AODISSEIA
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Crítica: Sully – O Herói do Rio Hudson

14 de dezembro de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

Milagre, heroísmo ou pura loucura?


sully-posterO dia era 15 de janeiro de 2009 e as televisões de grande parte do mundo foram interrompidas por um momento que remetia a memórias nada agradáveis: um acidente envolvendo um avião e a cidade de Nova York. A sorte é que dessa vez o pânico e o terrorismo foram substituídos por um pouso forçado no Rio Hudson que resultou em 155 vidas salvas e uma notícia que, como um dos personagens de Sully faz questão de lembrar após o resgate, poderia acalentar os corações dos americanos depois de todas as marcas deixadas pelo 11 de setembro.

Além disso, o momento também marcou o nascimento de um herói nacional chamado Chesley Sullenberger, um piloto com 42 anos de experiência que arriscou sua carreira para salvar os passageiros do seu voo. Como o subtítulo nacional deixa escancarado, o objetivo do novo longa de Clint Eastwood (Menina de Ouro) é traçar um retrato dos americanos e do próprio Sully ao misturar trechos biográficos e sentimentais, aspectos investigativos e, logicamente, o grande momento do acidente.

É uma história que já nasceu pronta para o cinema e não era necessário ser nenhum gênio para adivinhar que ela iria ser adaptada mais cedo ou mais tarde. Entretanto, isso não diminui as dificuldades enfrentadas pelo roteirista Todd Komarnicki (A Estranha Perfeita) para lidar com uma memória tão recente, um final conhecido pela maioria do público e um clímax de apenas 208 segundos. A solução encontrada passa por duas decisões que ajudam e prejudicam o resultado com a mesma intensidade.

Em primeiro lugar, ele decide retardar ao máximo a tão esperada recriação do pouso milagroso com sonhos, alucinações, pontos de vistas de passageiros, entrevistas, flashbacks e outros recursos narrativos bem comuns. É uma escolha interessante que enche linguiça de um jeito “honesto” e até surpreende à primeira vista, mas perde a maior parte da sua força no decorrer dos 95 minutos de projeção. Quando a hora finalmente chega, a sensação que fica parece ser um misto de tensão, confusão e esgotamento dramático.

Fora esse lado que brinca com as percepções temporais do espectador, o roteiro também foca um tempo considerável da sua história nas investigações que aconteceram após o tal evento. É basicamente um filme de tribunal que confronta o piloto herói e os analistas da organização responsável por controlar a aviação americana na busca por uma resposta para a pergunta que abre o texto: será que Sully poderia ter voltado ao aeroporto sem colocar todos os passageiros em risco? Essa possibilidade mudaria o seu status de herói?

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O drama funciona e os argumentos de defesa são bem construídos, mas o texto escorrega ao vilanizar os analistas com um único objetivo: deixar o espectador com raiva para, no final, aproveitar um momento de redenção que não emociona. É um golpe baixo e desnecessário, considerando que é impossível não torcer por um protagonista impecável, honesto, humilde, preocupado com seus passageiros até o último minuto e que não deixa nem de pagar o drinque que recebeu seu nome. Não é o mesmo caso do longa Voo, dirigido por Robert Zemeckis em 2012, onde o protagonista precisava de oponentes mais babacas do que ele para conquistar a confiança – e a pena – do público.

Dentro dessa ótica, o personagem é bem aproveitado pelo roteiro que Eastwood dirige de forma completamente automática. Fica bastante claro que Clint só sai da sua zona de conforto para comandar as cenas com mais efeitos especiais (convincentes) e as transições temporais mais inventivas, mas isso não tira os méritos em torno do bom uso da tensão nos vários acidentes e da inclusão sutil daquele patriotismo tão comum na filmografia do diretor.

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Já o elenco parece não se importar com a ausência de cenas genuinamente grandiloquentes e também entrega atuações que valem o ingresso, voltando todas as atenções para o grande Tom Hanks (Inferno). O talento e o carisma do ator são mais do que suficientes para transmitir a imponência, a integridade e a experiência de Sully em um trabalho visual e corporal muito bem construído. Tudo sem perder as oportunidades de dividir espaço e explorar a amizade entre o protagonista e seu co-piloto Jeff Skiles, interpretado por um Aaron Eckhart (Batman – O Cavaleiro das Trevas) contido e divertido.

No balanço final, Sully – O Herói do Rio Hudson consegue superar as dificuldades inerentes de sua adaptação para o cinema e entregar um retrato moral e heroico para o protagonista, mas desperdiça boas oportunidades dramáticas por conta da repetição narrativa e do maniqueísmo. Consegue, sem dúvida nenhuma, prender o espectador com um ritmo agradável e um bom uso da computação gráfica, mas parece nunca chegar ao pico de sentimento que a história merece. Acaba um tanto quanto morno, mas não deixa de ser eficiente, tenso e até divertido em vários momentos.


OBS 1: Esse texto já está escrito há algum tempo, mas foi adiado por conta do triste acidente com a Chapecoense. Desejamos muita paz para todos os familiares e sobreviventes! #ForçaChape


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