Crítica: Paterson

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O filme do homem comum


Na minha vida de cinéfilo, eu sempre ouvi uma frase de pessoas que sabiam mais do que eu e até de amigos próximos: “Cinema é conflito”. Dizem, que se um livro não te prender até o 2º capítulo, ou um filme não fizer o mesmo nos 20 minutos iniciais você pode abandoná-lo, pois dificilmente vai gostar dele. Se você se agarrar a “teoria do conflito” em Paterson – novo filme de Jim Jarmusch (Amantes Eternos) – vai perder um dos melhores filmes desse ano.

Acompanhamos a história do jovem motorista de ônibus Paterson, que nasceu e vive na cidade de mesmo nome em Nova Jersey. Somos levados a assistir uma semana de sua vida monótona. Paterson acorda ao lado da linda esposa, come seu cereal, faz o mesmo caminho parar ir trabalhar. Antes de dirigir o ônibus, escreve poesias em um caderno, escuta histórias dos passageiros, almoça e escreve mais poesias – volta pra casa e sempre conserta a caixa de correio que está torta. Depois do jantar leva o cachorro pra passear e toma uma cerveja no bar. E assim é a vida de Paterson.

É interessante notar que ele não se incomoda com isso. Paterson não almeja grandes coisas – o que pode ser julgado como falta de ambição, se mostra como uma opção sua de apenas viver a vida a seu modo. Viciado em rotina, ele poderia ser considerado um homem chato, o que acaba não acontecendo, já que a empatia que o personagem transmite é imediata. O contraste com sua mulher – tão diferente dele – cheia de sonhos e que cada dia muda algo na casa, é perfeito. Os dois são tão distintos, mas se amam.

Adam Driver se torna perfeito no papel, em um personagem bem diferente do explosivo Kylo Ren em Star Wars VII. O ator é alto, desengonçado, introspectivo e singelo em sua atuação. A sua esposa Laura vivida por Golshifteh Farahani (Êxodo – Deuses e Reis) é linda, tem muito talento e tem uma aura de super-protetora, a relação parece estranha no início, mas com o tempo você entende porque os dois estão juntos – é algo genuíno. No meio deles o cachorro Marvin, que se torna um personagem essencial pra dar algumas camadas ao personagem, e os passeios com ele – terminando no bar, rendem as melhores cenas. Donny (Rizwan Manji) é o contraponto de Paterson, já que o motorista poeta sempre diz “estou bem” ao passo de que seu chefe sempre fala que não, seguido de um monólogo de reclamação.

Como disse antes, Paterson é viciado em rotina, e quando algumas coisas saem da ordem natural, a beleza está justamente em reorganizá-las. No fim de semana, sua mulher sugere um simples jantar, seguido de um cinema – algo que ambos não fazem há um bom tempo. Paterson se agrada e diz para ela que quer repetir aquilo todo sábado. Em poucas frases, o poeta diz quem é e o que quer: apenas viver. Em outra ocasião, sua esposa diz que os ônibus da cidade, poderiam ser trocados por novos e mais modernos um dia – ele olha com desdém e diz: “Em Paterson? Improvável”. O personagem de certa forma se refere a ele mesmo. Ele está bem, é feliz, e não deseja mudar nada daquilo. Ao contrário da figura da esposa, que almeja mais para ela e ele, mas acaba apoiando-o em suas decisões, não se tornando uma espécie de vilã da produção.

Com uma direção e edição tranquilas e até bonita ao retratar as poesias, Paterson é um filme que merece atenção por mostrar que nem tudo precisa de grandes reviravoltas ou desastres. Em alguns momentos você chega a pensar que vai dar “alguma merda” – mas logo sua expectativa é quebrada em resoluções surpreendentes e igualmente normais.


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