AODISSEIA
Séries

Crítica: Sense 8 – 2ª Temporada

Desenvolvendo história e personagens de igual modo, série retorna mais madura. (Texto Publicado originalmente no dia 08 de maio de 2017)

14 de junho de 2018 - 15:00 - Tiago Soares

Na minha crítica do Especial de Natal, eu destaquei as duas coisas que mais amava em Sense 8, além de apontar uma que me desagradava. A primeira coisa que mais gosto são os personagens da série – eles são cativantes e cada núcleo funciona como um curta individual. Por exemplo – se você focar em Capheus, vai perceber que sua história tem uma pegada de aventura, a de Wolfgang de máfia, a de Sun uma trama de vingança, a de Lito uma dramédia, e por aí vai. A segunda coisa que mais gostei é quando esses personagens que eu aprendi a amar – se unem, e usam suas habilidades para ajudar uns aos outros – seja para invadir uma casa, lutar contra mafiosos ou numa cena de sexo grupal.

O erro que apontei na crítica do Especial, que a Netflix conta como o 1º episódio dessa segunda temporada, é o desenvolvimento da história. Quando focava em Sussurros, Jonas (Naveen Andrews) e consequentemente Will – o episódio de 2 horas perdia força, além de trazer mais perguntas que respostas. Esqueça isso nesta 2ª temporada – já que é incrível como Lana Wachowski (vale lembrar que não tivemos a participação de Lilly nesta temporada) e J. Michael Straczynski conseguem equilibrar história e personagens de maneira particular, sem deixar de lado nenhum dos dois. O público exigia respostas – mas a série sequer fazia perguntas. A primeira temporada serviu para apresentar e estabelecer os personagens – fazer com que você se importe com eles. É como se as Wachowskis e Straczynski nos apresentassem aqueles que iam nos guiar nessa jornada. Com todos devidamente em seus papéis, é hora de saber mais sobre eles – os sensates, ou como é dito nesta temporada, os homo sensorium e conhecer mais seu inimigo, além de outros grupos (chamados de clusters).

Sendo assim, cada personagem continua em seu dilema – a diferença é que os papéis se inverteram – já que numa sacada genial de roteiro, os sensates saem da condição de perseguidos e passam a perseguir Sussurros e a OBP. Vale lembrar que a primeira temporada abordava tudo como novo, um experimento – aqui todos já estão mais do que familiarizados com seus “poderes” e os usam sem precisar de uma conexão maior. É dado muito mais espaço ao vilão – e conhecemos mais da origem da OBP – assim como sua ligação com Angélica (Daryl Hannah) – além é claro de conhecer mais sobre o homo sensorium (termo científico que define os sensates, como uma evolução do homo sapiens). A semelhança com a franquia X-Men é muito bem vinda no sentido de aversão e estranhamento com uma espécie mais evoluída.

A ligação sensorial aumenta, mais também se mostra prejudicial em certos momentos – como na cena da prisão, em que Sun é quase morta, e todo seu sofrimento é sentido pelo seu cluster. Aliás, saber que existem outros clusters, e que existe um Google sensate chamado Arquipélago, é uma explosão de cabeça. Outra questão que chama a atenção é a rejeição sensate – já que todos recebem aquilo como um dom – mas nunca abordaram quem não tem o interesse em possuí-lo – algo mostrado de forma sutil este ano. Respostas foram dadas – mas não recomendo piscar enquanto elas estão sendo ditas – é muita informação e confesso que tive que voltar várias vezes o player para entender tudo. Sabe-se que existe o trigo no meio do joio que é a OBP – e que a mesma está disposta a resgatar valores morais antigos – tornando assim a figura de Sussurros muita mais ameaçadora. Aliás Terrence Mann dá um show em cada cena que aparece.

Mas, como disse anteriormente, nem só a história principal se move – a individual também ganha espaço. Will (Brian J. Smith) e Riley (Tuppence Middleton) continuam cada dia mais determinados, mostrando que a melhor defesa é o ataque – aliás, Will sofre uma grande perda nesta temporada – numa das cenas mais bem fotografadas da série. Capheus tem um impressionante destaque e importância para o lugar aonde vive, e Toby Onwumere é um achado substituindo Aml Ameen, o ator esbanja muito mais carisma e presença de cena.  Kala (Tina Desai) traz um elemento a mais ao seu triângulo, (agora quarteto?) amoroso – a moça continua confusa – mas vai além disso e se vê envolvida em uma trama de investigação da empresa de seu marido Rajan (Purab Kohli). Sua química com Wolfgang continua uma das melhores coisas da série, e ambos, junto de Capheus, sustentam a melhor cena de sexo da temporada, que aliás – não tem muito sexo. Wolf (Max Riemelt) tem uma das melhores tramas, já que conhecemos outro cluster – com direito a uma nova sensate muito sexy – através dele. A cena de luta no bar (que teve parte dela liberada no último trailer da temporada) – é uma das melhores coisas que Lana e J. Michael nos proporcionam).

Nesta temporada – a direção – em parceria com a montagem e a fotografia particular de cada lugar são muito mais grandiosas. A parte técnica da série é um show a parte – e o design de produção traz uma boa dose de realismo, principalmente nas cenas de protesto – que ocorrem simultaneamente em Nairóbi e Mumbai. Lito (Miguel Ángel Silvestre) é quem tem uma das tramas mais interessantes e foca bastante na representatividade. Tentando reaver sua carreira, o rapaz ao lado de Daniela (Eréndira Ibarraque surge como uma coadjuvante de luxo) e Hernando (Alfonso Herrerabem mais passivo e com menos texto nessa temporada), vive entre o drama, quando sofre preconceito vendo sua carreiro desabar e a comédia quando interage com outros sensates. A cena gravada na Parada do Orgulho Gay em SP traz um discurso incrível, que parece improvisado – uma pena a expectativa ser grande pra poucos minutos de cena.

 

Sua parceria com Sun, rende cenas hilárias que vão além dos sintomas da mestruação e TPM da primeira temporada. Mesma Sun que tem o melhor arco e ganha mais tempo de tela, se tornando assim particularmente minha sensate favorita. Ela sai da prisão, com o objetivo de se vingar do irmão, e todo seu caminho até lá é cheio de complicações, novas alianças e até amores. Doona Bae vai tão bem, que ganhou a primeira metade da frenética season finale inteira pra ela. Nomi, se torna uma solução deus ex machina – bem vinda sempre que necessário. Ao lado de Amanita (Freema Agyemanoutra que rouba a cena inúmeras vezes) e Bug (Michael X. Sommerso personagem que tem o melhor humor dessa temporada) – Nomi tenta driblar o preconceito da família ao mesmo tempo que é parte importante da trama na luta contra a OBP. Jamie Clayton que é transexual, protagoniza a cena do casamento da irmã – responsável por fazer o escritor deste texto chorar. É interessante notar que a história de cada um dos oito protagonistas é organicamente entrelaçada com a principal.

Com cada episódio terminando com um cliffhanger, fica difícil não maratonar Sense 8. Finalizando com um baita gancho em seu final, torcemos pra que Lana Wachowski e J. Michael Straczynski não demorem quase 2 anos para nos presentear com uma terceira temporada – que não precisa superar a segunda – se continuar no mesmo nível – a legião de fãs apaixonados só tem a crescer. Trazendo novas interações, formando duplas improváveis como Kala e Will – e limitando o controle a apenas 4 diretores: Lana Wachowski, James McTeigueTom Tykwer e Dan Glass – Sense 8 retorna como um filho crescido que aprendeu com seus erros, sem perder a magia. Alguns podem acusar a série de novelesca e extremamente contemplativa – o que não é uma mentira. É só se deixar levar pela trilha sonora incisiva e se conectar com seu cluster.