AODISSEIA
Filmes

Crítica: Pequeno Segredo

24 de novembro de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

Esse filme não me representa!


pequeno-segredo-posterPrimeiramente, preciso dizer que o Pequeno Segredo passaria despercebido pelos cinemas nacionais, caso não tivesse ganhado um impulso após as polêmicas envolvendo Aquarius e a sua candidatura sem partido ao Oscar. A sala estava praticamente vazia e maioria do público estava dividido entre quem rejeita o filme sem pensar duas vezes e quem – como eu – tentou assistir para comprovar. No entanto, a única coisa que fica clara ao final da sessão é que existe algo errado na seleção desse filme como candidato brasileiro para a premiação “mais importante” do cinema mundial.

Essa é uma pergunta que não vai sair da cabeça dos amantes do cinema nacional, mas a proposta desse texto não é entender as motivações por trás dessa escolha. O objetivo aqui é simplesmente analisar o filme que conta a história de uma família (os já conhecidos Schurmann) que mora em um barco, aproveita a liberdade do alto-mar e direciona sua vida para a busca de novos lugares para visitar. As coisas mudam um pouco quando eles conhecem um outro casal meio brasileiro que mora na Nova Zelândia e pode mudar suas vidas para sempre.

A premissa é realmente batida e o próprio filme não parece se preocupar com esse mar de clichês, porque sabe que a história em si poderia ser bem estabelecida e emotiva sem sair do lugar comum. O problema está em construir sua narrativa em torno de um mistério que pode ser desvendado em pouco tempo de projeção, esquecer que não está produzindo um documentário de natureza para o Globo Repórter e não conseguir passar nenhuma das emoções propostas por causa de uma quantidade absurda de escolhas erradas.

O roteiro escrito por Victor Atherino (Faroeste Caboclo) e Marcos Bernstein (Central do Brasil) e David Schurmann (o próprio diretor) parece ser vitima de todos esses problemas ao mesmo tempo. Mesmo passando por épocas e países diferentes sem ficar justificando cada transição, o resultado geral é um texto previsível, redundante e extremamente literal. É impossível contar as vezes em que a narração fala a mesma coisa que está acontecendo em cena ou os momentos que poderiam ser simplesmente retirados por serem figurinha repetida.

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A proximidade que o diretor possui com a história adaptada ainda nubla algumas decisões. Os personagens são completamente rasos, as elipses temporais cortam informações importantes para o enriquecimento de suas motivações e o público precisa usar a imaginação (de um jeito negativo) para entender reações que soam exageradas para quem não acompanhou a história de perto. Tenho certeza absoluta que todos os momentos mostrados em cena marcaram a família de alguma forma, mas só isso não basta para que elas também mexam com o espectador.

David certamente sabe como filmar, tem um domínio de enquadramento muito bom e usa toda a sua já citada experiência como documentarista para inserir alguns toques de beleza no filme, entretanto não tem encontra o tom de alguns membros do elenco e erra miseravelmente na construção da parte emocional do seu longa por conta dessa mesma proximidade. A reunião disso com os problemas de roteiro cria um discuso vazio, considerando justamente que nem tudo que ele ou sua família sentiram na época vai fazer sentido sem ser efetivamente mostrado na tela, no filme.

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A lição é que não adianta ter imagens belíssimas, monólogos sobre o amor escritos para emocionar e atuações capacitadas de Julia Lemmertz (Meu Nome Não É Johnny), Erroll Shand (Meu Monstro de Estimação), Maria Flor (Xingu) e Fionnula Flanagan (Lost) quando o roteiro se perde em momentos espaçados e a câmera esquece de mostrar um simples abraço para representar o amor entre avó e neta. E o resultado, logicamente, acaba sendo um filme instável que se perde em uma história familiar, não emociona como gostaria e se sustenta em duas ou três cenas onde o apelo novelesco parece sumir misteriosamente.

Sendo curto e grosso: não merece estar no Oscar por ser inferior a Aquarius, A Despedida, O Roubo da Taça, O Silêncio do Céu, Boi Neon, Mãe Só Há Uma e tantos filmes que fizeram esse ano ser tão marcante para o cinema brasileiro.


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