AODISSEIA
Filmes

Crítica: Quase 18

4 de Fevereiro de 2017 - 10:00 - Tiago Soares

O manual definitivo da adolescência feminina atual


Nos últimos anos estamos lotados de filmes que mostram jovens desajustados tentando seu lugar ao sol, sendo a maioria focada em homens, como Superbad (o melhor filme desse subgênero), Vizinhos, Finalmente 18 e Projeto X. O lado feminino até ganhou alguns filmes, mas a maioria deles focava mais no besteirol americano ou explorava a sexualidade das moças. A Mentira e o recente Vizinhos 2 conseguiram ir além dessa questão, quebrando muitos tabus e levantando questões, além de serem filmes bastante engraçados.

Quase 18 consegue ser engraçado por si só, considerando que não há doses de sedução na protagonista vivida por Hailee Steinfeld e a maioria das piadas são organicamente engraçadas. The Edge of Seventeen (no original) conta a história de Nadine, uma jovem que não se encaixa em nada, se acha analógica demais pra um mundo digital demais (algo dito em um bela sequência de desabafo), se veste mal para os padrões da idade e tem uma má relação com a mãe, além de uma superficial com o irmão. 

Além disso sua única melhor amiga Krista, se interessa pelo seu irmão perfeito, e eles começam a namorar, deixando Nadine sozinha e ainda mais deslocada em seu mundo. Não há novidade em tudo que cerca a jovem, os pensamentos e atitudes impulsivas de uma adolescente estão aqui, assim como também o seu lado melodramático, se achando o centro do mundo. A mãe infantil (Kyra Sedgwick), o amor platônico (Alexander Calvert), o interesse amoroso que ela não dá bola (Hayden Szeto), a melhor amiga com tudo em comum (Haley Lu Richardson) e o irmão melhor em tudo (vivido pelo ótimo Blake Jenner) são alguns dos elementos presentes aqui e em muitos outros filmes. 

A diferença é que a diretora e roteirista Kelly Fremon Craig não deixa seus personagens unidimensionais. Em seu filme de estreia, ela explora muito a ambiguidade de todos, que roubariam a cena se a Nadine de Hailee Steinfeld não estivesse praticamente impecável. A atriz, merecidamente indicada ao Globo de Ouro desse ano, entrega uma das melhores performances de sua “pequena” carreira, apresenta uma certa mistura de sensualidade impensada e, quanto mais tenta afastar a todos, acaba aproximando-os.

Sua relação com o professor Bruner é uma das melhores coisas do filmes. Sutil, Woody Harrelson (Jogos Vorazes – Em Chamas) entrega um professor irônico, que parece sempre chateado, mas é cercado de carisma já na primeira cena. Os dois tem química em cena e entregam os momentos mais engraçados. Aliás Quase 18, não é aquele filme que vai te fazer gargalhar, o humor funciona justamente por não querer forçar isso, todos os risos acontecem naturalmente e você nota bem depois que está rindo de um piada que não envolve peitos, bunda ou genitália.

Com bons personagens, e uma história contada de maneira fluída, Quase 18 encontra seu erro apenas quando resolve estender demais questões envolvendo todos os personagens ao redor de Nadine. É como se a maioria deles funcionasse melhor sozinho, já que quando se unem no clímax, o filme ganha 15 minutos a mais que não precisavam existir. Fora isso, este é um filme feito exclusivamente para adolescentes que ainda não sabem o que fazer e para mostrar que não estão sozinhos. A depressão, ansiedade e sensação de urgência estão presentes e são o mal dessa geração. É um filme para ser visto por todos, pois todos somos parentes, amigos, conhecidos ou já fomos adolescentes.