AODISSEIA
Filmes

Crítica: O Rei do Show

Mesmo apressado, musical consegue encantar e alegrar seu público.

24 de dezembro de 2017 - 14:29 - Flávio Pizzol

 

O nome de P.T. Barnum é bastante reconhecido na cultura pop graças aos seus investimentos – quase inéditos – no mercado de entretenimento do século XIX. A maior parte das suas investidas naquilo que ele próprio denominou como show business eram apenas uma forma de encobrir falcatruas e golpes, mas, ainda assim, deixaram um legado (circos, aquários e museus) que não pode ser reduzido a pó. O Rei do Show mergulha no gênero musical para contar essa história e cumpre a parte mais importante da proposta, apesar de sofrer com diversos trancos e barrancos pelo caminho.

 

O principal destes problemas está na pressa que percorre todo o roteiro de Jenny Bicks (Rio 2) e Bill Condon (Chicago) e prejudica quase tudo que pretende ser trabalhado no longa. Os arcos dos protagonistas são muito bons e refletem com precisão os aprendizados que o longa escolheu mostrar, mas acabam perdendo boa parte do efeito com a aceleração desnecessária da narrativa, principalmente no último ato. Peguem o desenvolvimento da trama do próprio P.T. Barnum como exemplo: sua ascensão como empresário é construída com muito carinho e calma, convencendo o espectador de suas habilidades e motivações, porém sua queda e posterior retorno triunfal acontece, da forma mais corrida possível, em questão de minutos. Tudo parece acontecer com uma facilidade que não condiz com o que havia sido estabelecido até então naquele universo.

 

 

Em segundo lugar, O Rei do Show sofre muito com a vontade ser tanto a cinebiografia de Barnum, quanto um conto épico sobre o valor do diferente (um tema deveras atual e necessário, por sinal). Não se enganem quanto ao fato de ambas as facetas possuem elementos muito legais, no entanto a constante mudança de foco e as longas passagens temporais impedem o devido aprofundamento nos dois lados. Por mais que a retirada de alguns eventos importantes não atrapalhe o longa em si, a suavidade com que o texto trata o lado golpista de P.T. acaba tornando-o apenas mais um personagem homogêneo e repetitivo, ao mesmo tempo em quem seus coadjuvantes do circo são esquecidos por longos períodos. Isso faz com que nenhum dos dois objetivos alcancem sua completude, deixando clara a necessidade de escolher um dos lados como foco.

 

Nessa leva, as consequências de muitos atos de Barnum passam pelos olhos do público sem serem explorados (os artistas do círculo percebem a babaquice dele e falam isso em voz alta, mas tudo acaba aí) e, consequentemente, atrapalham as mensagens e temáticas do longa. A crítica à forma como muitos críticos enxergam a arte, por exemplo, é atual e muito interessante, mas perde muito conteúdo nessa confusão que sequer tenta estabelecer a visão que o protagonista tinha sobre a arte como aspecto central da trama. E o pior é que o roteiro parece querer, sem sucesso, que essa seja uma das forças centrais de um filme sem foco e indeciso.

 

 

No entanto, por mais incômodos que sejam, a maior parte dos erros de O Rei do Show são pontuais e podem ser facilmente ignorados em um musical que funciona muito bem como exemplar de gênero. A direção do estreante Michael Gracey (cotado para dirigir a futura adaptação live-action de Naruto) passa por alguns erros de edição e uma mixagem de som que escancara a dublagem das músicas, mas acerta em cheio no aproveitamento da mise-en-scène, na filmagem de cenários de época majestosamente reconstruídos de verdade ou em CGI e, principalmente, nas coreografias que tanto incorporam a linguagem cinematográfica, quanto brinca com alguns bem-vindos toques teatrais.

 

As músicas em si também são ótimas, e não dava pra esperar menos de Benj PasekJustin Paul, os mesmos autores de La La Land. As letras passam as mensagens motivacionais e revigorantes com sucesso, levam a narrativa pra frente e, quando o roteiro falha, as canções surgem como uma muleta positiva. Apesar de gerar um pequeno atrito quando a cantora de ópera esquece as modulações típicas do seu gênero, o fato de toda a trilha musical ser extremamente atual cria um contraste bacana com a época, reforça a repetição dos mesmos temas até hoje em dia e facilita a relação com o espectador. As incríveis “This Is Me” e “From Now On” já rodaram milhares de vezes no meu celular desde a saída da sessão e poderiam fazer parte do repertório de qualquer diva do pop atual sem dificuldade alguma.

 

Pra melhorar, grande parte desse show é liderado por alguém que merece um parágrafo só seu: Hugh Jackman (Logan). Ele se entrega ao papel com todas as forças, esbanja um carisma único e faz qualquer ingresso valer a pena. Inclusive, o que me fez querer assistir o filme não foi um trailer ou a ótima experiência em realidade virtual que a Fox disponibilizou na CCXP, e sim um clipe que mostra o ator participando eufórico de um ensaio logo depois de uma cirurgia para a retirada de um tumor no nariz. É o tipo de momento emocionante que mostra o quanto Hugh gosta da história e fica difícil não sentir algo pelo filme quando essa paixão ultrapassa as telas.

 

 

Ao seu lado, o elenco coadjuvante de O Rei do Show tem papéis muito específicos para cumprir dentro da narrativa e não decepcionam. Michelle Williams (Manchester À Beira-Mar) e Rebecca Ferguson (Vida) cumprem exatamente tais funções, Zac Efron (Vizinhos 2) mostra conforto com o gênero e comprova seu crescimento como ator e Zendaya (Homem-Aranha: De Volta ao Lar) expressa uma porção de questões dramáticas com o olhar e mostra que pode ter futuro como atriz. Enquanto isso, os quase estreantes Keala Settle (Ricki and the Flash: De Volta Para Casa) e Sam Humphrey (Neighbours) recebem os merecidos destaques entre o corpo de artistas do circo.

 

Dessa forma, O Rei do Show termina com a sensação de que falta alguma coisa, mas, assim como a frase de encerramento propõe, ainda cumpre uma parte deliciosa de sua declaração artística: encantar e deixar um sorriso no rosto do público. O próprio filme falha em deixar essa mensagem clara durante a projeção e certos erros não devem ser ignorados, mas eu também sou obrigado aceitar que, dentro de minhas própria crenças, muito do que o cinema pode fazer se resume ao entretenimento e à alegria. Em outras palavras, apenas mergulhem no universo do longa e sejam felizes!

 


OBS 1: O clipe abaixo é o vídeo dos ensaios que eu citei na crítica. Apenas assistam: