AODISSEIA
Filmes

Crítica: Velozes e Furiosos 8

18 de Abril de 2017 - 14:00 - Flávio Pizzol

A celebração do exagero no cinema


A indústria cinematográfica depende, assim como qualquer outra, de investimentos acertados e lucros garantidos para continuar funcionando. Franquias, derivados, remakes e universos compartilhados ocupam a maior parte dos grandes lançamentos justamente por agradarem fãs e executivos que só querem mais do mesmo: diversão e retorno financeiro. A única regra seguida com rigor diz que o público espera continuações maiores do que seus antecessores. E, nesse caso, Velozes e Furiosos – tanto o novo filme, quanto a franquia como um todo – são exemplos a serem seguidos.

É incrível perceber como a série se reinventou para durar mais tempo, abraçou o cinema escapista nesse processo e encontrou uma fórmula quase perfeita para ficar cada vez maior, mais insano. O segredo é brincar com as relações já estabelecidas entre os personagens sem sair da mesma estrutura que todos estão acostumados, deixando a loucura de verdade restritas às cenas de ação. E, por mais que isso seja uma corrida contra a criatividade, eu preciso admitir que existe uma certa genialidade (bem pequena) nessas infinitas mudanças de lado entre os personagens, porque permite que o filme trabalhe novos ângulos sem ficar tão confuso ou perdido em milhares de subtramas como os últimos Transformers. O único porém é que essa estratégia só funciona com um público preparado para ignorar tanto problemas de roteiro, quanto leis da física.

Em relação ao primeiro, não tenho como negar que Velozes e Furiosos 8 é praticamente idêntico a todos os outros exemplares desde Operação Rio. O roteiro de Chris Morgan (Velozes e Furiosos 7) estabelece pelo menos uma função vital para cada um dos protagonistas e posiciona as viradas de trama no lugar certo para manter o ritmo, mas também perde tempo com didatismos desnecessários, se apoia em diálogos muito ruins e repete os mesmos clichês de sempre. A única novidade fica por conta do arco dramático de Toretto e sua injeção mínima de drama na narrativa. É um roteiro realmente muito ruim, caso seja levado a sério demais.

A grande sacada dos produtores está na percepção de que o público de massa – aquele que já transformou o longa na maior abertura de final de semana de todos os tempos – não está nem um pouco interessado nesses aspectos. Quem tiver qualquer dúvida pode acabar entrando em uma sessão onde cada frase de efeito ou reviravolta “surpreendente” era acompanhada por palmas ou gritos. Foi com essa gritaria na cabeça que eu disse e vou repetir: o melhor que todos podem fazer é ligar as chaves da descrença e abraçar a galhofa junto com o filme. Começando pelo elenco cada vez mais inchado e próximo de um “Mercenários” dos anos 2000.

Entre adições, retornos e participações especiais, o casting desse filme pode ser resumido por Vin Diesel (Guardiões da Galáxia), Jason Statham (A Espiã Que Sabia de Menos), Dwayne “The Rock” Johnson (Sem Dor, Sem Ganho), Michelle Rodriguez (Machete), Tyrese Gibson (Transformers), Ludacris (Empire), Charlize Theron (Mad Max: Estrada da Fúria), Kurt Russell (Os Oito Odiados), Nathalie Emmanuel (Game of Thrones), Luke Evans (A Bela e a Fera), Kristofer Hivju (Força Maior), Elsa Pataky (Velozes & Furiosos 6), Scott Eastwood (Esquadrão Suicida) e – ufa! – Helen Mirren (Trumbo). Uma boa parte parece estar ali só pra cumprir uma função específica, alguns só repetem padrões e outros só fazem (ou viram) piadas que nem sempre se encaixam no todo, mas no final das contas é a química entre cada uma dessas personalidades que alimenta o filme.

Os melhores momentos do longa ficam, sem dúvida nenhuma, divididos entre Statham e Johnson por conta da construção oposta dos personagens, das coreografias de luta que imprimem características diferentes para cada e a forma como ambos tem se tornado paródias de si mesmo. Enquanto isso, no lado negro do torque, podemos dizer que Charlize Theron também consegue se impor como uma vilã fria e ameaçadora. Mesmo sem ser necessariamente marcante, ela se enquadra naquele típico perfil que o espectador ama odiar.

Por outro lado, o astro e produtor Vin Diesel acaba sendo um dos elos mais fracos da corrente. Fica muito claro que ele assumiu o controle criativo da franquia de uma vez por todas e separou o arco mais complexo para o seu personagem, porém deve ter esquecido das suas limitações como ator dramático. Ele é um ator tão canastrão quanto a maior parte do elenco, ou seja não funciona nem passa credibilidade suficiente nessa posição mais séria. A diferença é que nenhum dos outros insiste em se colocar nessa posição desconfortável e prejudicial para o filme até certo ponto.

E eu digo isso porque, mais uma vez, tudo pode ser facilmente ignorado em prol das belíssimas cenas de ação. Eu acho que F. Gary Gray (Straight Outta Compton: A História do N.W.A.) entrega um trabalho de direção menos inspirado que aqueles realizados anteriormente por Justin Lin ou James Wan (certos giros de câmera do antecessor chegam a ser imitados), porém não deixa a desejar em momento algum. É impossível negar que ele sabe como controlar o ritmo da trama, sabe lidar com os absurdos que surgem a cada instante e parece aproveitar tudo que um grande orçamento pode oferecer nas cenas de ação. Mesmo sem aproveitar o máximo do 3D, as sequências de Nova York e da Rússia são sensacionais e, acima de tudo, extremamente divertidas.

E, no final das contas, o segredo de Velozes e Furiosos 8 é apenas um: o foco é divertir o espectador ao máximo. Tem sim vários erros de roteiro, atuações abaixo da média e momentos que ignoram todas as equações de física do ensino médio, mas nunca deixa de ser um filme de ação de primeira qualidade, que celebrar todos os absurdos e exageros permitidos pelo cinema. É um filme feito sob medida para quem curte a fase mais recente da franquia, então, se essa for sua praia, mergulhe na insanidade e viaje para um universo onde tudo é possível com um pouco de nitro e alguns carros caros. Se não for, pise no freio, desligue os motores e aceite o sucesso de uma fórmula que ainda vai durar muitos anos.


OBS 1: Eu gosto mais dessa fase, porque ela se permite brincar com os clichês e problemas de roteiro. Dentro disso, a forma como o texto transforma a inutilidade do Roman em uma piada literal e recorrente é um dos ápices humorísticos desse longa.