AODISSEIA
Filmes

Crítica: Passageiros

6 de janeiro de 2017 - 11:00 - Flávio Pizzol

Uma escolha, dois filmes diferentes e muita discussão


A ficção científica é um gênero que geralmente absorve vários estilos, temas e outros gêneros dentro da sua estrutura. Podemos até dizer que o estudo que a mesma faz sobre a percepção humana costuma pedir por essa diversidade, afinal nós lidamos com a violência, sentimos medo, damos risadas e nos apaixonamos inúmeras vezes durante a vida. Passageiros é um longa que poderia seguir vários caminhos: a comédia dramática dos primeiros episódios de The Last Man on Earth, um suspense sobre alguém enlouquecendo graças ao isolamento ou quem sabe um drama ideológico muito complexo. No entanto, ele faz uma escolha que pode definir o seu valor no mundo e gerar praticamente dois filmes diferentes.

Passando de forma rasa por quase todos esses caminhos e aproveitando várias referências a Naufrago, 2001: Uma Odisseia no Espaço e O Iluminado, a premissa segue um engenheiro mecânico que acorda da hibernação noventa anos antes do previsto, enquanto sua nave viaja para um novo planeta com o propósito de colonizá-lo. Ele sofre com a solidão e tenta aproveitar o restante de sua existência até que uma escritora, chamada Aurora (não por acaso, o nome da Bela Adormecida) surge em sua vida.

Essa seria uma sinopse comum, caso eu não precisasse expôr nada sobre o filme durante a construção desse texto. Isso não pode acontecer aqui, porque toda a trama gira em torno de um momento-chave completamente machista a partir do instante em que Jim decide acordar Aurora e – basicamente – condená-la a morte junto com ele. O roteiro até tenta justificar o ato, mas o filme já vai ter desmoronado para quem não concordar ou não souber lidar com essa decisão.

É algo incômodo que, de certa forma, reflete a nossa sociedade, no entanto eu já tinha lido esse spoiler específico em um artigo e optei por comprar a ideia da narrativa antes de completar o meu julgamento. E a verdade é que um pouquinho de empatia já basta para compreender o lado desse personagem que está passando por uma situação um tanto quanto incompreensível, enquanto o texto de Jon Spaiths (Doutor Estranho e Prometheus) entrega uma mistura saudável entre ficção científica e comédia romântica que se apropria de vários clichês de ambos os gêneros. Claro que poderia ser mais marcante caso optasse por investigar o tal momento com maior profundidade, mas não posso negar que a ideia central funciona e diverte na medida certa.

Mas seria muito difícil isso não acontecer, já que o longa coloca boa parte dos holofotes na dupla de protagonistas interpretada por Chris Pratt (Guardiões da Galáxia) e Jennifer Lawrence (Jogos Vorazes). Eles até recebem o valioso suporte dos ótimos Michael Sheen (Masters of Sex) e Laurence Fishburne (Hannibal), mas a trama se apoia quase exclusivamente na beleza, no carisma e na química de dois dos maiores astros de Hollywood. Eles não decepcionam, entregam todos esses valores em dobro e comprovam que são merecedores dos seus respectivos sucessos.

Ao mesmo tempo, a direção do norueguês Morten Tyldum (O Jogo da Imitação) acerta em cheio na construção leve do romance e na concepção visual do longa, acompanhado por ótimos trabalhos de fotografia, edição e efeitos especiais. O design interno e externo da nave são incríveis e cheios de possibilidades, o 3D funciona na maior parte do tempo, a construção da tensão aproveita todas as opções com competência e Tyldum também sabe como posicionar as câmeras para permitir que os protagonistas brilhem e conquistem o público sem muito esforço. Inclusive, ele consegue encontrar pelo menos duas sequências impactantes e/ou inovadoras nas várias vezes em que a nave sofre com a ausência de gravidade, sendo que uma delas é – literalmente – de tirar o fôlego.

Infelizmente, o filme perde muita força no seu terceiro ato, justamente quando deixa que o final seja definido pelo elo mais fraco dessa corrente: a comédia romântica simples e banal. Nada contra a utilização do gênero em si, mas é nesse momento que o filme se entrega, fica óbvio demais e nós percebemos que essa experiência divertida poderia ter sido inesquecível com apenas uma mudança de decisão. O filme acaba com dois lados que podem funcionar com cada tipo de espectador e gerar discussões interessantes, todavia isso não muda o fato que o filme escorrega na sua concepção e na sua conclusão. Resumindo: uma boa diversão que vale como programa de domingo e só!