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Filmes

Critica: Ponte dos Espiões

3 de novembro de 2015 - 13:00 - Flávio Pizzol

É certo afirmar que todo cinéfilo de verdade estava esperando esse filme da mesma forma que os nerds estão esperando Star Wars, afinal não é qualquer dia que podemos assistir uma reunião entre Steven Spielberg, Irmãos Coen e Tom Hanks em um filme sobre a Guerra Fria. E o mais legal é sair da sala com a linda sensação de que o dever foi cumprido e as forças se complementaram para dar vida ao melhor filme live-action de Spielberg desde Prenda-me Se For Capaz.

O filme aborda dois momentos da história de James Donovan, um renomado advogado de seguros de Nova York que é puxado pra dentro da disputa por informações entre EUA e União Soviética. No primeiro momento, ele é convocado para defender um espião russo em um julgamento que já tinha resultado decretado. Depois ele passa a ser o responsável por negociar uma troca entre prisioneiros que envolveu a URSS e a Alemanha Oriental.

O roteiro, escrito por Matt Charman e revisado por Joel e Ethan Coen, faz essa divisão de maneira bem didática, separando claramente as partes em dois atos distintos e desenvolvendo cada uma delas de maneira bem simples. É um caminho que tem o claro objetivo de permitir que todos os públicos consigam entender os acontecimentos e aquele momento histórico, mas isso deixa de ser um problema quando o longa sabe o que precisa ser simplificado e consegue balancear isso com diálogos ricos, alguns momentos de forte argumentação e outras cenas que fazem questão de trabalhar com a atenção do público.

O desenvolvimento também consegue passar toda a urgência e a dramaticidade dos eventos sem ficar muito pesado ou denso, afinal é difícil suportar 140 minutos de pura tensão. É nesse momento que o trabalho dos Irmãos Coen fica mais do que claro, já que o longa possui doses interessantes de sarcasmo e alguns momentos que possuem um humor sutil e bem apropriado. É realmente um balanço de forças que permite que o filme tenha um tom perfeito.

Da mesma forma, a direção de Spielberg se encaixa como uma luva aqui, porque ele sabe lidar com o timing cômico dos Coen e também consegue criar um balanço impecável entre o didatismo e aquelas cenas mais subjetivas, que são feitas para quem presta atenção em cada detalhe. Assim acaba sendo inevitável que alguns cortes sejam extremamente óbvios, mas, ao mesmo tempo, algumas cenas (como a ótima abertura que apresenta o espião) possuem metáforas visuais incríveis e muito mais conteúdo do que uma primeira olhada consegue absorver.

Entretanto a melhor parte do seu trabalho está em como o tom do longa consegue refletir uma mistura elegante entre a seriedade dos seus últimos filmes com uma pitada daquele clima de aventura que cercava Indiana Jones e Jurassic Park. É algo que pode soar estranho para um filme que não tem cenas de ação, mas não é difícil perceber que tudo isso está impresso em cada um dos movimentos de câmera pensados por ele, incluindo os seus arrojados planos-sequências que substituem aquela quantidade excessiva de cortes e planos que é cada vez mais comum no cinema atual. Mestre Spielberg sabe que a tensão não precisa desse recurso para ser sentida pelo público e o ótimo clímax, que me lembrou muito o final de Argo, demonstra isso com clareza e perfeição.

Tudo isso é acompanhado de forma segura pela parte técnica. O eterno colaborador de Spielberg, Janusz Kaminski, faz um trabalho impecável com uma fotografia que busca quase sempre a exultação do protagonista, a direção de arte, que ficou nas mãos do vencedor de Adam Stockhausen, faz uma recriação perfeita da década de 60 e a trilha musical de Thomas Newman conclui tudo com a representação poder americano presente em cada nota.

O elenco, que obviamente é essencial para a força do conjunto da obra, também faz um trabalho incrível dentro do que foi proposto pelo roteiro. Tom Hanks, por exemplo, conduz o filme com a simplicidade proposta pelo roteiro, mas não perde em nenhum momento a postura e a firmeza que o seu personagem necessita para conseguir convencer dentro de um caso tão complexo. Já Mark Rylance ganha muito destaque como o espião e entrega uma atuação singela e digna de uma indicação ao Oscar.

Alguns podem até dar mais atenção a essa parte mais simples e dizer que o filme não é tudo isso, entretanto o que continua chamando minha atenção é o fato dele ser brilhantemente executado dentro dessa proposta. Provavelmente não vai ser o melhor filme do ano, mas é um forte candidato ao Oscar e merece ser assistido por sua parte técnica espetacular, seu roteiro interessante, suas boas atuações e uma direção que reúne tudo o que faz de Spielberg um mestre do cinema.

OBS 1: Fiz questão de ressaltar o filme como um dos melhores longas em live-action de Steven Spielberg, porque As Aventuras de Tintim também é um dos meus favoritos dentro da sua carreira.

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