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Crítica: Rogue One – Uma História Star Wars

15 de dezembro de 2016 - 16:54 - Flávio Pizzol

Eu estou com a Força e ela está em Gareth Edwards


A marca Star Wars é um case de sucesso em vários áreas da comunicação, mas eu acredito que sua presença mais relevante seja nos estudos sobre narrativa transmidiática de Henry Jenkins. O universo imaginado por George Lucas desde a sua infância começou no cinema na década de 70 e foi conquistando um número cada vez maior do fãs nos quadrinhos, nos romances, nos games, nas animações e em tantas outras mídias. Sempre mantendo o mínimo de coesão obrigatória e abordando certos espaços em branco que só eram citados na saga da família Skywalker.

É justamente em um desses espaços entre o episódios III e IV que está Rogue One, o primeiro de uma série antológica que ainda pode explorar uma quantidade enorme de histórias parcialmente desconhecidas. Nesse caso, o longa acompanha a reunião entre a Aliança Rebelde e a jovem fugitiva Jyn Erso com o objetivo de roubar os planos de construção da Estrela da Morte. Essa é a única forma de encontrar uma armadilha plantada pelo cientista responsável (e pai da moça) para garantir a destruição total da arma.

Esse clima de urgência, dominação quase total do Império e falta de esperança por parte da Aliança são os principais ingredientes na construção daquele que deve ser o filme mais particular e sombrio de toda franquia. O roteiro – escrito por Chris Weitz (Um Grande Garoto) e Tony Gilroy (O Ultimato Bourne) – deixa de lado o espírito de aventura que sempre marcou os outros filmes e se apropria de uma estrutura narrativa comum aos grandes filmes de guerra, injetando política, piadas pontuais e a dose certeira de tensão a uma jornada que já possui um final pré-definido.

Ao mesmo tempo, Rogue One não deixa de ter a cara de Star Wars em nenhum momento. As criaturas criadas com maquiagem e efeitos práticos são maravilhosas, as batalhas espaciais para destruir um escudo não ficam de fora e as referências tomam conta de uma história que já é um grande easter egg por si só. São citações que aquecem os corações dos fãs, aparições inesperadas de personagens clássicos, atores mortos ressuscitados por computação gráfica e uma aparição de Darth Vader que me deixou entre a excitação, o choro e o medo.

Rogue One: A Star Wars Story<br /> Darth Vader<br /> Photo credit: Lucasfilm/ILM<br /> ©2016 Lucasfilm Ltd. All Rights Reserved.

Essa combinação só funciona por que a direção madura e afiada de Gareth Edwards (Godzilla) consegue equilibrar seu próprio estilo com a alegria de fã que deve ter marcado cada etapa da produção. Ele tem muita segurança no que está fazendo, comanda as cenas de batalha com uma energia incrível e comprova mais uma vez que entende de destruição e catarse como poucos. Assim como no seu trabalho com o monstro japonês, as câmeras apresentam os AT-AT através do ponto de vista humano, a tela é invadida inúmeras vezes por poeira ou areia e os quinze minutos finais incendeiam o público de uma forma que nem o Despertar da Força conseguiu fazer.

Apesar de não sofrer com o maniqueísmo graças a dubiedade da guerra, o filme perde um pouco da sua força por causa de personagens que não funcionam individualmente ou não possuem a união necessária como grupo. Os protagonistas até conseguem prender a atenção em momentos específicos, mas Felicity Jones (A Teoria de Tudo) e Diego Luna (O Terminal) parecem estar sempre brigando contra algo que os impede de serem efetivamente cativantes. Enquanto isso, o vilão interpretado pelo sempre ótimo Ben Mendelsohn (Bloodline) é um burocrata imponente que apenas cumpre sua função, preparando o caminho para alguém com muito mais presença de cena.

A nossa sorte é que os coadjuvantes dão conta do recado e criam uma intimidade muito maior com o espectador, seja através do alivio cômico, da crença na Força ou da vontade de sobreviver quando o ótimo terceiro ato começa. A cena da praia – que já nasceu clássica – entrega o peso que a guerra tem para cada um dos personagens e os destinos do androide K-2SO (Alan Tudyk), Chirrut (Donnie Yen), Baze (Wen Jiang) e Bodhi (Riz Ahmed) ganham contornos de heroísmo e emoção que salvam uma parcela do filme até seu verdadeiro e surpreendente clímax.

Ainda assim, Rogue One termina como um dos melhores longas da franquia após a nova trilogia. Funciona como uma produção de guerra bastante brutal, entrega todas as referências que os fãs querem para completar o espaço em branco anterior ao filme original e ainda faz o cinema explodir com um dos finais mais poderosos e catárticos do ano. Aceito que a primeira metade não consiga ser necessariamente memorável e o fator humano de alguns personagens fique abaixo do esperado, mas também deixo avisado que nada disso importa quando os créditos sobem de forma arrebatadora e tranquilizante.


OBS 1: O filme tem uma cena pós-créditos muito grande que se chama Uma Nova Esperança! #pas

OBS 2: Algum novato ainda tem dúvida de que Darth Vader é um dos maiores vilões da história do cinema?

OBS 3: George Lucas se inspirou em muitas cenas de batalha na Segunda Guerra Mundial e Gareth Edwards honrou a tradição aqui. A batalha da praia então é praticamente uma Invasão da Normandia