, Sua vida muda completamente depois do 14 de outubro e tem ao lado de Carrie Coon os episódios mais marcantes da série.

Amy Brenneman é uma coadjuvante de luxo, que ganhou um espaço merecido nesta 3ª temporada, o mesmo pode se dizer de Liv Tyler, sendo uma espécie de vilã que causa repulsa, ao mesmo tempo em que aproxima. O que dizer da incrível Ann Dowd como Patti, uma personagem que não tem tanta importância no início, mas que  vai crescendo junto com a série, se desenvolvendo, se tornando um monstro que engole todos quando está em cena – falar mais dela, seria spoiler. Scott Glenn como Kevin Garvey Sr. é a cereja do bolo com participações pontuais, e com mais tempo de tela na atual temporada. Um elenco grandioso para uma série grandiosa.

5 – São só 28 episódios (disponíveis na HBO Go)

E se os motivos apresentados não foram suficientes, termino esse texto com o mais banal deles: são apenas 28 episódios. Sim, contando com o final no domingo, The Leftovers conclui sua jornada com 28 episódios, com duração de em média 50 minutos à 1 hora cada – dá pra fazer aquela maratona rápida na semana, e ver o fim, junto com todos os fãs no domingo.


Obs: Se você, assim como eu, não entender ou ficar meio perdido nos episódios, vou indicar dois sites que fazem reviews semanais da série e tem críticas de praticamente todos os episódios. O primeiro é o Seriemaníacos e o outro é o Ligado em Série.