AODISSEIA
Filmes

Crítica – Viva: A Vida é Uma Festa

Lembrem de mim

4 de Janeiro de 2018 - 09:03 - felipehoffmann

Existem algumas formas do homem lidar com a morte. No Brasil despedimos dos nossos entes queridos em meio às lágrimas e a um triste clima de velório, termo até caído na boca popular por ser algo ruim numa situação complicada. Na mitologia grega, o famoso livro de Homero, Odisseia, fala da morte como Hades, um local onde os guerreiros seguem após suas batalhas, tal qual o Valhalla dos nórdicos. Já na cultura mexicana, a morte é apenas o espelho da vida. A partida é um momento para celebrar, para encarar uma nova fase e ser lembrado pela família que fica na Terra.

Viva: A Vida é Uma Festa mostra uma forma simples e singela de encarar a morte. Um conto animado, regrado à boa música, lindo e melancólico. E uma das melhores animações feitas pela Pixar até hoje.

 

No filme, conhecemos Miguel, um garoto mexicano oriundo de uma tradicional família de sapateiros. Por lá, um acorde que seja é abafado pela história de amargor de um passado doloroso. O patriarca da família (tataravô de Miguel) os abandona para seguir o sonho de viver com a música, deixando tristeza e ira por qualquer nota emitida, mesmo em um simples assobio.

Miguel nasce com o sangue musical. O garoto tem ritmo e batuca até com duas pétalas de flor. Contudo, sua família o reprime, indo contra a vontade do garoto. Em busca de provar seu talento, Miguel briga com sua família em pleno Dia de Los Muertos e acaba por parar na Terra dos Mortos. Lá ele conhece um rapaz chamado Hector que o ajuda a encontrar seus antepassados e voltar para o mundo dos vivos.

Dirigido pro Lee Unkrich (Toy Story 3) o enredo segue a mesma fórmula de filmes anteriores da Pixar/Disney como Moana e Ratatouille. O impedimento de seguir o sonho é o estopim para iniciar a jornada do herói.

A gente já tá cascudo com isso e mesmo assim a Pixar consegue nos emocionar. Não tem jeito.

 

Tratar da morte é sempre algo complexo, delicado e não menos comovente. Viva: A Vida é Uma Festa faz isso como poucos. Seus personagens são tão bem construídos, com motivações tão claras e evidentes que a empatia é imediata.

Por mais que Hector seja um trapaceiro, ele tem o sonho de voltar para visitar alguém que lembre dele, caso contrário desaparecerá como todos os outros que são esquecidos no mundo dos vivos. Miguel, por outro lado, persegue tanto seu sonho que, quando cogita desistir, nos comove pela sinceridade do momento.

É impressionante assistir Viva: A Vida é Uma Festa. A riqueza de detalhes, a trilha sonora, a dublagem, a trama e os personagens dão uma receita fabulosa em meio a um universo tão incrível. É natural que as lágrimas escorram pelo rosto, por mais que os mortos desejassem um sorriso da lembrança.

Viva: A Vida é Uma Festa possui grande semelhança com Festa no Céu (2014), uma animação produzia por Guillermo del Toro que também mostrava um menino músico em conflito com a família e que, por ventura, vai parar no mundo dos mortos para conhecer seus antepassados. As histórias convergem e claro, há motivos para dúvidas relacionadas à originalidade do roteiro. Inicialmente, Viva: A Vida é Uma Festa seria sobre um menino filho de pai americano e mãe mexicana que vai para o México conhecer seus antepassados musicais. O roteiro foi mudando e provavelmente o poço de inspiração bateu na água de del Toro.

Acontece que em Viva: A Vida é uma Festa a transformação do personagem principal é tão grande que simplesmente essas semelhanças desaparecem. O tom emocional que o filme leva consigo é tão forte que envolve crianças e adultos. Assim como Divertidamente o longa serve para os mais jovens assistirem despretensiosos e entenderem um pouco mais a morte. Mas também encaixa como uma luva nos mais velhos, que já passaram pela dor da perda e pela alegria das lembranças que ficam.

Perder alguém nunca é fácil. São momentos que deixam de existir e ficam na lembrança de quem viveu. Viva: A Vida é Uma Festa te mostra a todo momento como é importante lembrar de alguém que se foi, respeitar sua partida e celebrar a própria vida. Quando uma pessoa se vai, fica apenas a memória e a alegria da época que não volta mais. E o filme é isso, uma lembrança linda sobre a vida, de quem está aqui e de quem já se foi.