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Filmes

Critica: Porta dos Fundos – Contrato Vitalício

4 de julho de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

Muito menos do que o Porta poderia fazer…


portafundoscontratovitalicio23marO Porta dos Fundos chegou na internet como um furação, alcançou o status de fenômeno muito rápido e já ultrapassou vários limites com os 12 milhões de inscritos que não perdem um vídeo. Claro que a internet não seria o limite para um grupo tão diversificado que sabe usar os vários tipos de humor com muita destreza e, depois do ótimo O Grande Gonzalez estrear na televisão, o cinema seria obviamente o próximo alvo. Mas infelizmente Contrato Vitalício poderia ser muito melhor.

E digo isso tendo plena noção de que a premissa é muito boa. Ela segue um diretor e um ator que assinam um contrato para sempre participarem dos projetos um do outro após vencerem o Festival de Cannes com seu filme de estréia. O problema é que o diretor, Miguel, some e retorna dez anos depois pronto para fazer um filme horroroso sobre o período em que foi escravizado pelos aliens do centro da terra.

Apesar de demorar muito tempo para explicar tudo que já estava resumido no trailer, esse seria um ótimo ponto de partida para envolver o público com criticas ao mundo do entretenimento. O roteiro, escrito por Fábio Porchat e Gabriel Esteves, até consegue contar a história com vários tipos diferentes de humor, criar algumas piadas realmente divertidas e encerrar com um final muito bom, mas acaba perdendo a mão ao resumir a parte mais inteligentes a personagens caricatos e exagerados, que cansam depois de algumas piadas repetidas.

Certos momentos, como a ótima brincadeira com as inserções publicitárias, ainda mostram que eles sabem tirar sarro dessa indústria em todos nós estamos inseridos, entretanto ainda falta aquela acidez que marca boa parte das esquetes produzidas para o Youtube. Claro que eles não precisavam fazer algo extremamente político, mas seria muito interessante e produtivo ter dividido um pouco mais o tempo de tela entre piadas idiotas, momentos escatológicos e comentários sociais.

Além disso, o roteiro também deixa a desejar no ritmo do seu desenvolvimento e na inexistência de alguma ousadia cinematográfica. Ainda que não seja formado por várias esquetes pensadas para a internet, o longa é uma grande esquete de 100 minutos de duração que não consegue prender o espectador por muito tempo, desenvolver o arco emocional do seu protagonista, dar espaço para o mistério sobre Miguel e, principalmente, utilizar as possibilidades estéticas proporcionadas pelo filme dentro do filme. Tudo não passa de pequenas referências e ideias jogadas que soam extremamente artificiais quando ganham importância no terceiro ato, inclusive na ótima cena final.

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Também é nesse aspecto que o diretor Ian SBF poderia ter apostado em uma direção mais firme e inventiva. Ele mostra que sabe controlar a câmera, escolher enquadramentos e fazer ótimos planos-sequência, mas perde várias chances de abusar do verdadeiro potencial do cinema. Faltou fugir dos ângulos, dos macetes e dos cortes típicos da internet. Infelizmente, faltou um pouquinho daquele diretor que usava até os reflexos no vidro para passar mensagens no ótimo Entre Abelhas.

Pelo menos, ele conta com um grupo de atores que já se conhecem há muito tempo, possuem uma química fora do normal e deixam claro que estão se divertindo no set. E é justamente essa grande reunião entre amigos que trabalham (ou já trabalharam) no Porta dos Fundos que acaba sendo o maior ponto positivo do longa, mesmo com os diálogos esdrúxulos e os tipos exagerados até o limite. Fábio Porchat, Gregório Duvivier, Luis Lobianco, Antônio Tabet, Thati Lopes, Rafael Portugal e Júlia Rabello conseguem se destacar e até arrancar alguma risada de um ou outro espectador.

E, infelizmente (pela terceira vez), é só isso. Contrato Vitalício é um filme mediano, que escorrega no roteiro, não consegue se desprender da estética da internet e acaba decepcionando muito quem gosta do Porta dos Fundos e sabe do talento deles. Eu tenho certeza que eles poderiam ter feito muito mais para subverter os gêneros e mexer com a comédia brasileira, mas ainda posso usar uma coisa que me falaram na saída da sessão para recomendar o filme: “é um bom filme para a quarta à tarde, aproveitando o ingresso mais barato para mostrar que já está de férias”. Talvez seja isso mesmo.


 

OBS 1: O filme tem muitas participações especiais de famosos e todas são completamente inúteis. Divertidas talvez, mas inúteis.

OBS 2: O melhor personagem do filme é o glorioso Gilmar, interpretado pelo genial Alexandre Ottoni.

OBS 3: Antes de Contrato Vitalício, eu assisti Procurando Dory e atingi a nobre marca de dois filmes seguidos com Antônio Tabet e Marília Gabriela.


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