AODISSEIA
Séries

Crítica: The Deuce – 1ª Temporada

E a HBO não erra bicho!

18 de novembro de 2017 - 12:13 - Tiago Soares

Eu sou um órfão de Vinyl. Sim, a série de Martin Scorsese e Mick Jagger, que foi renovada e depois cancelada foi uma das que mais me agradaram. Depois do cancelamento, fiquei desolado e acredito que não apenas eu, mas muitos queriam ver uma série que se passasse nos anos 70. Acredito que seja uma época pouco explorada, já que com Stranger Things e It os anos 80 é que estão em alta.

Com o anúncio de The Deuce, nova série de David Simon e George Pelecanos (mentes por trás de The Wire), a esperança voltou e o subtítulo deste texto se torna mais que correto, a HBO não erra. The Wire foi um evento televisivo e ao lado de The Sopranos, ajudou a alavancar o mundo das séries nos trazendo Lost, Breaking Bad e companhia.

A volta de Simon a TV também deve ser tratado como tal, pois é difícil encontrar um criador que trabalha tão bem dilemas que ninguém liga, fazendo dos seus personagens, seres humanos ao mesmo tempo em que lidam com situações sobre-humanas.

Suja e com um mal cheiro que parece sair da tela, The Deuce foca em uma Nova York parecida com aquele em que Travis Bickle narrou em Taxi Driver. Um lugar abandonado, entregue ao lixo, a bebida, as drogas e ao sexo e é aí que Simon encontra à forma de contar a história de pessoas distintas, com o objetivo de chegar do ponto A ao ponto B, mas de maneira complexa.

Aliás, The Deuce, assim como todas as obras de Simon e Pelecanos, não é uma série fácil de assistir. Não existe mundo perfeito, e Simon mostra que a realidade pode não ser a melhor história a ser contada, mas é a necessária. Existem sutilezas – sejam políticas – críticas ao preconceito, misoginia, racismo, machismo – tudo está lá – e não precisa ser verborrágico, a realidade já choca por si.

Um mundo de prostitutas, cafetões, mafiosos e policias corruptos é apresentado sem que as tramas se confundam, do qual acabam convergindo em uma história crua e cercada por “e seu eu tivesse feito diferente?” Assim Simon nos apresenta 3 núcleos distintos, mas que trabalham para algo maior, o próprio Deuce (quadrilátero formado pela Rua 42 entre as Sétima e Oitava Avenidas).

Lá, ele conta a história dos gêmeos Vincent e Frankie Martino (James Franco seguro e numa das melhores atuações de sua carreira). Vince, um dono de bar frustrado, traído pela mulher, e Frank o gêmeo inconsequente. Ambos se envolvem com mafiosos, que acaba levando-os para a formação de prostíbulos e casas de massagem.

Paralelo a eles temos Eileen “Candy” Merrell (Maggie Gyllenhaal maravilhosa, e sua atuação está no páreo de Carrie Coon em The Leftovers e Elisabeth Moss em The Handmaid’s Tale). Eileen é uma prostituta sem cafetão que quer sair das ruas, para isso se apoia totalmente numa oportunidade que envolve o mundo dos  filmes pornô.

James e Maggie são produtores executivos da série, com Franco dirigindo dois ótimos episódios e ambos ganham mais tempo de tela, o que não quer dizer que sejam os protagonistas. O terceiro núcleo é formada por Sandra Washington (Natalie Paul) e sua investigação jornalística, que começa com a vida mundana das mulheres da vida, e vai para algo maior envolvendo conspirações e corrupção.

Com a ajuda do policial Chris Alston vivido por Lawrence Gilliard Jr. que já trabalhou com Simon em The Wire, e fez Bob em The Walking Dead (personagem que almeja cargos maiores na polícia – e por ser negro, não consegue) – mostrando os discursos distintos que Simon quer abordar, sem deixá-los bagunçados.

Aliás, The Deuce é uma aula de roteiro. São inúmeros personagens e todos têm o destaque que merecem, com um leve desenvolvimento – afinal – todos servem a história.

Os cafetões (com destaque para o charmoso e ameaçador C.C de Gary Carr), as prostitutas, destacando Darlene (Dominique Fishback) e Ashley (Jamie Neumann) que fazem um trabalho excelente), os mafiosos (Rudy Pupilo de Michael Rispoli) e o diretor e produtor dos filmes pornô Harvey Wasserman (David Krumholtz se destaca quando aparece.

Apesar de falar sobre sexo e abordá-lo em todas as suas facetas, The Deuce foge de ser uma série apelativa, afinal estamos falando da HBO (famosa mundialmente por seus peitinhos e fuck’s). Há cenas de sexo obviamente, mas elas fogem de tornar a mulher um objeto – afinal – a própria realidade mostrada já faz isso.

Com alguns episódios dirigidos por mulheres, incluindo Michelle MacLaren no primeiro e no último, a violência está implícita num olhar, num gesto, não necessariamente na violência.

Com apenas 8 episódios, o primeiro ano de The Deuce serve como uma preparação para o que está por vir. Mesmo sendo excelente, temos a sensação de assistir um grande prólogo, onde as peças vão sendo enfim posicionadas, para que no ano seguinte possamos ver para onde tudo vai e como os núcleos vão convergir. E eu particularmente espero que não demore.