AODISSEIA
Filmes

Crítica: Um Limite entre Nós

9 de fevereiro de 2017 - 11:00 - Flávio Pizzol

Cercas construídas pela teatralidade


Oscar desse ano está com todos os seus olhares voltados para o passado (e isso é mais uma constatação que uma crítica). De Até o Último Homem até La La Land, todos os indicados a melhor filme retratam momentos históricos, reverenciam a nostalgia ou apresentam lembranças que mexem com seus protagonistas. Fences (me recuso a usar uma tradução que limite as possíveis interpretações para as cercas do título original) entra para última categoria com um texto eloquente e amargurado sobre escolhas, preconceito e paternidade.

No centro disso tudo está uma família negra que mora em um bairro simples, trabalha duro para sobreviver e vive dilemas comuns para a sociedade dos anos 50. As consequências da Segunda Guerra Mundial, os romances, os sonhos, as brigas, os confrontos amargos e as escolhas para o futuro vão construindo a narrativa de uma forma que a deixa muito perto de soar completamente singela e banal. Isso só não acontece, porque o texto nasceu da mente audaciosa e talentosa do dramaturgo August Wilson – que venceu o Pulitzer por esse mesmo texto.

A peça foi escrita em 1983, a adaptação para os cinemas passou pelas mãos do próprio Wilson em 2005 e, mesmo tanto tempo depois, sua análise da vida dos afro-americanos nos EUA parece não ter envelhecido nada. O roteiro é construído através de um olhar honesto e ácido sobre a sociedade, ganha força nos monólogos gigantescos e apresenta uma riqueza que poucos textos possuem. Todas as discussões surgem com fluidez na trama, se cruzam com os significados metafóricos das cercas e vão abrindo espaço para outros questionamentos sobre família, casamento e machismo de uma forma quase inexplicável. É uma experiência muito intensa que pode ter sido ainda mais impactante no espaço reservado do teatro.

A direção de Denzel Washington (Dia de Treinamento) sabe o que mostrar para evidenciar as emoções e como trabalhar a câmera para manter a teatralização dos acontecimentos, emulando o olhar do público no teatro através do uso constante do plano-conjunto ou do plano médio. Além disso, o fato de ser ator também o ajuda na hora de injetar energia em um elenco confortável com os trejeitos e anseios de cada personagem. Texto, direção e atuação casam com um poderio formidável!

A união entre o próprio Denzel e Viola Davis (How to Get Away with Murder) cria uma presença de cena absurda que vai ganhando cada vez mais imponência com o desenrolar da trama. Eles evocam os monólogos escritos por Wilson com personalidade, ritmo e uma mistura agridoce entre amor e angústia, enquanto o restante do elenco se esforça bastante para tentar chegar perto do casal. E seria um tanto quanto injusto, justamente por essa entrega, não separar algum espaço para registrar os nomes de Stephen Henderson (Manchester à Beira-Mar), Jovan Adepo (The Leftovers), Russell Hornsby (Grimm) e Mykelti Williamson (Forrest Gump: O Contador de Histórias).

 

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Manchester à Beira-Mar apresenta o luto e o arrependimento em suas formas mais dolorosas.

La La Land tem otimismo, nostalgia e muitas chances de ser o grande vencedor do Oscar.

 

No entanto, essa mesma teatralidade que se encaixa na proposta do longa também gera dois problemas que me incomodam um pouquinho. O primeiro deles está na retirada de alguns momentos-chave para privilegiar o seu posterior relato através de algum monólogo. A inclusão de novos cenários obriga que esse corte seja feito no teatro, mas uma adaptação cinematográfica permitiria que a conversa entre Troy e o seu chefe, por exemplo, seguisse a boa e velha regra de mostrar mais do que apenas falar. A tensão acerca do conteúdo da conversa poderia ter sido construída de diversas maneiras que não excluíssem uma boa e enriquecedora discussão sobre preconceito do longa.

Além disso, a ótima direção perde algumas oportunidades de expandir o escopo da narrativa através da linguagem cinematográfica, considerando que o plano-conjunto e o plano médio imitam basicamente o que nós conseguiríamos ver a peça em um palco. Ao priorizar esse aspecto, Denzel acaba abusando pouco de recursos valiosos na construção dos ambientes e das emoções, como o close-up, o plano-detalhe, o desfoque de fundo ou a montagem dividida entre personagens separados. Eu senti falta disso justamente porque algumas das cenas mais interessantes – visualmente – surgem justamente quando a câmera brinca com os espelhos ou se aproxima do rosto de alguém que está gritando com a Morte.

Esses artifícios poderiam ser simplesmente um “algo a mais” que levaria a história para novos caminhos, porém a ausência dos mesmos não tem força suficiente para empobrecer um texto tão vigoroso e necessário até hoje. No final das contas, as cenas importantes acabam tendo um motivo justo para acontecer no mesmo cenário, a direção funciona muito bem e o elenco consegue carregar todas as emoções encontradas nas palavras de August Wilson. Um Limite para Nós (chamem de Fences, por favor) escorrega efetivamente no aproveitamento de certas sequências externas, mas continua prendendo o espectador do início ao fim, colocando o dedo em várias feridas e merecendo todo o seu espaço no Oscar.


OBS 1: Muito cuidado quando for construir cercas na sua casa…