Crítica: Planeta dos Macacos – A Guerra

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Macacos unidos em uma das melhores trilogias do século XXI


Desde aquela reviravolta fantástica que abalou 1968, a franquia Planeta dos Macacos teve um total de oito filmes que vão desde de sucessos icônicos a decepções instantâneas (eu ouvi Tim Burton?). Por conta de certos fracassos, a nova fase da franquia teve que quebrar uma grande parcela de desconfiança com A Origem e entregar uma das melhores produções de 2014 com O Confronto – que ainda é meu favorito – para realmente chamar a atenção as pessoas. A Guerra chega aos cinemas com a missão de encerrar um capítulo dessa franquia visceral, emocionante e ironicamente humana que já merece seu lugar entre as trilogias obrigatórias do cinema.

Após explorar justamente a origem desse futuro pós-apocalíptico com o vírus criado pelos humanos e o estopim dos conflitos através da liderança de Caesar, o novo filme coloca os símios em combate direto contra um grupo paramilitar que guarda segredos decisivos para a formação do famigerado Planeta dos Macacos (considerando, claro, que esse sempre foi o objetivo declarado do prequel). O roteiro escancara esse ponto de chegada através de diversas referências cênicas, mas está – inteligentemente – mais preocupado com a construção de uma história coesa em si e dentro da franquia como um todo.

Em primeiro lugar, os roteiristas se preocupam com a elaboração de um texto muito bem amarrado em relação as suas causas e consequências, motivações, estabelecimentos de novos personagens e desenvolvimento das relações entre cada parte. Isso pode ser claramente notado tanto nas diferenciações de personalidade que ultrapassam o visual dos macacos, quanto no fato de qualquer reação remeter a algum elemento construído ou, no mínimo, citado anteriormente. Por exemplo: quando Nova se emociona com uma morte que não precisa ser especificada, seu comportamento não soa falso porque sua relação com tal personagem foi perfeitamente estabelecida alguns minutos antes. Ou seja, nada é aleatório.

Em segundo lugar, o longa opta por se concentrar ainda mais na jornada pessoal de Caesar e transformá-lo no polo centralizador de todas as subtramas. Essa decisão cria um certo senso de continuidade ao explorar devidamente as repercussões da morte de Koba na evolução do protagonista como líder, enquanto trabalha uma gama de dilemas morais que o transformam em dos personagens mais ricos e completos do ano. Ao contrário dos humanos que possuíam seu próprio núcleo e cruzavam com os símios por puro acaso, os paramilitares liderados pelo Coronel estão intimamente ligados ao Caesar e isso cria algumas das melhores relações antagônicas do longa.

A relação entre os dois personagens funciona perfeitamente sem cair por um segundo no maniqueísmo barato, sendo ambas motivações compreensíveis, palpáveis, reais e brutais. São eles que eventualmente carregam o filme nas costas ao liderarem seus soldados de formas opostas, mas isso não exclui a construção paralela de coadjuvantes tão complexos e interessantes quanto protagonistas. Esse conjunto injeta peso emocional no desenvolvimento e faz com que cada morte, sacrifício, grito de “apes together strong” ou declaração de apoio a Caesar sejam sentidos pelo espectador. E não é qualquer filme que consegue fazer isso com tamanha qualidade.

Matt Reeves – que também roteiriza o filme ao lado de Mark Bomback (Duro de Matar 4.0) – se consagra como um dos grandes diretores dessa geração. Apesar de não ter uma assinatura forte, o diretor (responsável pelo ótimo Cloverfield: O Monstro) conduz tudo de forma realmente impressionante. Os enquadramentos incomuns, a fluidez da câmera que se movimenta em meio às complexas batalhas e os close-ups que preenchem a tela com emoção constroem um filme que se permite explorar detalhes dramáticos com mais força do que muitos filmes ditos de arte.

Também é interessante perceber que esse Planeta dos Macacos bebe de ótimas fontes como Os Intocáveis (o faroeste de Clint Eastwood, não o homônimo francês), Apocalypse Now e A Ponte do Rio Kwai ao passo que transita por diversos gêneros como o road movie, os filmes de guerra, os westerns de vingança e os dramas familiares sem perder fluidez, ritmo ou foco. Mais do que isso, essa construção injeta dinâmica e estrutura o filme como um grande crescendo emocional que diverte, faz refletir e entrega seu ápice no momento exato.

Além disso, Reeves apoia o filme em um subtexto que não merece passar despercebido, abordando a empatia de um jeito metafórico e incrível. Planeta dos Macacos – A Guerra – e a franquia como um todo – constrói vários paralelos com a política atual dos EUA (apesar de serem finalizados antes da era Trump) e fala abertamente sobre o preconceito; a importância de enxergar todos os ângulos, entendendo o próximo antes de agir; e, principalmente, a necessidade de conviver com as diferenças ao invés de construir muros. A construção de personagens sem heróis ou vilões clássicos ajuda a reforçar esse conceito, assim como o fato da tal guerra do título funcionar mais como uma metáfora para os dilemas do protagonistas do que uma representação da ação em si. Até porque essa também não acontece entre os adversários esperados.

Por fim, esse texto não poderia chegar perto de suas últimas palavras sem falar dos ótimos componentes do elenco, principalmente aqueles apoiados por uma tecnologia que evoluiu ainda mais desde o segundo filme. Andy Serkis (O Senhor dos Anéis) é logicamente o corpo e a alma da franquia com sua composição de Caesar, sendo realmente incrível a forma como seu olhar, entonação e movimentos corporais saltam da tela ao mesmo tempo em que a captura de movimentos elimina qualquer resquício humano dos macacos. Talvez seja essa confusão que o afaste das grandes premiações, apesar dele carregar um personagem complexo e em constante evolução nas costas.

No entanto, seria injusto falar só dele no meio de um elenco que brilha tanto no lado primata, quanto no humano. Steve Zahn (Capitão Fantástico) interpreta um Bad Ape que se divide entre um timing cômico ingênuo (elemento pouco usado na franquia, mas que cai muito bem aqui) e um plano bastante triste; Karin Konoval (Arrow) constrói Maurice com uma sabedoria que pontua os momentos mais dramáticos com perfeição; e Terry Notary (Kong: A Ilha da Caveira), Ty Olsson (A Cabana) e Michael Adamthwaite (O Bom Gigante Amigo) fazem que Rocket, Luca e Red Donkey passeiem por momentos de sofrimento e lealdade com personalidade. Já entre os homens, as referências ficam obviamente com Woody Harrelson (Quase 18) e a pouco conhecida Amiah Miller (Quando as Luzes se Apagam).

Ou seja, só posso reforçar que Planeta dos Macacos – A Guerra encerra a saga de Caesar – não necessariamente a franquia – de forma muito próxima da perfeição. É um filme cercado por grandes atuações, qualidade técnica impecável, um trabalho de direção brilhante e um roteiro que entende o conceito de fazer refletir em meio a doses cavalares de diversão, sendo a prova cabal de que um prequel pode funcionar, caso seja bem pensado, estruturado e produzido. Pessoalmente, eu não vi o tempo passar, sai da sala bastante abalado emocionalmente e encarei uma única certeza: essa trilogia é uma das mais marcantes dos últimos 25 anos, enquanto o filme em si já pode ser escalado como melhor blockbuster de 2017 (até então).


OBS 1: Nunca tinha ligado o nome a pessoa, mas Terry Notary vem ganhando espaço – ao lado de Andy Serkis – como um dos maiores especialistas em captura de movimentos de Hollywood. Além de interpretar o Kong no último longa do personagem, ele também participou ativamente – como ator e treinador de movimentos – de Avatar, Warcraft, O Hobbit, As Aventuras de Tintim, O Bom Gigante Amigo, Esquadrão Suicida, Vingadores: Guerra Infinita e o novo Rei Leão em live-action.


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