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Filmes

Crítica: Star Wars – Os Últimos Jedi

Uma galáxia inesperada, corajosa, ousada e cheia de surpresas!

14 de dezembro de 2017 - 15:40 - Flávio Pizzol

 

Star Wars – O Despertar da Força chegou as cinemas com a missão de colocar a franquia de volta ao topo. J.J. Abrams apresentou novos personagens que conquistaram o público sem nenhuma dificuldade, divertiu espectadores no mundo inteiro com uma aventura clássica e cumpriu sua tarefa com louvor, porém foi acusado de fazer um filme muito parecido com o Episódio IV. Por mais que isso não me incomode nem um pouco, existia o medo de que Os Últimos Jedi seguisse o mesmo caminho, tornando-se uma mera cópia de O Império Contra-Ataca, o longa mais marcante e importante da saga. Para nossa sorte, Rian Johnson (Breaking Bad) rompeu com qualquer comodismo, rompeu todas as fórmulas, seguiu por um caminho corajoso e elevou a qualidade de algo que já parecia perfeito.

 

Dando continuidade as tramas do exato ponto onde o Episódio VII parou, o diretor e roteirista optou por criar uma história complexa que não merece ter suas muitas reviravoltas resumidas ou reveladas em nenhum texto. Dentro disso, a única coisa que parece ser justo afirmar é que, mantendo-se dentro do esperado, o foco narrativo se divide em três ambientações principais: a Resistência, a Primeira Ordem e a jornada de Rey pela Força. O inesperado está em como tudo é costurado da maneira mais particular possível.

 

 

A trama demora um pouco mais do que o esperado pra pegar no tranco, enquanto o texto de Johnson fica distribuindo quests aleatórias para os protagonistas, apostando em algumas piadas que não parecem se encaixar no todo ou girando em círculos dentro de Ahch-To. O próprio relacionamento entre Rey e Luke Skywalker soa meio desconjuntado e permanece entalado na garganta até que as motivações do mestre Jedi sejam devidamente estabelecidas com o tão esperado flashback do templo destruído. É a partir daí que o longa encontra sua direção, começa a juntar as peças e engrena de uma vez por todas.

 

É nesse momento de evolução da trama que os personagens começam a caminhar pelos mais diversos tons de cinza e ganham camadas de complexidade que também podem ser classificadas como inesperadas. Inclusive, pode ser válido dizer que o número de batalhas espaciais e a maneira como os personagens fracassam, aprendem com seus erros e até mesmo transitam entre os lados da Força fazem com que Os Últimos Jedi seja muito mais um filme de guerra do que o próprio Rogue One. E vou dizer que eu gostei muito da forma como Rian Johnson escolheu manter as possibilidades abertas e apagar a boa e velha divisão monocromática entre o bom e o mal.

 

 

Isso oferece mais material para que os atores evoluam seus personagens de uma forma quase inédita na saga. Daisy Ridley (Assassinato no Expresso do Oriente) constrói uma Rey que se divide entre a certeza e a dúvida, enquanto perde o brilho que já existiu no seu olhar. Oscar Isaac (X-Men: Apocalipse) perde um pouco de espaço, mas entrega um personagem que erra muito mais do que acerta e, acima de tudo, aprende com isso. John Boyega (O Círculo) ganha seu próprio arco e segue no mesmo caminho de amadurecimento que seu amigo. E, por fim, Adam Driver (Silêncio) encontra o tom perfeito para que Kylo Ren cresça como vilão e tome atitudes corajosas sem deixar de ser atormentado pelo bem ou, no mínimo, pela morte do pai.

 

Já entre os personagens da geração passada, Mark Hamill (Flash) rouba o filme para si com a melhor e mais inusitada aparição de Luke Skywalker. Ele volta dominado pela culpa, mas não abre mão de fazer boas piadas, aprender com seus erros (de uma forma ou de outra, essa é uma das temáticas mais importantes do longa) e arrancar aplausos de uma sala inteira de cinema após uma das reviravoltas. Seu desenvolvimento ofusca até mesmo a emoção que acompanha uma das últimas aparições cinematográficas de Carrie Fisher (Mapas para as Estrelas) que entrega uma Leia ainda mais madura e pronta para arrancar lágrimas do espectador.

 

 

No entanto, mesmo se arriscando nas jornadas dos protagonistas, flertando com o inesperado e mergulhando sem hesitar em qualquer oportunidade que o permitisse brincar com as expectativas do público, Rian Johnson ainda sabe que não pode fugir de todas as regras e convenções de uma vez só. Em outras palavras, ele toma decisões – tanto visuais quanto narrativas – bastante ousadas e permite que Os Últimos Jedi faça curvas bruscas, mas toma cuidado para que a essência de Star Wars não seja jogada fora. O senso de aventura marcando presença sem titubear, a comédia injetando alguns momentos bem-vindos de leveza e a ação grandiosa deixam claro (mais de uma vez) que você está em uma sessão de Star Wars.

 

Ao mesmo tempo, ele tenta e consegue encontrar, tecnicamente, o equilíbrio entre sua assinatura e algumas das soluções que acompanham a saga desde o início. As transições clássicas e a trilha sonora icônica continuam marcando presença, mas o senso estético de Johnson entrega um filme muito mais arrojado do que qualquer trabalho de George Lucas ou até J.J. Abrams. Os Últimos Jedi é um filme lindo que espalha boas escolha de ângulos e movimentações de câmera, ótimo uso de escalas e cores, efeitos especiais de primeira linha e enquadramentos que oferecem ao espectador inúmeras imagens que merecem plano de fundo do computador.

 

 

Para elevar ainda mais o nível do longa, todos esses acertos individuais se reúnem com fluidez e direcionam a trama para um dos melhores atos finais da história do cinema. É um show de ação, reviravoltas, retornos impensáveis de personagens e cenas de tirar o fôlego que a reação do espectador só pode ser vibrar ou ficar boquiaberto, sem palavras. E, como se não bastasse, Star Wars – Os Últimos Jedi encontra uma forma corajosa, sutil e, de certa forma, esperançosa de amarrar as pontas soltas e concluir a passagem de bastão. J.J. Abrams recebeu uma tela em branco para concluir a trilogia, mas vai ter que se esforçar para chegar aos pés de um longa que, apesar de manter o caráter transitório de um segundo filme, revisita o clássico e injeta novos ares com altas doses de diversão, emoção e surpresas. Sem palavras para esse filme!

 


OBS 1: A crítica sem spoilers se encerrou ali em cima, mas eu preciso comentar algumas soluções. Então se você não viu o filme ou se importa com spoilers, volte mais tarde!

 

Gostei muito da sacada dos pais da Rey serem apenas catadores de sucata que trocaram a garota por bebida. É algo que pode incomodar alguns fãs que estavam pirando nas teorias, mas foge da amarração excessiva que acompanharia a revelação de um parentesco importante e tem tudo a ver com a ideia da Força estar em todos os lugares ao invés de pertencer a uma linhagem ou a um grupo específico. A cena da caverna fala muito sobre isso quando “diz” que apenas ela (a Rey) importa, assim como a cena final faz ao revelar que mesmo um garotinho qualquer pode ser um jedi.

A morte de Carrie Fisher não parece ter afetado a conclusão de Os Últimos Jedi. Alguns rumores apontam que seu coma (depois de uma cena belíssima) pode ter sido forjado para guardar cenas já gravadas para o próximo longa e isso pode até ser verdade, porém o que importa é que Rian Johnson teve liberdade, esbanjou coragem ao não matar a personagem aqui e deixou claro, sem medo ou arrependimento, que o próximo longa seria o seu filme caso a atriz não tivesse falecido.                                                                                                                                                                                           

Não tenho palavras que possam expressar o que senti na luta final entre Luke e Kylo Ren, mas preciso ressaltar o quanto o roteiro esfregou na nossa cara que não poderia ser o Luke. Ele estava mais novo, toma uma porção de tiros e sai intacto sem mostrar como aconteceu e ainda é cortado pelo sabre até que o espectador consiga finalmente entender o que está acontecendo, respirar fundo e gritar sem medo do amanhã.

Ainda falando sobre o jovem menino Skywalker em Os Últimos Jedi, a participação completamente inesperada de Yoda está entre as melhores soluções do roteiro de Rian Johnson. Ele surge como o boneco da franquia clássica, ativa a nostalgia e possui uma função narrativa exemplar. A forma como ele explode a árvore sem olhar para trás e ensina para o seu antigo aprendiz que o fracasso é o melhor professor já vale o ingresso. Talvez só perca para o Mestre jogando o sabre fora e destruindo o gancho do longa anterior com uma dose de humor que não costuma acontecer em Star Wars.