AODISSEIA
Filmes

Crítica: Power Rangers (2017)

24 de Março de 2017 - 09:33 - Tiago Soares

Muito além da nostalgia


Nostalgia. Podemos dizer que esta é a palavra do momento. São inúmeros os remakes, reboots e continuações que vêm saindo nos últimos anos, as vezes sem nem sequer serem pedidos. É o caso de Power Rangers, série de sucesso nos anos 90, com dois filmes duvidosos no currículo (1995 e 1997), produto que era da Saban, baseado no fenômeno japonês , os Super Sentai, que passou pelas mãos da Disney e agora volta para sua empresa de origem. Nada mais justo que a Saban queira que seus personagens de maior sucesso retornem ao cinema, pegando carona na onda dos filmes de super-heróis. Pra isso se uniu a outra empresa que deseja um novo produto juvenil, a Lionsgate, que já foi dona de sucessos como Crepúsculo, Jogos Vorazes e o nem tanto sucesso assim, Divergente.

Apoiado na nostalgia, fui assistir Power Rangers. Sou daquelas pessoas que acredita que um boa sessão de cinema pode mudar sua opinião sobre um filme. Na nostalgia novamente, tentei repetir ao máximo momentos da infância, antes de ver o filme. Peguei a sessão que tinha o horário mais cedo, perto do almoço, a mesma hora que via os episódios, e apesar de preferir qualquer filme em sua linguagem original, assisti dublado. Com muitas crianças na sala, fiquei com receio do que fariam na nova adaptação. Seria o filme sombrio demais para os pequenos? Bobo demais para os adultos? Os fãs estavam divididos. Alguns queriam algo mais sério e pautado na realidade, outros a galhofa da série, com poses, faíscas e explosões. Felizmente a nova versão de Power Rangers consegue ser os dois.

Acompanhamos a história de Jason (Dacre Montgomery), Billy (RJ Cyler), Kimberly (Naomi Scott), Zack (Ludi Lin) e Trini (Becky G.), jovens completamente deslocados no mundo, cada um vivendo seus dramas pessoais, que se encontram em uma pedreira e acham as moedas do poder, uma de cada cor, e as dividem entre si. Percebendo que depois do incidente eles não são mais os mesmos, pretendem ir fundo e descobrir mais sobre o que está acontecendo. É aí que conhecem o carismático Alpha 5 (voz de Bill Hader) e Zordon (Bryan Cranston), que diz que eles são os Power Rangers e cabe ao mesmos salvar o universo. Desde o início tudo é pautado no destino, tanto os jovens no mesmo lugar e na mesma hora, como o despertar da vilã do filme, Rita Repulsa (Elizabeth Banks), após milhões de anos.

O filme se inicia em um incrível prólogo na Era Cenozoica, confirmando duas teorias do fãs (que não citarei aqui para evitar spoilers), mas o que impressiona é o roteiro escrito por John Gatins (Gigantes de Aço), que prefere pautar o filme nos personagens, desenvolvendo-os de forma excelente. É praticamente o que a FOX fez com o novo Quarteto Fantástico, só que o resultado não chega nem perto do horrível filme citado. Os personagens são bem escritos _ uns até mais que os outros _ mas mesmo assim, é possível enxergar a frustração em cada um deles. Apesar de terem problemas diferentes _ sendo alguns até bobos, beirando o drama adolescente _ todos são tratados com igualdade.

O quarterback que foi expulso do time, o nerd com transtorno do espectro autista, a ex-cheerleader que decepcionou as amigas, o maluco que cuida da mãe doente e a deslocada que tem medo de sair do armário para a própria família. Estamos diante de uma espécie de Clube dos Cinco moderno, algo refletido na química entre os protagonistas _ com total destaque a RJ Cyler (Ranger Azul) e Naomi Scott (Ranger Rosa), que roubam a cena _ a última tem tudo para roubar o coração dos nerds, assim como a Kimberly original. A direção é de Dean Israelite (do bom Projeto Almanaque), que praticamente repete o que fez no filme anterior, tanto na interação entre todos, como em planos detalhe no rosto do atores. É como se Dean visse o mundo a sua volta através da tensão de cada expressão. Tensão vista no prólogo e num belo plano sequência dentro de um carro, muito bem casada com a fotografia de Matthew J. Lloyd (primeiro temporada de Demolidor). O fotógrafo brinca com as cores de cada ranger, algo que na série estava explícito nas cores de roupas que usavam, aqui pode ser vista em pequenos detalhes e na iluminação.

Se a intenção era criar um mundo palpável, não sombrio, mas real, a nova versão obteve êxito. Não estamos diante dos jovens rasos e perfeitos da série _ que funcionavam naquela época _ mas de problemas que podem muito bem existir. Por exemplo, na batalha final com o monstro, os Power Rangers sempre lutavam afastados da cidade, na pedreira, aqui a luta é na cidade, as pessoas correm e lutam por suas vidas em Alameda dos Anjos. Talvez o ponto mais fora da realidade seja a vilã Rita, com uma atuação bem caricata, mas imponente, Elizabeth Banks parece a vontade na pela da vilã, cheia de frases ameaçadoras, mas atitudes bem idiotas e galhofas. Aliás, o diretor abusa bastante da câmera lenta nas poucas cenas de luta, principalmente as que envolvem Rita, uma clássica homenagem ao material de origem.

A trilha sonora também é atualizada, indo de Kanye West à uma bela e modernizada versão de Stand By Me, em uma cena emocionante (uma lágrima caiu, confesso). O humor funciona, sem precisar dos amados/odiados Bulk e Skull _ sendo Billy o principal engraçadinho da turma, sobrando também pra Zack (que faz uma das piadas mais engraçadas). As referências e easter eggs não são poucos e vão desde as 3 regras principais para ser um ranger, até a aparição de dois personagens queridos da série clássica. Sobra até uma piada para a ranger amarela, que nas cenas de pós morfagem na primeira temporada da série, era vivida por um homem.

Já o Zordon de Bryan Cranston não é tão carismático como o original, cobrando demais dos rangers, que vale lembrar, ainda não são rangers, e aí está uma das maiores virtudes desta nova versão. Morfar, não é tão fácil. Virou uma espécie de merecimento, de interação com a equipe. E apesar de algumas frases bem piegas em uma cena na fogueira, estreitar os laços foi necessário para que todos seguissem em frente. É como se todos as áreas da vida tivessem que andar em harmônia, para que as coisas aconteçam _ nesse caso _ para o verdadeiro poder ser liberado. Mas infelizmente, após a morfagem, a produção cai um pouco.

Tivemos basicamente 90% do filme para nos ligar emocionalmente com os adolescentes, e isso aconteceu, criamos um vínculo. Mas assim que a batalha final começa, com efeitos aceitáveis, mas um pouco duvidosos _ principalmente no design dos zords _ nossa ligação é cortada pela fraca relação dos rangers com seus zords e a falta de batalhas corporais. O inimigo chega e imediatamente os zords são chamados (ao som de Go Go Power Rangers) _ mas se você não viu a série original, ficará um pouco perdido na mitologia. Há uma pequena cena de luta terrena, mas não é suficiente para nos fazer vibrar. E isso é irônico num filme chamado Power Rangers.

Com doses cavalares de nostalgia, e uma atualização bem vinda _ Power Rangers funciona como um episódio piloto de 2 horas capaz de prender a atenção dos fãs com inúmeros fã services e conquistar a nova geração que carece de uma nova franquia. E se você ficou na sala durante os créditos, sabe que um tal personagem chegou para fazer isso acontecer.


Obs: Como disse, assisti ao filme dublado, e algumas falas de Alpha 5 e dos rangers na armadura estavam um pouco inaudíveis, se você viu legendado e está da mesma forma, deixe um comentário.