Crítica: The Leftovers – 3ª Temporada

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“Nothing is answered. Everything is answered. And then it ends.”


O trecho acima, consiste na sinopse oficial do último episódio da terceira temporada de The Leftovers – o Series Finale – e diz em tradução livre: Nada é respondido. Tudo é respondido. E então acaba. De certa forma, a série de Damon Lindelof e Tom Perrota, cumpriu bem o que prometeu até o último instante, tendo o final mais Leftovers possível. Confesso que fiquei horas a fio, olhando para o nada, não tentando entender o que se passou diante dos meus olhos, mas tentando trazer algo de importante daquilo para minha vida. Lost foi uma série bastante criticada por seu final, mas aquele fã que não sentiu ou entendeu a mensagem que o fim quis passar, perdeu parte da experiência. Eu senti medo do fim de Leftovers, confesso, mas a temporada estava tão maravilhosa, que o próprio fim, era só um mero detalhe. Maravilhoso aliás, é a palavra que define todos os simbolismos por trás deste episódio e da temporada final. Desde já agradeço a HBO, por nos deixar acompanhar o fim desta história, mesmo com a baixa audiência e ausência de reconhecimento nas premiações – temporada que foi reduzida a 8 episódios – que foram necessários para sairmos satisfeitos.

O grande receio, foi que com a redução de episódios, Lindelof e Perrota, acelerassem demais a produção, e tentassem explicar muito dos mistérios que haviam nela. O que vimos foi um 3ª temporada fascinante, com uma nova mudança de cenário (desta vez a Austrália) e um salto de mais 3 anos, dias antes do aniversário de 7 anos da Partida Repentina. Quem conhece o mínimo sobre o arrebatamento cristão, sabe que 7 anos depois do acontecimento, o fim do mundo é previsto. Sendo assim, os criadores da série resolveram nos levar a acreditar que algo de especial ia acontecer no dia 14 de outubro, sete anos depois. Entretanto, a genialidade não está apenas no grande evento que pode ou não acontecer – movendo parte do plot desta temporada – mas culminando numa grande temporada de despedida. Lindelof e Tom resolvem dar episódios inteiros a apenas um personagem – fazendo desses capítulos –  grandes despedidas, com atuações memoráveis.

Com exceção do episódio de estreia, o episódio 4 e do último, Nora Durst (Carrie Coon) ganha o segundo episódio inteiro para ela e a atriz mais uma vez mostra porque é a rainha de Leftovers. Nora, talvez seja a personagem que mais sofreu no decorrer da sua jornada, e seu fim se torna ainda mais incrível, quando visto de fora e se pensa em tudo o que ela viveu. O desejo em ter os filhos de volta nunca a abandonou e os diálogos com Kevin são fortes, amargos e difíceis de assistir. Kevin Garvey, Sr (Scott Glenn) apenas um coadjuvante de luxo da série, ganha o episódio 3 inteiramente pra ele, e sofre uma jornada rumo ao seu calvário – simbólico e literal – talvez o episódio com os takes mais incríveis, abusando bastante das áreas desertas da Austrália.

Matt (Christopher Eccleston) fica com o episódio 5, e depois de Nora é o personagem que mais passa pelo martírio. Sua constante luta entre fé e o real propósito da sua “não partida” ainda o incomodam, em forma de uma doença que retorna a sua vida. O personagem é aquele que tem os discursos e questionamentos mais morais. Laurie (Amy Brenneman) é outra coadjuvante, que ganha bastante espaço, seu episódio – o 6º – talvez seja o mais triste da temporada. Laurie é a personagem mais “pé na chão”, mais realista que qualquer um. A conversa para saber qual dos discípulos ela seria, é rica e esclarecedora, definindo bem a personagem e os rumos que ela toma no decorrer da trama. Ela, é a única que acredita que já cumpriu o seu propósito, e esse talvez seja o grande viés desta temporada. Todos os personagens estão em busca de algo que os tornem relevantes, satisfeitos ou importantes para si e para os outros.

Kevin ganhará um parágrafo neste texto apenas para ele, já que Justin Theroux se mostra o grande protagonista da produção. Desde o primeiro episódio, na volta a polícia em Jarden, passando pelo seu surto na ida a Austrália, evidenciando sua química perfeita com Carrie Coon, até o sensacional episódio 7, o penúltimo da série, intitulado – The Most Powerful Man in the World (and His Identical Twin Brother), uma espécie de nova versão do maravilhoso International Assassin, dirigido inclusive pelo mesmo diretor Craig Zobel – Kevin se vê com o mundo nas costas e uma total responsabilidade, assumindo a posição de salvador, aquilo que ele não considera que seja, mas que com o passar do tempo, acredita que possa ser. O homem mais poderoso do mundo é fraco, um provável esquizofrênico que caga 4 vezes ao dia e fuma escondido. O capítulo 7 reúne o que The Leftovers tem de melhor: um a direção segura e precisa, ancorada numa edição brilhante e tensa, com boas doses de drama, uma trilha sonora em orquestra apoteótica e um humor negro nervoso. O episódio em questão é daqueles que gosto de chamar de “episódio do Emmy“, porque se o ator não for premiado por sua atuação – ou pelo menos indicado por este episódio – há um grande problema de reconhecimento. A família Murphy, John (Kevin Carroll), Michael (Jovan Adepo), Erika (Regina King) e Eve (Jasmin Savoy Brown) perdem espaço, mas acrescentam para o todo, assim como Tom (Chris Zylka), Jill (Margaret Qualley) e Mary (Janel Moloney) – além dos retornos triunfantes de Patti (Ann Dowd) e Meg (Liv Tyler).


A porta, o bode e o marca-passo (contém spoilers do episódio final)

Apesar de nunca se apegar ao mistério como base de sua história, Leftovers brincou com o mesmo, principalmente nos dois primeiros episódios desta temporada, usando um recurso que sempre causa curiosidade: os flashfowards – e alguns que pareciam ser, mas não eram. O grande debate neste ano foi a questão do propósito. Os personagens buscavam alguma coisa em que podiam se agarrar e ter alguma finalidade. Através de simbolismos, Tom e Lindelof encheram a temporada e principalmente o episódio 08, último da temporada e da série, intitulado The Book of Nora. Em dado momento a porta do banheiro de Nora emperra e ela entra em desespero por estar presa e sozinha. Em uma pequena atitude, a diretora Mimi Leder transmite as camadas da personagem – ela não quer mais ficar presa, de certa forma o momento é parecido com o daquele em que ela usou a máquina. Posteriormente sabendo do que aconteceu e aonde os que partiram estavam (ou não?!) – Nora não quer repetir aquilo, não quer mais se sentir só, por isso vai ao baile/casamento na cena seguinte.

O bode, estava presente no casamento em que Kevin e Nora estavam. Em algum momento ele foi ornado com uma série de colares, que representavam o pecado da humanidade. Em uma cena linda na chuva, Nora acaba salvando o bode que estava preso na cerca, colocando os colares em si. Me emocionei muito com a cena, graças a trilha sonora sempre presente de Max Richter e, mais do que isso, uma interpretação arrebatadora de Carrie Coon, sendo a mãe sofredora, levando consigo os pecados de todos. Ao longo de toda série, Nora sempre quis mostrar a verdade, ir contra a mentira e a enganação. Por mais que mentisse pra si mesma, ela sempre tomou para si dores que não eram dela. O simbolismo da cena é tocante.

Para ser o último recurso simbólico, fiquei em dúvida entre os pombos e o marca-passo de Kevin. Optei pelo segundo, por ele ter mexido muito comigo e por demonstrar toda a fragilidade de Kevin – que seria o salvador, mas é apenas um homem comum. Depois de um infarto, Kevin é obrigado a usar um marca-passo, e pra um herói que morreu e voltou várias vezes, isso chega a ser uma ironia do destino. Todos os anos, ele voltava a Austrália atrás de Nora, e em outro breve momento de emoção – imaginei como seria se ele não a tivesse encontrado ou se de fato tivesse perdido a memória como aparentou no início do episódio.

A emoção tomou forma através do longo diálogo entre ele e Nora. Revelador e ao mesmo tempo confuso, o fim não foi nada mais do que Leftovers já ofereceu e parece que quanto mais se pensa nele e em seu significado, mais se ama. Significado aliás é a palavra pra uma série que começou sua última temporada num domingo de Páscoa e encerrou num dia de Pentecostes. E assim, The Leftovers acaba em seu 28º episódio, brincando com nossa perspectiva: será que perdemos 2% da população ou eles perderam 98%? Acompanhamos a história dos 2% ou do restante? Muito disso cabe ao espectador, que abraçou esses personagens fascinantes. Um injustiçado Lindelof alcança uma espécie de redenção e não vejo a hora de ver outra obra nas mãos desse gênio. Muitos podem reclamar da ausência de respostas, e eu os convido a assistir novamente o prólogo do primeiro episódio desta temporada. Não importa, deixe o mistério rolar e assista a um dos melhores dramas da década. Nós somos os Leftovers agora.


 

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