AODISSEIA
Filmes

Crítica: Zoolander 2

3 de março de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

Completamente parado no tempo


Zoolander-2-Cast-Movie-PosterQuando foi lançado em 2001, Zoolander não foi um filme que surpreendeu, convenceu ou arrastou multidões para as salas, mas o tempo fez com que o filme se tornasse um cult adorado por muitas pessoas e odiado por outras. A questão é que esse mesmo tempo não parece ter tido efeito nenhum em uma continuação que que parou no tempo e não chegou nem perto de conseguir renovar a franquia.

O filme, que repete a fórmula atual de misturar remake e continuação, se passa exatos 15 anos depois do aparente final feliz do primeiro filme. Digo isso porque tudo aquilo foi seguido de uma sequência de tragédias e burrices que Derek Zoolander a viver como uma espécie de ermitão. No entanto, agora ele precisa lidar com todos esses traumas do passado e voltar ao mundo da moda para recuperar a relação com o seu filho.

Escrito por Justin Theroux, John Hamburg, Nicholas Stoller e o próprio Ben Stiller, o roteiro dessa continuação é pavorosamente ruim do início ao fim. A apresentação da história é fraca, os personagens ultrapassam o limite do ridículo de forma quase inaceitável, a verdadeira trama demora a engatar e, quando finalmente encontra seu tom, estraga tudo com três reviravoltas que se dividem entre os adjetivos de desnecessárias, péssimas e simplesmente óbvias.

Se isso já não fosse o bastante, as piadas também são extremamente ruins e sem timming nenhum. Eu não sou o maior fã do filme original, mas foi realmente triste ver momentos divertidos, como o duelo na passarela e a tentativa de assassinato ao som de “Relax”, e algumas piadas que realmente conseguiam tirar sarro do mundo da moda serem substituídas por uma quantidade extremamente grande de piadas sem graça e ofensivas que não combinam nada com o momento socio-político que vivemos hoje.

Eu não me incomodo com as piadas bobas ou sujas que costumam aparecer nos filmes desse tipo, mas tenho que admitir que me senti mal com uma sequência repetida de brincadeiras sobre a mudança no visual dos modelos, muitas piadas que tentam fazer graça com gordos, homossexuais e todas as minorias possíveis e outros momentos que são um grande exemplo da mais pura vergonha alheia por não arrancarem um sorriso sequer de boa parte da platéia.

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E a pior parte é que o resto do filme nem é tão ruim assim, no entanto fica muito difícil salvar qualquer coisa com um texto tão fraco como esse. Ben Stiller não é um mau diretor e já apresentou bons trabalhos em A Vida Secreta de Walter Mitty e Trovão Tropical, mas aqui ele não consegue criar um ritmo interessante para o filme, não acerta nas piadas que dependem de algum apelo visual e parece ter simplesmente decidido dirigir da forma mais simples e óbvia possível.

Da mesma forma, o elenco recheado de bons comediantes (que incluem o retorno do mesmo Ben Stiller ao papel do protagonista) acaba sendo completamente desperdiçado. Stiller, Owen Wilson, Penélope Cruz, Will Ferrel, Kristen Wiig e Benedict Cumberbatch estão completamente caricatos e óbvios, mas não conseguem fazer com que esse fato funcione como uma crítica ao universo da moda, como o longa original fazia.

In this image released by Paramount Pictures, Ben Stiller portrays Derek Zoolander, left, and Owen Wilson portrays Hansel in a scene from, "Zoolander 2." (Wilson Webb/Paramount Pictures via AP)

Nem mesmo a enorme quantidade de participações especiais do mundo da música, da moda, do cinema e até do automobilismo conseguem surpreender o público e salvar uma pequena parte do filme. E olha que temos Justin Bieber, Billy Zane, Kiefer Sutherland (simplesmente ridículo, escroto e inútil), Susan Boyle, Olivia Munn, Lewis Hamilton, Skrillex, Christina Hendricks, Ariana Grande, Katy Perry, Neil deGrasse Tyson, Sting, John Malkovich, Tommy Hilfiger, Valentino e tantos outros que podem até passar despercebidos.

O resultado como vocês já devem perceber é um filme ruim e sem graça que não consegue fazer bom uso da nostalgia para revitalizar a franquia (como fizeram Mad Max e Jurassic World) e que não parece entender o funcionamento da nossa sociedade atual, ultrapassando o limite do ofensivo ao ponto de me incomodar como pessoa e soando como o velho e estúpido de sua própria piada. No final das contas, Zoolander 2 não consegue fazer boas críticas, arrancar risadas da platéia ou fazer o preço do ingresso valer a pena, mas consegue garantir seu lugar na lista dos piores de 2016 com muita antecedência.


OBS 1: Só consegui dar pequenas risadas de algumas referências legais ao filme original e de uma piada com o Justin Bieber que é realmente muito boa.


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