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Séries

Crítica: The Handmaid’s Tale – 1ª Temporada

Uma série que precisa ser vista por todos

23 de julho de 2017 - 14:30 - Tiago Soares

É até absurdo dizer que o mundo distópico de The Handmaid’s Tale, é sim possível nos dias de hoje. Numa época em que vivemos a cultura do estupro, salários desiguais entre homens e mulheres – não apenas em Hollywood – mas em todos os âmbitos – mulheres, homossexuais e transexuais sendo mortos – este mundo absurdo se torna cada vez mais real. O canal de streaming americano Hulu, seguindo a onda de seus concorrentes Netflix e Amazon Prime Video, decidiu apostar em produções originais de peso, antes disso, precisava de um carro chefe, um série que segurasse os assinantes e fizesse a mensalidade valer a pena.

 

 

Adaptando o livro de Margaret AtwoodO Conto da Aia aqui no Brasil – tendo Bruce Miller (The 100) como criador e trazendo como estrela principal, a também produtora Elisabeth Moss (Mad Men), o estrago estava feito. No bom sentido claro – já que The Handmaid’s Tale é sem dúvida uma das melhores estreias do ano. A série conta a história de uma sociedade distópica, a República de Gilead, antigo EUA, que se torna um regime totalitário, com regras baseadas no antigo testamento bíblico, tirando o direito de minorias, em especial das mulheres. Todas são destinadas a algo, as prestativas e não férteis são empregadas, as mais intelectuais vão para as colônias radioativas, para ficarem afastadas do mundo, e as férteis são as “handmaid’s” (aias), que tem o objetivo apenas de procriar, para manter os níveis demográficos da população. No meio disso está June (que agora se chama Offred), uma handmaid  que vê sua vida mudar ao ser designada para um Comandante e sua esposa.

 

Paralelo a sua história, acompanhamos flashbacks que nos mostram como os EUA chegaram aquele ponto – politicamente, economicamente, os problemas com a natalidade, o começo da submissão das mulheres, os protestos que ocorreram contra isso tudo, as novas e absurdas leis, as cerimônias estranhas de procriação (que nada mais são do que estupros velados), o treinamento das aias  – além é claro – do passado de June e sua família. Definitivamente, The Handmaid’s Tale não é uma série fácil de assistir. Não por complexidade na narrativa, já que o roteiro é didático, mas nunca expositivo, apresentando em nuances o que de fato ocorreu para o declínio daquele país. Dói saber que mulheres auxiliaram em sua própria subjugação, não sabendo claro, que o poder de homens primitivos transformaria tudo em uma bola de neve, tirando mais ainda os direitos delas.

 

 

A fotografia predominantemente fria, também visa causar incômodo no espectador, já que o mundo não é mais o mesmo – contrastando bem com o vermelho forte das aias e o azul das esposas dos comandantes.  Aliás, a direção de arte da série é impecável, sempre atenta aos detalhes, tanto no visual de uma América esquecida e retrógrada, como no figurino bizarro das mulheres – que ironicamente dirigem oito, dos dez episódios da temporada. The Handmaid’s Tale pode não prender você no piloto, que particularmente considerei mediano – talvez por isso o Hulu tenha liberado os três primeiros, que são essências para o entendimento da história e por seu apego com a protagonista.

 

Elisabeth Moss está impecável, e uma indicação ao Emmy já é quase garantida, a atriz inclusive já foi indicada ao TCA Awards (Associação de Críticos dos EUA) neste ano. A atriz usa sua beleza exótica para nos cativar, não apenas pelo sofrimento, mas pela mulher forte que é – ao mesmo tempo que é manipulada pelo sistema, ela manipula, seduz e assume o controle várias vezes. Joseph Fiennes (American Horror Story) interpreta um Comandante que no começo parece mais uma vítima desse novo regime, mas se mostra manipulador e digno de nojo, sendo basicamente um vilão nesse mundo de vilões – mesmo papel de Yvonne Strahovski (Chuck)como sua esposa Serena Joy,  ela sim, apesar de ser repugnante as vezes, é mais uma vítima dessa loucura generalizada. O motorista Nick (Max Minghella) ganha papel importante na narrativa, e é responsável pela evolução de June, ao mesmo tempo em que Janine (Madeline Brewer), traz os momentos mais emotivos da produção, e talvez seja a personagem que mais mudou deste o início. Luke (O-T Fagbenle) marido de June, ganha um episódio só para ele, o mais fraco da série, apesar do ator segurar bem o viés dramático o qual é exigido. Temos a excelente Samira Wiley (Orange is The New Black) como Moira, a melhor amiga de June, mais forte que ela, mas que em dado momento aceita sua condição, Alexis Bledel como Offglen, que por ser lésbica, traz uma outra visão do que significa este novo mundo para os homossexuais, em um dos episódios mais chocantes e visualmente impecáveis – completando o elenco com a sempre incrível Ann Dowd (The Leftovers) como a carrasca Aunt Lydia.

 

 

Claro que um regime assim, ia levantar uma resistência – e ela existe – mesmo que não tenha sido totalmente mostrada em sua plenitude. Conhecemos alguns membros, e June está se envolvendo, fazendo com que, não só nos importemos com nossa protagonista, já que vemos tudo através dela, mas também com seu futuro e o da República de Gilead. A série é rica e tem muito o que explorar na já confirmada segunda temporada. É claro que os atos de rebeldia serão castigados, e alguns já são como a série mostra, não faltando um toque de sangue e violência, numa série aonde a violência é muito mais psicológica, que física. Atos que, não serão apenas rejeitados pelo novo governo, mas por muitos que tiveram suas vidas transformadas, por incrível que parece pra melhor do que antes. A união das aias apresentada no último episódio, ao som de Feeling Good de Nina Simone, é bonita, mas muitas ali não estão interessadas em sair daquele status, algo que a protagonista tem dificuldade de entender, já que sua vida era perfeita antes. Aliás, a trilha sonora da série é outro ponto forte, usando músicas conhecidas da cultura pop em momentos importantes e outras versões das mesmas.

 

Como diz a frase que abre este texto, The Handmaid’s Tale é uma série que precisa ser vista por todos. Sua mensagem é clara e sem rodeios, e mesmo que não tivesse o lado visual a favor – ainda assim – já nasceria um clássico. Infelizmente, não existe nada inverossímil na história, e ela poderia muito bem acontecer nos dias de hoje, principalmente na era Trump nos EUA e na do “mito” Bolsonaro aqui no Brasil. A primeira temporada adapta o livro inteiro, e daqui por diante estamos que nem a protagonista no fim do último episódio, na escuridão. Não sabemos para onde a história será levada, mas a série é tão poderosa, que nós acabamos não apenas nos preocupando e olhando para o futuro, mas olhando pra si mesmos. O que posso fazer para que nossa sociedade não se torna uma República de Gilead? Afinal, não precisa ser mulher pra ter empatia pelo que as mulheres passam, nem ser gay pra lutar contra a homofobia, nem negro pra ir contra o racismo e etc. O importante aqui é absorver a mensagem, e apreciar um dos melhores trabalhos da televisão em 2017.

 


 

Obs 1: O romance de Margaret Atwood, de 1985, rendeu outra adaptação, um filme de 1990, que no Brasil se chama A Decadência de uma Espécie.

Obs 2: Citamos a série na 4ª edição do Podseia (o podcast da Odisseia): Séries Desconhecidas que todo mundo deveria conhecerA partir do minuto 29.