AODISSEIA
Filmes

Crítica: Que Horas Ela Volta?

21 de setembro de 2015 - 14:00 - Flávio Pizzol

que horas ela volta FINAL

Em termos de história, Que Horas Ela Volta? é um filme bem comum dentro do que é produzido no cinema nacional e, mesmo sem merecer, passaria despercebido pelo público. Mas a boa recepção no Festival de Berlim, premiações em Sundance e a pré-indicação ao Oscar fizeram com que o filme se tornasse o novo orgulho nacional. Então, sorte a nossa que isso aconteceu, porque assim o longa pode ter o reconhecimento que merece pela sua ótima direção, atuações surpreendentes e construção crítica necessária.

O filme, escrito e dirigido por Anna Muylaert, conta a história de Val, uma empregada doméstica que, há dez anos, deixou sua filha no Nordeste para ganhar a vida na casa de uma família de classe média-alta de São Paulo. Tudo anda dentro de esperado até que a filha chega na capital paulista para prestar vestibular em uma das faculdades mais conceituadas do país e acaba colocando em cheque toda a arrumação social da casa.

Mesmo sem ser inovador ou complexo, o roteiro do longa é muito bem resolvido e sabe onde posicionar cada aspecto importante dentro dos seus 108 minutos de duração. Anna consegue fazer uma apresentação bem conduzida e funcional dos personagens para depois conduzir a história de forma leve com uma balanço bem sutil entre a comédia e o drama e, finalmente, concluir tudo como se estivéssemos vendo um ciclo bem amarrado dentro da atualidade brasileira e da própria história.

Inclusive os estereótipos bem definidos e caricaturais tem o seu lugar correto dentro da trama, sendo representado pela família dos patrões. São aspectos que soam batidos, mas que são importantes para apresentar toda essa relação familiar extremamente falsa entre patrões e empregados que só pode ser mantida se esses últimos não ultrapassarem certas barreiras.  Assim, quando Jéssica contesta esses limites sociais impostos e derruba algumas máscaras, Anna consegue construir uma ótima critica social e gerar algum incômodo sem perder todo aquele contexto leve que vinha sendo criado.

Infelizmente, o roteiro não consegue ser perfeito por conta de alguns aspectos muito novelescos (resquício da produção da Globo Filmes) e algumas histórias paralelas mal desenvolvidas que não se encaixam em nenhum momento da amarração final. O grande exemplo para esses dois casos está na estranha relação entre Carlos e Jéssica, que ocupa espaço de tela com uma tensão sexual desnecessária e vazia.

Entretanto, mesmo esses momentos são bem representados por uma direção firme que sabe criar planos belíssimos, valorizar o momento e extrair muito significado do pouco. Contando com muitos planos fixos (geralmente bem longos), Muylaert consegue traduzir tudo o que o roteiro quis passar em imagens repletas de simbolismos, como a cena de Val na piscina, a metáfora do rato e os repetitivos planos no corredor vazio e na porta que separa as classes sociais.

Ao mesmo tempo, essa criação dos sentidos se apoia bastante no ótimo elenco, que é repetidamente exigido na várias cenas que não possuem cortes. Nesse aspecto, o destaque do filme fica quase todo para Regina Casé e Camila Márdila. A primeira me surpreendeu muito com a criação de uma personagem completamente afastada dos estereótipos nordestinos através de uma atuação natural, sensível e totalmente sincera, enquanto a segunda demonstra grande segurança e desenvoltura na construção de uma menina ambiciosa que guarda um grande sofrimento ligado a maternidade.

No núcleo mais caricatural dos patrões o destaque fica todo em Karine Teles e sua patroa que vai ganhando contornos de madrasta da Cinderela no decorrer do filme. Todos ali são bons atores, mas, enquanto ela sofre por motivos fúteis e ganha mais material para se desenvolver, Lourenço Mutarelli fica restrito ao romance vazio e Michel Joelsa tem que lidar com um personagem que só cresce ali no finalzinho por ser importante para fechar o ciclo que liberta Val.

Que Horas Ela Volta? é um filme que teria total potencial para ser perfeito, se não derrapasse um pouquinho no roteiro e no aproveitamento de alguns membros do elenco. Mas ainda assim é um filme bonito e muito bem realizado que marca pela sua dupla de protagonista e pela sua critica social contundente que fica ainda mais forte quando é levada para fora dos muros de uma única casa chique de São Paulo.


OBS 1: Nunca achei que fosse viver para torcer por Regina Casé no Oscar…


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