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Filmes

Crítica: Star Trek – Sem Fronteiras

2 de setembro de 2016 - 14:00 - Flávio Pizzol

Uma Entreprise pronta para explorar novos caminhos


startreksemfronteirasposters-poster05Cinquenta anos de tradição, mais de duzentos episódios exibidos na TV, muitos games e livros, treze filmes, naves icônicas, milhões de fãs espalhados pelo mundo e um lugar garantido no topo da cultura pop. Star Trek – Sem Fronteiras chega aos cinemas para celebrar toda essa história com reverência, ação e diversão, comprovando ter combustível suficiente para garantir uma vida longa e próspera por muitos anos.

Depois de estabelecer as origens necessárias no primeiro filme (2009) e reformular uma das histórias clássicas da franquia em Além da Escuridão (2013), o novo longa retorna ao cerne da série original e coloca a tripulação da USS Enterprise em uma daquelas típicas missões de cinco anos por lugares “onde nenhum homem jamais esteve”. A rotina de todos eles mudam drasticamente quando um vilão desconhecido destrói a nave como parte de seu plano para destruir a paz mundial.

Uma premissa desenvolvida às pressas por Simon Pegg e Doug Jung para suprir a saída repentina do diretor Roberto Orci no meio da pré-produção e que resulta em um texto com a cara da dupla: leve, divertido e nerd até o último fio de cabelo. Eles encontram o tom certo para divertir espectadores de todas as gerações, espalhar muitos fan services pela projeção, homenagear Leonard Nimoy de forma digna e aproveitar o conceito de família que é muito recorrente em Star Trek. É a fórmula certa para levar fãs as lágrimas, mantendo a identidade de uma história completamente original.

Para tornar tudo isso possível, eles optaram por desenvolver um texto estruturado de forma linear, simples e bem óbvia. Com isso, eles abusam do vilão com motivações fracas, das reviravoltas fáceis de antecipar e da utilização de um objeto sem grande relevância – McGuffin para os íntimos – que faz a trama avançar, mas ao mesmo tempo aproveitam essa simplicidade para permitir que todos os personagens brilharem. A ideia de separar a tripulação em duplas ajuda a explorar as antigas picuinhas de Bones e Spock, criar conexões inusitadas e desenvolver melhor alguns personagens que eram quase figurantes nos longas anteriores, como Sulu e o próprio Chekov.

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O diretor Justin Lin (Velozes e Furiosos 4) assumiu a posição de J.J Abrams e aproveitou tudo da melhor forma possível. Ele aplica todo o seu conhecimento de velocidade para quebrar as regras físicas, girar a câmera das formas mais inventivas possíveis, injetar gás na franquia com cenas de ação alucinantes e aproximar o público dos protagonistas. Ele certamente comprovou que sabe como aproveitar os espaços de manobra, a trilha sonora (a melhor sequência de ação é musical) e os efeitos especiais sem deixar de lado o desenvolvimento fraternal entre os personagens nos poucos momentos de respiro.

O próprio Lin admitiu em entrevistas que assistia a série clássica na infância junto com o pai e, talvez por isso, entenda o poder familiar e nostálgico que cada um desses personagens possui. E a verdade é que, com isso na cabeça e um roteiro inteligente nas mãos, ele nem precisa fazer muito esforço pro elenco passar sua química inquestionável para as telas. Chris Pine e Zachary Quinto estão muito mais à vontade nos papéis do Capitão Kirk e do comandante Spock, enquanto Simon Pegg e Karl Urban aproveitam as personalidades de Scotty e McCoy para funcionarem brilhantemente como alívios cômicos.

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Enquanto isso, John Cho faz história com uma correção sutil e necessária dentro de algo que sempre apostou na diversidade, Sofia Boutella (a moça das pernas de espada em Kingsman) surge como uma ótima adição para as cenas de ação e o recém-falecido Anton Yelchin mexe com as emoções do público justamente por ganhar mais destaque na sua última aparição. Infelizmente, na minha opinião, a Uhura de Zoe Saldana termina sendo subaproveitada e o vilão Idris Elba é prejudicado pela grande quantidade de próteses e maquiagem.

Apesar desses pequenos percalços que acontecem em toda jornada, Star Trek – Sem Fronteiras acerta em cheio e merece sua total atenção. É um longa que abre mão de reinventar a roda ou ser a melhor coisa do mundo para agradar os fãs hardcore, divertir qualquer espectador e explorar histórias inéditas nesse novo e já estabelecido universo. Certamente esse terceiro longa não vai até onde nenhum homem jamais esteve, entretanto coloca a franquia em lugar privilegiado: uma aventura especial digna, contemporânea e divertida como Star Trek merece ser.


OBS 1: Aquela cena da fotografia nos últimos minutos é de cortar o coração de qualquer fã. Bela homenagem!

OBS 2: O marido de Sulu aparece rapidamente em duas ou três cenas, sendo interpretado pelo também roteirista Doug Jung.


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