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Especial: Mãe! e suas metáforas

Não entendeu o filme? Senta que lá vem história!

26 de setembro de 2017 - 17:53 - Flávio Pizzol
Aviso: Esse texto obviamente tem spoilers que destroem a melhor coisa do filme. Logo, assista antes de ler!

 

Por mais que isso também possa fazer muitas pessoas odiarem o filme, a maior qualidade de Mãe! está na chuva de interpretações possibilitadas pela narrativa. Você assiste o filme e fica satisfeito por entender alguma coisa até que as peças começam a encaixar, abrindo todo um novo mundo de perturbações e possibilidades. Hoje, quase uma semana depois de ver o filme, algumas interpretações ainda estão mexendo com minha cabeça, sem anular qualquer outra interpretação anterior.

 

A sequência final da invasão da casa, por exemplo, pode representar – dentro do espectro bíblico – a destruição do mundo, o apocalipse, mas isso não impede que a mesma funcione como uma metáfora pra criação artística, pra imigração ou mesmo uma representação caótica e figurada da dor do parto (como eu pensei durante a sessão). E como eu já disse, o fato de tantas interpretações coexistirem deixa o filme ainda melhor. Mais do que isso, é uma bela lição para uma sociedade que não consegue conviver com tantas possibilidades diferentes, querendo sempre guardar tudo em suas caixinhas genéricas.

 

 

Religião

 

A alegoria bíblica construída por Aronofsky é a peça mais importante desse tabuleiro que chamamos de Mãe!, porque ela realmente faz parte da trama e precisa ser minimante compreendida para iluminar o restante das possibilidades. As pistas sobre essa importância pode detectados tanto na repetição de elementos bíblicos, quanto no fato do personagem de Javier Bardem ser o único creditado com a primeira letra maiúscula. Pra quem ainda não entendeu, ele é o todo-poderoso, criador da porra toda (falar dessa forma conta como blasfêmia?), e é comum que seu nome – Deus ou Ele, como acontece no filme – seja iniciado dessa forma. Além disso, não é à toa que uma de suas respostas acerca de sua existência seja “Eu sou o que sou”, uma repetição da resposta que Deus oferece a Moisés quando este pergunta quem é Ele.

 

No entanto, a história do longa é contada pelo ponto de vista de outra pessoa: a mãe ou, nesse caso, a personificação da mãe-natureza em si. Ao contrário do que acontece nos textos sagrados, ela é colocada em uma posição de relativa igualdade com o criador, mas essa seria uma outra discussão muito mais longa e complexa. O importante aqui é que compreenda-se que ela é a natureza, o planeta Terra. Por isso, o poeta fala que a personagem de Jennifer Lawrence é a casa, enquanto a própria explica que deseja transformar sua casa em um paraíso.

 

Isso nos leva ao próximo passo dessa alegoria: a casa é o Jardim do Éden e a primeira metade é basicamente um resumão do Antigo Testamento. Pra começo de conversa, Ed Harris é Adão, o primeiro convidado a ingressar no Paraíso em si. Graças a solidão do mesmo (representada em alguns diálogos do longa), Deus decide criar a mulher a partir de sua costela. O personagem surge então com uma ferida na costela e, no outro dia, uma mulher bate à porta da casa. Ela – como é creditada a personagem de Michelle Pfeiffer – é Eva. Observe como a própria é responsável por quebrar o cristal que dá vida ao planeta (representando o fruto proibido) e, por esse pecado original, os dois são expulsos do Paraíso.

 

 

No entanto, antes de vazarem da terra sagrada, eles fazem um amorzinho escondido para que entrem em cena Caim e Abel, seus filhos. Mesmo sem entender a primeira parte, a morte do irmão mais querido já tinha deixado claro que esse trecho havia sido a inspiração do diretor. A partir daí, o filme acelera e passa rapidamente por representações das pragas do Egito e o Dilúvio. Esse último pode ser avistado no momento em que a desobediência do ser humano faz com que a pia quebre e inunde toda a casa, resultando na primeira expulsão de todas as pessoas da casa por fúria da mãe-natureza.

 

Depois, entramos na segunda parte do filme e as coisas ficam mais complicadas, porque a interpretação do Novo Testamento feita por Aronofsky é um pouquinho mais abstrata. Ele caminha por algumas passagens passíveis de reconhecimento e explora males que importunaram a humanidade desde então, destruindo o planeta em meio a guerras e conflitos sem justificativas, porém são dois os elementos que mais chamam a atenção: a transformação da mãe-natureza em Maria e o sacrifício de Jesus Cristo.

 

O primeiro desses surge a partir de uma transição metafórica que inclui: uma cena de sexo que não revela a existência do ato (ela não é “mal filmada”, como vi alguns críticos falando, sem propósito); uma descoberta que surge do nada, quase como o aviso de um anjo; e um parto isolado numa espécie de manjedoura representada pelo quarto, enquanto todos querem ver o salvador. Já o segundo é bem mais literal e incômodo visualmente, porque o sacrifício de Jesus para salvar a humanidade é reinterpretado com a transformação da criança em alimento – o Corpo de Cristo. Se isso pode ser difícil de assistir para um pessoa normal, imagine para um católico mais conservador. Pronto, a briga está preparada.

 

Por fim, depois dessa crucificação deturpada chegamos ao fim de tudo, o apocalipse. A casa pega fogo e fica completamente destruída para que o processo de recriação seja reiniciado, possibilitando a Deus criar um ambiente diferente (outra jovem se torna representação da natureza em uma sacada cíclica perfeita) e novas pessoas para habitarem aquele Paraíso.

 

 

Meio Ambiente

 

Considerando ainda que a casa é uma representação reduzida da Terra, Mãe! também poder ser visto como um filme ambientalista.  Nesse caso, os convidados seriam os seres humanos – nós mesmos – com essa insistência absurda de não aprender com os erros, desobedecer as leis da natureza e deixar feridas que não cicatrizam (seria o buraco na madeira uma representação do aquecimento global ou qualquer outro mal desse tipo?) até que tudo vire pó. Essa metáfora gera uma interpretação muito mais contida que toda a construção bíblica, mas pode ser tão chocante quanto, se você parar pra pensar nas suas atitudes.

 

A observação nesse caso é que, apesar do tom do longa ser predominantemente melancólico/pessimista, ele também pode funcionar, segundo o próprio diretor, como uma mensagem de aviso de alguém que tem esperança na sobrevivência do planeta. Lembrando que, teoricamente, nós ainda não chegamos no próximo ataque de ódio da mãe-natureza. Somos o câncer que está destruindo tudo (não só em relação ao meio ambiente), mas ainda temos salvação.

 

 

Processo Criativo

 

Partindo, mais uma vez, do que é estabelecido na alegoria bíblica, podemos separar a figura de Deus como criador e analisar todo o longa por um viés de processo criativo. Ele é um poeta que passa por um período de aparente bloqueio criativo, a personagem-título é diversas vezes caracterizada como sua musa e casa, como o crítico Pablo Villaça ressaltou em sua crítica, pode ser o signo desse processo criativo, sendo a destruição da casa – e consequente substituição de sua musa – um reflexo da conclusão de um ciclo criativo, e sua reconstrução, o início de mais uma obra.

 

Nesse espectro de interpretação, os convidados seriam as novas ideias que começam a surgir no momento em que o poeta não está conseguindo escrever, enquanto as brigas familiares de Ed Harris seriam as sementes que originariam essa nova obra. Como nada é aleatório em Mãe!, o bebê se mexe no exato instante em que seu pai/criador termina o poema (que só poderia ter sido enviado para a editora através de poderes divinos) e nasce na própria sala em os poemas são criados. Ambos são obras da mesma pessoa, logo são desenvolvidos através de um paralelo onde a morte da criança se torna um reflexo do consumo que “devora” os novos lançamentos com grande velocidade e fanatismo.

 

Essa construção é, pode confiar, uma reflexão praticamente espelhada da maioria dos processos criativos, independente dos métodos que podem mudar de pessoa pra pessoa: o autor tem uma ideia, sofre para desenvolvê-la, implementa novas ideias para fazê-la crescer e ganhar vida, conclui a mesma com vigor e um pouquinho de insegurança (espera-se que os consumidores gostem) e vê, ao final, tudo ser substituído por uma inquietação latente que o obriga a buscar algo novo.

 

 

Fanatismo Religioso + Culto à Celebridade

 

Essas duas metáforas são sutilmente diferentes, porém foram reunidas porque ambas são relacionadas com a multidão que invadem a casa na segunda metade da produção (aqueles envolvidos no velório são apenas os decentes de Adão e Eva que fizeram merda antes do dilúvio). A única diferenciação está na escolha entre as duas possibilidades que envolvem o personagem de Javier Bardem: Deus – em pessoa e divindade – ou um mero poeta.

 

Caso a sua opção preferida seja a primeira, estamos lidando com um bando de pessoas agindo como fanáticos religiosos que tomam a palavra de Deus como verdade absoluta, chegam ao ponto de brigar para defender a mesma e precisam do corpo – literal – de Cristo para se sentirem abençoados. Elas seriam, ironicamente, a representação dos conservadores que tem tudo para odiarem a alegoria proposta por Aronofsky.

 

Na outra opção, essas pessoas seriam utilizadas pelo diretor como alvo para criticar aquela galera que dorme semanas na fila para assistir um show (uma das salas da casa surge repleta de redes em um dos momentos do terceiro ato), faz qualquer coisa por uma foto ou autógrafo, se torna um protótipo de stalker e por aí vai. Nem todos os tipos utilizados em cena são venenosos e problemáticos, mas muitos tipos de fãs hardcore estão retratados em Mãe!.

 

 

Machismo + Casamento

 

Essas últimas categorias metafóricas poderiam coexistir de forma separada, mas possuem uma ligação intrínseca na construção do nosso argumento e por isso estão juntos. De forma geral, o criador interpretado por Bardem, sendo homem, se enxerga e age como superior à mãe-natureza. Ele toma diversas decisões sem perguntar a opinião de sua companheira e, no final do seu processo criativo, substitui ela sem dó, nem piedade.

 

Dentro do casado, ela acaba assumindo uma função de esposa submissa que faz o impossível para transformar a casa em um paraíso, precisa fazer certos esforços para convencer ele a ter um filho e ama incondicionalmente alguém que não retribui. Isso sem contar que, com a passagem de tempo mostrada pela fotografia ao momento do parto, é possível pensar que eles foram afastados por um nascimento prejudicado pelo pai. Resumindo, o roteiro constrói um casamento problemático por só, mas que acaba piorando por conta da presença do machismo na relação.


 

Assim como na maioria dos seus filmes, Aronofsky usa o cinema para falar sobre a degradação de algo – seja isso humano ou não – e Mãe, mais do que uma mera alegoria bíblica, é um filme repleto de interpretações importantes para nossa sociedade atual. Eu acredito que, infelizmente, a mensagem está escondida demais para chegar em quem realmente precisava pensar sobre os tópicos mais importantes (tipo um Trump da vida ou um daqueles fanáticos religiosos que, além de não aceitar ser contrariado, vota em leis que tornam a homossexualidade uma doença), mas isso não chega nem perto de esvaziar um filme tão poderoso como essa obra-prima. Se você não entendeu, reveja e pense. Se você entendeu e não gostou de se tornar réu por todos os males, também reveja e pense. O mundo, a natureza e a sociedade estão doentes e a cura está em nossas mãos!