AODISSEIA
Filmes

Crítica: Sicário – Terra de Ninguém

26 de outubro de 2015 - 11:00 - Flávio Pizzol

A realidade nua e crua


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Uma das coisas mais legais do cinema é o quanto ele pode ser abrangente e acessível, incluindo todos os gêneros cinematográficos, idiomas e temas possíveis. Dentro de tudo isso, são vários os nomes que trabalham de maneira diversificada, sendo que alguns preferem trabalhar com aqueles filmes que funcionam como uma espécie de escape do nosso mundo corrido e outros gostam mais daqueles que jogam as merdas na cara sem dó nem piedade. Denis Villeneuve escolheu a segunda opção como seu local de trabalho e conseguiu chegar ao seu auge com esse Sicário.

O filme conta a história de Kate Macer (Emily Blunt), uma especialista em táticas anti-sequestro do FBI que é jogada de cabeça em uma missão para derrubar o cartel mexicano na fronteira com os EUA, tendo que lidar com dois homens misteriosos que não aparentam ter muita misericórdia, apego com as leis e, inclusive, confiança nela. A questão é que mexer com traficantes mexicanos nessas condições pode, além de ser muito perigoso, pode mudar toda a sua vida.

O roteiro, escrito pelo ator Taylor Sheridan em sua estréia na função, sabe construir toda essa história de maneira sublime, aproveitando ao máximo o ponto de vista de Kate para guiar o espectador. Assim não se preocupe quando você for simplesmente jogado sem nenhuma explicação dentro de um cenário desconhecido e cercado pela morte, porque isso faz parte da ótima proposta que força o público a prestar para ir, aos poucos, entendendo tudo através das descobertas da própria protagonista.

E por mais que ela seja uma das personagens com o plano de fundo mais simples do longa, o fato dela ainda acreditar nas leis e na eficiência do sistema é importante para fazer algum contraste com os outros dois protagonista, Matt e Alejandro. É isso que nos permite criar alguma conexão emocional com ela e, posteriormente, entender as motivações, desenvolvimentos e pontos de vistas de cada uma das peças posicionadas no tabuleiro.

Entretanto, o fator mais interessante desse roteiro está na maneira como ela aponta o dedo sem medo e joga a verdade na cara da maneira mais pesada e crua possível. E acreditem que não é uma tarefa fácil ver toda essa realidade extremamente violenta e, em muitos aspectos, bem parecida com a nossa realidade ser mostrada na tela, enquanto discute a forma como algumas situações mudam as pessoas e quais são os limites daquelas ações que são vendidas como heroicas. É um estudo ético e social que eu gosto de ver adaptado, principalmente quando consegue construir uma metáfora tão interessante (e, claro, de certa forma um pouco americanizada) de como a fronteira seria esse limite para uma terra sem lei.

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Para melhorar, a direção de Denis Villeneuve, que já entrou para a minha lista de favoritos depois dos ótimos Incêndios e Os Suspeitos, está acostumada com o trabalho de prender e chocar o espectador com essas situações, já que essas são algumas das temáticas que foram trabalhadas nos seus longas anteriores sob ângulos, estilos e idiomas diferentes. Não posso garantir se isso faz parte de alguma experiência pessoal, mas ele parece gostar de repetir esse estudo social para entender cada mudança e resultado diferente.

Ainda assim, o melhor do seu trabalho é que ele sabe dirigir cenas de tensão como poucos, focando sempre nos detalhes necessários para cortar o didatismo barato, acompanhando tudo de maneira próxima e controlando o ambiente para que essa pulga atrás da orelha só comece a coçar na hora certa para servir como um fator de surpresa. Com sua câmera planando com uma suavidade oposta as situações cercadas de violência, ele consegue trabalhar com muitos momentos que são um prato cheio para deixar o público em estado de alerta o tempo todo.

E tudo isso ainda é acompanhado por uma edição certeira de Joe Walker (12 Anos de Escravidão), uma trilha sempre tensa de Jóhann Jóhannsson (A Teoria de Tudo), uma das melhoras fotografias do ano – criada por Roger Deakins (parceiro eterno dos Irmãos Coen) – e um elenco mais do que sensacional, onde todos os protagonistas poderiam facilmente ganhar uma indicação justa ao Oscar pelo seus trabalhos aqui.

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Emily Blunt tem a mistura perfeita entre força e ingenuidade para mostrar que sabe o que está fazendo mesmo sem saber todos os motivos e objetivos. Josh Brolin também se destaca como um americano que já se acostumou com a violência de uma forma que o permite tratá-la com algum desleixo. E, por fim, ainda temos um Benicio Del Toro que sabe o que é ser ferido por essa realidade mortal e consegue passar isso com um único olhar.

No fim das contas, Sicário é um filme composto por uma temática interessante, diálogos que funcionam perfeitamente, um grande elenco e uma das direções mais maduras e fortes de Denis Villeneuve. Ainda me incomodo um pouco com a atenção dada ao policial mexicano e com os últimos minutos de filme, mas isso não pode ser o bastante para tirar os méritos de um longa que mostra a que veio, prende o espectador na ponta da poltrona por duas horas e ainda faz pensar sobre esse mundo em que nós vivemos.


 

OBS 1: Além das categorias de atuação, o longa tem boas chances em melhor filme, direção, roteiro original, trilha sonora e fotografia, onde Deakins pode finalmente ganhar depois de 12 indicações. Basta olhar a beleza dessa cena para entender o que estou dizendo…

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OBS 2: O futuro de Villeneuve promete muitas coisas boas, já que ele já está finalizando um filme de ficção-científica chamado Story of your Life, estrelado por Amy Adams, Jeremy Renner e Forest Whitaker, e ainda vai comandar a esperada continuação de Blade Runner. São boas chances dele traçar novos ângulos para essa questão do limite da violência e trazer de volta aquelas ficções científicas que se importam mais com o pensamento do que com a ação em si.