AODISSEIA
Filmes

Crítica: O Roubo da Taça

14 de setembro de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

Setembro é o mês do cinema brasileiro?


o-roubo-da-taca-posterNinguém pode negar que os anos 80 foram marcantes e o sucesso avassalador de Stranger Things está aí para comprovar isso. Uma década que, no Brasil, foi marcada por generais no poder, crises econômicas que mexiam diariamente com a inflação e a derrota da seleção brasileira dos sonhos em 1982. A gota d’água foi o roubo e o – ainda – mal explicado derretimento de um dos maiores símbolos do nosso poderoso futebol: a taça Jules Rimet ou, para os mais íntimos, a taça do tri.

O responsável pelo roubo, segundo um filme onde “quase tudo aconteceu de verdade”, foi o corretor de seguros Peralta (Paulo Tiefenthaler), um trambiqueiro no melhor estilo malandro carioca que fazia de tudo para participar das coletivas de imprensa da CBF. O objetivo do assalto realizado ao lado de Borracha (Danilo Grangheia) era pagar todas as suas dívidas de jogo e melhorar a vida de sua mulher (Taís Araújo). A grande piada dessa história é que a taça real estava em exposição, enquanto a réplica estava perfeitamente guardada no cofre.

É com plena noção desse lado ridículo da história que o diretor e roteirista Caito Ortiz conduz todo o seu filme com louvor. Contando com o apoio incondicional da Netflix como produtora e abrindo o longa com um ótimo plano-sequência que já deixa a falta de habilidade dos criminosos mais do que clara, o grande acerto do texto (escrito ao lado de Lucas Silvestre) é justamente saber tirar sarro da época em questão, dos personagens, das situações exageradas e das incríveis coincidências que mantém as histórias conectadas.

Isso cria um ambiente leve, bizarro e extremamente hilário que faz piada com tudo, inclusive uma ótima brincadeira com as teorias da conspiração que questionam o fim da taça até hoje. Entretanto, ao contrário do que acontece com frequência nos grandes sucessos de bilheteria do cinema brasileira, todas as brincadeiras estão muito bem equilibradas entre o humor tipicamente idiota que coloca o protagonista para dançar de cueca com a taça (enquanto toma Toddy) e uma leitura muito inteligente do contexto social e econômico que cercava o país na época.

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É quase impossível não rir de pelo menos um desses momentos, que são encadeados de forma ágil durante os 90 minutos de projeção. A direção de Caito dita um ótimo ritmo para o filme e não deixa a peteca cair em nenhum momento, contando sempre com longos planos sem corte, uma ambientação impressionante do Rio de Janeiro na época e o interessante hábito de não deixar a câmera parada por muito tempo. Às vezes você até pensa que o terceiro ato poderia ser cinco minutos mais curto, mas logo alguma tirada engraçada envolvendo a Argentina ou o Mr. Catra faz você abandonar essa possibilidade.

Um direção construída com cuidado e um roteiro muito bem escrito criam o cenário ideal para o elenco – quase todo desconhecido do grande público atual – brilhar. Paulo Tiefenthaler (O Lobo atrás da Porta) está completamente hilário como Peralta, Danilo Grangheia (Ligações Perigosas) funciona como um ladrão cheio de superstições insanas, Milhem Cortaz (Tropa de Elite) repete o seu papel de policial durão com mais leveza, Stepan Nercessian (Os Penetras) brinca com os trejeitos de um possível presidente da CBF (uma instituição séria…), o argentino Fabio Marcoff (El Mate) tem umas duas tiradas muito engraçadas e Taís Araújo (Mister Brau) fecha o grupo com uma mistura perfeita entre força, sensualidade e insegurança.

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O resultado só poderia ser sua vitória merecida – e até então surpreendente – nas categorias de fotografia, direção de arte, roteiro e ator principal do Festival de Gramado, quebrando paradigmas dentro das comédias que costumam entrar em competição. O Roubo da Taça certamente não tem o peso, a genialidade ou a importância cinematográfica de Aquarius, mas é um longa bem dirigido, redondinho e extremamente divertido que também merece nota máxima para celebrar o ótimo momento que o nosso cinema está vivendo nesse mês.


OBS 1: Alguns momentos do filme ainda possuem uma maravilhosa e nostálgica homenagem ao futebol brasileiro. Os boleiros podem ficar ligados!

OBS 2: Antes de Gramado, O Roubo da Taça já tinha levado o prêmio do público no Festival South by Southwest, realizado nos EUA.


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