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Filmes

Crítica: Thor – Ragnarok

O melhor filme do Thor (para quem não liga para a Fórmula Marvel)

26 de outubro de 2017 - 10:32 - Flávio Pizzol

 

Sem ligar para qual é o filme a Marvel está lançando, a discussão de pelo menos 80% da críticas estará sempre focada em discutir os problemas gerados pela fórmula implementada pela Casa das Idéias. Pensando nisso, já quero começar esse texto tirando o elefante da sala: Thor – Ragnarok está completamente inserido nesse selo e não parece – em nenhum momento – estar disposto a quebrar o ciclo. Pelo contrário, o filme parece decido a mergulhar de vez nas suas próprias regras para tirar sarro de si mesmo, enquanto diverte o público e comprova, pelas mãos de Taika Waititi, que a liberdade criativa abre suas portas para quem sabe trabalhar ao lado do sistema.

 

Apoiado incondicionalmente pela Marvel e recebido com desconfiança pelo público, o diretor neozelandês (do ótimo What We Do in the Shadows) é sem dúvida nenhum o grande responsável por construir a ideia de que o Thor dos cinemas funciona muito mais no caminho da comédia que nas raízes shakespearianas que cercavam os dois primeiros longas. Não posso fazer afirmações o processo de pré-produção, mas é permitido chutar que Taika conseguiu vender as vantagens do seu estilo e equilibrar o desejos do estúdio com algumas boas referências para receber em troca liberdade total. O resultado é um Ragnarok que exala tanto o humor ácido do diretor (quem conhece seus filmes vai entender…), quanto um sentimento de colaboração que não transparece em todos os filmes. Tudo isso sem ter medo de cair na autoparódia.

 

 

Ao mesmo tempo, o diretor demonstra ter grande domínio da linguagem cinematográfica ao conseguir traduzir tudo o que fazia em seus filmes independentes para uma produção de grande escala. Em outras palavras, ele compreende que está fazendo algo gigantesco e usa isso a seu favor, principalmente quando o objetivo é subverter as regras do gênero. Suas piadas conseguem transitar perfeitamente entre o intimismo de um simples trocadilho, as auto-referências e o humor físico que acompanha as grandes cenas de ação, contando com trabalhos impecáveis de edição (o ritmo acertado faz com que as duas horas do filme passem voando), design de produção, efeitos especiais e trilha sonora. Inclusive, a escolha do músico Mark Mothersbaugh (The Last Man on Earth) merece ser destacada por resultar em uma das trilhas menos esquecíveis de um universo que insiste em homogenizar suas canções.

 

É curioso como a cena de abertura em si já estabelece todos esses elementos com muita eficiência. O timing cômico de Thor e Surtur é perfeito, os diálogos já resumem tudo que o público precisava saber sobre os longas anteriores e a conclusão chega com uma avalanche gigantesca de efeitos visuais, a certeira fotografia com toques épicos do veterano Javier Aguirresarobe (Vicky Cristina Barcelona) e ótimas coreografias de luta que fazem o filme valer como um produto de ação. Tem a cara da Marvel e, narrativamente falando, funciona como um pontapé inicial muito divertido para uma trama que apela para a zueira, mudanças de atos que remetem a fases de um jogo e saídas fáceis proporcionadas por um roteiro extremamente simplório. Essa é uma das coisas que pode incomodar algumas pessoas, mas por enquanto está bem adequado à proposta de Thor – Ragnarok.

 

 

O elenco também está perfeitamente encaixado na proposta de transformar o longa em uma comédia com o pé nos anos 80, e isso é o suficiente para fazer todas as peças se encaixarem com boas doses de improviso. Entre participações especiais hilárias, Chris Hemsworth (Caça-Fantasmas) se mostra muito mais à vontade quando está lidando com a comédia e comanda o longa com uma versão mais leve e espirituosa do herói; Tessa Thompson (Westworld) rouba a cena como a gloriosa Valquíria;  Mark Ruffalo (Spotlight: Segredos Revelados) se diverte com um Hulk de visual ainda mais realista e devidamente bobão; Tom Hiddleston (Kong: A Ilha da Caveira) abraça de uma vez por todas as piadas que cercam Loki, sem perder a essência do personagem; Jeff Goldblum (Jurassic Park) brilha como o Grão-Mestre; e o próprio Taika Waititi (A Incrível Aventura de Rick Baker) encerra seu ciclo humorístico com um personagem que resume o espírito abobalhado da produção.

 

Surgindo como um acompanhamento luxuoso para esses grupo, Cate Blanchett (Carol) encontra o tom perfeito para Hela ao misturar a composição visual imponente, o tom de voz repleto de sarcasmo e a postura vilanesca. Ela parece estar se divertindo com um papel fora da sua zona de conforto, mas aparece pouco, perde um aprofundamento que seria necessário e acaba lançada no vale dos meros coadjuvantes. Não deve ser completamente ruim dividir o setor com Idris Elba (Luther), Karl Urban (Star Trek) e Anthony Hopkins (Noé), mas a verdade é que todos são membros de um clube que tem um papel narrativo razoável – e bem cumprido – sem receber a devida importância. Infelizmente, a vilã é um desperdício de potencial.

 

 

Um desperdício que também pode ser notado na ausência de conexão entre público e personagens, levando-nos para um jornada que não consegue ter o impacto desejado no terceiro. As cenas de ação que cercam o duelo final com a vilã e o próprio Ragnarok do título são incríveis, mas não entregam aquele algo mais que ocupa a tela do cinema quando você realmente se importa com os protagonistas ou com o cenário. A proposta de Thor- Ragnarok falha justamente quando o roteiro de Eric Pearson (Agent Carter), Craig Kyle (X-Men: Evolution) e Christopher Yost (Star Wars Rebels) esquece de dar espaço para o luto, tristeza de ver sua terra natal ser destruída ou qualquer coisa do tipo.

 

No entanto, eu acho importante explicar que esse “contraponto negativo” não é culpa exclusivamente da inserção de comédia no meio de momentos dramáticos, como as pessoas gostam de afirmar. Pelo contrário, a comédia aqui é muito bem posicionada – boba e facilitadora demais em algumas ocasiões, mas bem posicionada – e não merece receber a culpa. No meu ponto de vista, é o roteiro em si que perde a mão em alguns momentos onde o público conseguisse sentir o que o personagem sinta, seja esse sentimento o bom-humor ou a tristeza. Só pra exemplificar sem dar muitos spoilers: o primeiro ato do filme tem uma morte que catalisa o restante do filme, porém o texto escolhe evitar um confronto que poderia resolver de cara a questão do luto com a chegada da Hela. Não é o humor que tira a carga dramática, e sim a ausência de cinco minutos a mais de cena.

 

 

Apesar disso, Thor – Ragnarok encontra seu lugar no mundo com perfeição na maior parte do tempo, principalmente por se aceitar como um filme de pura comédia como toques de ação épica. É um pouco diferente do que a Marvel vinha fazendo, mas não chega nem perto de fugir da gloriosa fórmula, prometendo (mais uma vez) agradar o público em geral com uma produção que, como eu já disse, funciona tanto como um longa de ação, quanto como uma comédia escrachada. Você só precisa aceitar que as cores exuberantes, o humor afiado e a zueira são os novos reis de Asgard!

 


OBS 1: Matt Damon (Loki), Sam Neill (Odin) e Luke Hemsworth (Thor) já estão entre os melhores cameos da Marvel. Chegaram muito perto de superar Stan Lee, mas o “velho caquético” tem um currículo muito maior.

 

OBS 2: Aquela cena final é um referência a Star Trek ou eu estou terrivelmente enganado? Lembrem-se que Chris Hemsworth interpretou o pai do Capítão Kirk nas novas versões…

 

OBS 3: O visual vale como uma belíssima homenagem ao Jack Kirby. Pra deixar anotado!