AODISSEIA
Filmes

Crítica: A Vigilante do Amanhã – Ghost in the Shell

11 de Abril de 2017 - 12:31 - Flávio Pizzol

Pouca ficção científica pra muita Hollywood


Todos já sabemos que Hollywood vive uma crise criativa, desenvolve cada vez mais remakes e encontrou uma certa fórmula de sucesso na criação de franquias baseadas em filmes estrangeiros. Atualmente, seus alvos favoritos tem sido as comédias europeias premiadas (versões de Intocáveis e Toni Erdmann já estão em produção) e todas aquelas pirações orientais que vão desde o terror sobrenatural até as adaptações de anime. A Vigilante do Amanhã – Ghost in the Shell entra para esse grupo, mas não parecer se importar com a profundidade do material que tem em mãos.

O filme nos apresenta um mundo onde ajustes tecnológicos são plenamente aceitos e, de certa forma, permitiram que o ser humano criasse um corpo completamente robótico para “salvar” o cérebro de uma jovem. O resultado é Major: um soldado perfeito que atua incansavelmente em uma Tóquio futurista até começar a questionar sua existência e o seu passado. É basicamente a premissa do mangá original e do anime produzido na década de 90, porém foca seu ponto de vista na protagonista com objetivo de construir uma franquia dentro desse universo.

Considerando o mercado atual e uma parte do que foi apresentado nesse “primeiro ato”, poderia ser relativamente fácil defender essa ideia. Eu tenho plena certeza que gostaria de conhecer um pouquinho dessa cidade cheia de arranha-céus e hologramas publicitários em qualquer fachada. Salvo algumas raras exceções, o conceito visual criado pela Weta Workshop funciona como uma evolução de Blade Runner e propõe ótimas soluções para a ausência de sangue e nudez nos ataques coordenados pela Major.

Os efeitos visuais – recheados pela profundidade do 3D – também impressionam na maior parte das vezes. Rupert Sanders (Branca de Neve e o Caçador) não é um diretor de primeira classe, mas consegue seguir os planos traçados pelo estúdio e construir cenas de ação decente. Só pra dizer alguns dos aspectos positivos, a câmera lenta é bem utilizada (com excesso, mas ok), os truques de CGI usados para reproduzir a invisibilidade ressaltam os olhos e as referências ao Ghost in the Shell clássico devem esquentar o coração dos fãs mais hardcore. Durante boa parte da narrativa, a câmera recorre aos mesmos planos do anime para abraçar essa fidelidade visual.

 

Um pena que essa fidelidade não é acompanhada por um roteiro que pode ser considerado o grande vilão da produção. O texto escrito por Jamie Moss (Os Reis da Rua), William Wheeler (Rainha de Katwe) e Ehren Kruger (Transformers: A Era da Extinção) é bem amarrado dentro das técnicas de causa e consequência, porém se apoia constantemente nas coincidências, nas motivações genéricas – tanto de vilões quanto de heróis – e na falta de intimidade com a ficção científica mais pura. A jornada de auto descoberta da Major é acompanhada por discussões sobre identidade, inteligência artificial, limites éticos da ciência que são apenas citados pontualmente. Claro que um primeiro filme de franquia não deveria esvaziar todos os questionamentos do material original, mas também não precisava deixar sua proposta tão superficial assim.

E isso é apenas o reflexo de um roteiro que perde a chance de justificar o whitewashing quando escolhe manter a ambientação em Tóquio. O filme até faz algum esforço para incluir o tema na sua reviravolta final, mas constrói tudo com tão pouca sensibilidade que o processo parece ter sido feito às pressas para tapar o sol com a peneira. A união entre uma contextualização adequada, diálogos eficientes e personagens mais profundos poderiam tanto evitar o fracasso financeiro sob a sombra do embranquecimento, quanto facilitar o trabalho de um elenco que, no mínimo, se dedica. Não é um eufemismo dizer que Scarlett Johansson (Ela),  Pilou Asbæk (Game of Thrones) e Michael Pitt (Hannibal) tentam sem sucesso salvar a narrativa da fragilidade e da pobreza.

No final das contas, Ghost in the Shell (o nome composto é desnecessário, pra variar) funciona como um bom filme de ação hollywoodiano, mas passa longe de ser uma grande ficção científica. Falta um pouquinho de cuidado com o roteiro, porém, mais do que isso, esse longa também precisará conviver com uma realidade amarga: Matrix e tantos outros longas já usaram o material criado por Shirow Masamune como referência, traçaram discussões poderosas sobre os mesmos temas e marcaram o gênero justamente por isso. Infelizmente, A Vigilante do Amanhã não merece (nem quer) alcançar esse status.