AODISSEIA
Filmes

Crítica: Piratas do Caribe – A Vingança de Salazar

Um bote furado, mas bem longe de naufragar

27 de maio de 2017 - 15:30 - Flávio Pizzol

É impossível começar essa crítica sem lembrar com a ideia de transformar um brinquedo em filme se tornou um dos maiores acertos comerciais da Disney, elevando Johnny Depp ao status de astro durante o percurso. A recepção da crítica e do público surpreendeu, o faturamento foi bilionário e nem a qualidade condenável de alguns longas foram capazes de afastar o público dos cinemas. O resultado de todo esse caminho é mais uma continuação na figura de Piratas do Caribe – A Vingança de Salazar: um quinto filme repetitivo e desgastado, mas bastante divertido.

Dessa vez, a história acompanha Henry Turner (o filho do Legolas em pessoa) em sua jornada para encontrar o Tridente de Poseidon, um artefato mágico que poderia acabar com a maldição que seu pai abraçou no terceiro longa. Sua única ajuda vem através de uma jovem astróloga e do renomado Jack Sparrow, porém as coisas complicam quando todos precisam fugir de uma tripulação fantasma liderada pelo vingativo (dã!) Capitão Salazar.

Assim como aconteceu no longa anterior, a produção busca injetar novos ares na franquia com contratação de novos diretores. Os noruegueses Joachim RønningEspen Sandberg (do ótimo Kon-Tiki) não extrapolam nenhuma regra habitual, mas cumprem a sua parcela da tarefa ao impor ritmo e inventividade às cenas de ação. Eles criam cenas realmente inspiradas, brincando tanto com efeitos práticos quanto com um CGI de ponta. Mesmo parecendo um pouquinho com a cena da roda em O Baú da Morte, aquele momento da guilhotina desponta como um dos destaques.

O design de produção em geral também continuam sendo um acerto indiscutível. Navios, figurinos, criaturas e armamentos sempre foram marcantes dentro da franquia, mas preciso admitir que a construção visual do Capitão Salazar me conquistou logo de cara. A boca preta, a cabeça oca e os cabelos que parecem estar sempre embaixo d’água criam uma personificação assustadora e, ao mesmo tempo, muito bonita. Talvez ele só perca para Davy Jones e seus tentáculos em movimento.

Apesar de apostar apenas principais acertos de outrora, roteiro de Jeff Nathanson (Prenda-me Se For Capaz) tem mais dificuldade para se sustentar e chega se tornar cansativo em alguns momentos. A estrutura narrativa é completamente repetitiva, as sugestões de conexão entre os filmes soam um tanto quanto forçadas, a mitologia é usada diversas vezes como deus ex machina e as relações entre os personagens são sustentadas por meros acasos. Os três protagonistas, por exemplo, simplesmente se esbarram por pura decisão de um roteiro preguiçoso.

Suas respectivas motivações até que são bem apresentadas, mas vão se perdendo no meio de personagens apáticos, mais coincidências e escolhas um pouco machistas. Henry Turner e sua vontade de salvar são bem apresentadas e funcionam como uma espécie de fio condutor para a trama, porém a atuação de Brenton Thwaites (Deuses do Egito) entrega alguém sem carisma suficiente pra arrancar a torcida do espectador. Jack Sparrow continua o mesmo protótipo de Han Solo exagerado, mas Johnny Depp (Animais Fantásticos e Onde Habitam) deixa claro que já não tem o mesmo vigor e ânimo para fazer aquele papel. Pelo menos, as piadas direcionadas pelo Capitão funcionam em sua maioria.

Em contrapartida, o restante do elenco consegue se destacar com mais facilidade no meio do texto. Kaya Scodelario (Maze Runner: Correr ou Morrer) enfrenta uma motivação apenas sugerida e o fato de ser a única mulher com presença de cena no filme inteiro, mas acaba brilhando quando incorpora uma Carina inteligente e determinada. Geoffrey Rush (Genius) continua roubando todos os holofotes para o Capitão Barbossa, transitando por momentos espetaculares até quando as reviravoltas surgem do nada e as conclusões de novela enchem a tela. E, por fim, Javier Bardem (007 – Operação Skyfall) aproveita a história regressa de Salazar para transformar um vilão genérico em alguém sólido e bem motivado.

Apesar dos trancos, barrancos e imitações baratas do romance entre Will e Elizabeth, os personagens possuem uma relação bem construída e conduzem o espectador por uma trama contida e enxuta. Não existe nenhuma dúvida de que a fórmula está bastante desgastada, porém Piratas do Caribe – A Vingança de Salazar cumpre sua proposta de ser uma boa aventura e vale muito mais a pena do que aquela coisa decepcionante que chamam de quarto filme. Pelo menos esse retorno diverte o suficiente e não deve decepcionar quem estava com as expectativas medianas. Esse é um indício muito positivo, considerando que as buscas por tesouro não vão parar tão cedo.


OBS 1: Kaya Scodelario é meu novo crush do cinema. Que olhos azuis e jeitinho brasileiro!

OBS 2: A cena pós-créditos (fique até o final!!) pode indicar várias coisas, sendo que a mais interessante é o retorno de um vilão clássico.