AODISSEIA
Séries

Crítica: Sense 8 – 2ª Temporada

8 de maio de 2017 - 09:00 - Tiago Soares

Desenvolvendo história e personagens de igual modo, série retorna mais madura


Na minha crítica do Especial de Natal, eu destaquei as duas coisas que mais amava em Sense 8, além de apontar uma que me desagradava. A primeira coisa que mais gosto são os personagens da série – eles são cativantes e cada núcleo funciona como um curta individual. Por exemplo – se você focar em Capheus, vai perceber que sua história tem uma pegada de aventura, a de Wolfgang de máfia, a de Sun uma trama de vingança, a de Lito uma dramédia, e por aí vai. A segunda coisa que mais gostei é quando esses personagens que eu aprendi a amar – se unem, e usam suas habilidades para ajudar uns aos outros – seja para invadir uma casa, lutar contra mafiosos ou numa cena de sexo grupal.

O erro que apontei na crítica do Especial, que a Netflix conta como o 1º episódio dessa segunda temporada, é o desenvolvimento da história. Quando focava em Sussurros, Jonas (Naveen Andrews) e consequentemente Will – o episódio de 2 horas perdia força, além de trazer mais perguntas que respostas. Esqueça isso nesta 2ª temporada – já que é incrível como Lana Wachowski (vale lembrar que não tivemos a participação de Lilly nesta temporada) e J. Michael Straczynski conseguem equilibrar história e personagens de maneira particular, sem deixar de lado nenhum dos dois. O público exigia respostas – mas a série sequer fazia perguntas. A primeira temporada serviu para apresentar e estabelecer os personagens – fazer com que você se importe com eles. É como se as Wachowskis e Straczynski nos apresentassem aqueles que iam nos guiar nessa jornada. Com todos devidamente em seus papéis, é hora de saber mais sobre eles – os sensates, ou como é dito nesta temporada, os homo sensorium e conhecer mais seu inimigo, além de outros grupos (chamados de clusters).

Sendo assim, cada personagem continua em seu dilema – a diferença é que os papéis se inverteram – já que numa sacada genial de roteiro, os sensates saem da condição de perseguidos e passam a perseguir Sussurros e a OBP. Vale lembrar que a primeira temporada abordava tudo como novo, um experimento – aqui todos já estão mais do que familiarizados com seus “poderes” e os usam sem precisar de uma conexão maior. É dado muito mais espaço ao vilão – e conhecemos mais da origem da OBP – assim como sua ligação com Angélica (Daryl Hannah) – além é claro de conhecer mais sobre o homo sensorium (termo científico que define os sensates, como uma evolução do homo sapiens). A semelhança com a franquia X-Men é muito bem vinda no sentido de aversão e estranhamento com uma espécie mais evoluída.

A ligação sensorial aumenta, mais também se mostra prejudicial em certos momentos – como na cena da prisão, em que Sun é quase morta, e todo seu sofrimento é sentido pelo seu cluster. Aliás, saber que existem outros clusters, e que existe um Google sensate chamado Arquipélago, é uma explosão de cabeça. Outra questão que chama a atenção é a rejeição sensate – já que todos recebem aquilo como um dom – mas nunca abordaram quem não tem o interesse em possuí-lo – algo mostrado de forma sutil este ano. Respostas foram dadas – mas não recomendo piscar enquanto elas estão sendo ditas – é muita informação e confesso que tive que voltar várias vezes o player para entender tudo. Sabe-se que existe o trigo no meio do joio que é a OBP – e que a mesma está disposta a resgatar valores morais antigos – tornando assim a figura de Sussurros muita mais ameaçadora. Aliás Terrence Mann dá um show em cada cena que aparece.

Mas, como disse anteriormente, nem só a história principal se move – a individual também ganha espaço. Will (Brian J. Smith) e Riley (Tuppence Middleton) continuam cada dia mais determinados, mostrando que a melhor defesa é o ataque – aliás, Will sofre uma grande perda nesta temporada – numa das cenas mais bem fotografadas da série. Capheus tem um impressionante destaque e importância para o lugar aonde vive, e Toby Onwumere é um achado substituindo Aml Ameen, o ator esbanja muito mais carisma e presença de cena.  Kala (Tina Desai) traz um elemento a mais ao seu triângulo, (agora quarteto?) amoroso – a moça continua confusa – mas vai além disso e se vê envolvida em uma trama de investigação da empresa de seu marido Rajan (Purab Kohli). Sua química com Wolfgang continua uma das melhores coisas da série, e ambos, junto de Capheus, sustentam a melhor cena de sexo da temporada, que aliás – não tem muito sexo. Wolf (Max Riemelt) tem uma das melhores tramas, já que conhecemos outro cluster – com direito a uma nova sensate muito sexy – através dele. A cena de luta no bar (que teve parte dela liberada no último trailer da temporada) – é uma das melhores coisas que Lana e J. Michael nos proporcionam).

Nesta temporada – a direção – em parceria com a montagem e a fotografia particular de cada lugar são muito mais grandiosas. A parte técnica da série é um show a parte – e o design de produção traz uma boa dose de realismo, principalmente nas cenas de protesto – que ocorrem simultaneamente em Nairóbi e Mumbai. Lito (Miguel Ángel Silvestre) é quem tem uma das tramas mais interessantes e foca bastante na representatividade. Tentando reaver sua carreira, o rapaz ao lado de Daniela (Eréndira Ibarraque surge como uma coadjuvante de luxo) e Hernando (Alfonso Herrerabem mais passivo e com menos texto nessa temporada), vive entre o drama, quando sofre preconceito vendo sua carreiro desabar e a comédia quando interage com outros sensates. A cena gravada na Parada do Orgulho Gay em SP traz um discurso incrível, que parece improvisado – uma pena a expectativa ser grande pra poucos minutos de cena.

Sua parceria com Sun, rende cenas hilárias que vão além dos sintomas da mestruação e TPM da primeira temporada. Mesma Sun que tem o melhor arco e ganha mais tempo de tela, se tornando assim particularmente minha sensate favorita. Ela sai da prisão, com o objetivo de se vingar do irmão, e todo seu caminho até lá é cheio de complicações, novas alianças e até amores. Doona Bae vai tão bem, que ganhou a primeira metade da frenética season finale inteira pra ela. Nomi, se torna uma solução deus ex machina – bem vinda sempre que necessário. Ao lado de Amanita (Freema Agyemanoutra que rouba a cena inúmeras vezes) e Bug (Michael X. Sommerso personagem que tem o melhor humor dessa temporada) – Nomi tenta driblar o preconceito da família ao mesmo tempo que é parte importante da trama na luta contra a OBP. Jamie Clayton que é transexual, protagoniza a cena do casamento da irmã – responsável por fazer o escritor deste texto chorar. É interessante notar que a história de cada um dos oito protagonistas é organicamente entrelaçada com a principal.

Com cada episódio terminando com um cliffhanger, fica difícil não maratonar Sense 8. Finalizando com um baita gancho em seu final, torcemos pra que Lana Wachowski e J. Michael Straczynski não demorem quase 2 anos para nos presentear com uma terceira temporada – que não precisa superar a segunda – se continuar no mesmo nível – a legião de fãs apaixonados só tem a crescer. Trazendo novas interações, formando duplas improváveis como Kala e Will – e limitando o controle a apenas 4 diretores: Lana Wachowski, James McTeigueTom Tykwer e Dan Glass – Sense 8 retorna como um filho crescido que aprendeu com seus erros, sem perder a magia. Alguns podem acusar a série de novelesca e extremamente contemplativa – o que não é uma mentira. É só se deixar levar pela trilha sonora incisiva e se conectar com seu cluster.